O Brasil classificou-se para as oitavas de final da Copa e o jogo será no próximo domingo. A data é 5 de julho, o que para os jovens não quer dizer nada de mais. Pra mim, associado ao Mundial, essa data é crucial: há 44 anos, em 1982, o Brasil perdia para a Itália por 3 a 2 e foi desclassificado da Copa do Mundo da Espanha.
A gente vive em um tempo em que tem aquela máxima: as pessoas acham que o mundo só passou a existir depois que elas nasceram. É um desinteresse pelo passado muito empobrecedor. Isso leva a opiniões antes impensáveis como questionar a majestade de Pelé ou minimizar a grandeza da Seleção de 1982.
Quem viu, sabe.
E sabe a resposta para a pergunta: o que pode ser maior no esporte que a vitória?
É ser imortal mesmo sem ter vencido. É ser mais imortal que o vencedor.
É algo reservado a pouquíssimos. Nas Copas do Mundo, há 16 equipes que levantaram a taça. E só três que, mesmo não tendo sido campeãs, são maiores que as campeãs que as derrotaram: Hungria 1954, Holanda 1974 e Brasil 1982.
A derrota da Seleção de 1982 fez o mundo (menos a Itália, claro) sentir como se o futebol tivesse morrido. Era o futebol-arte na sua essência. Foi uma das maiores equipes de todos os tempos e é aquela história: se não ganhou a Copa do Mundo, pior para a Copa do Mundo.
O Brasil (de Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Éder e Toninho Cerezzo, treinados por Telê Santana) marcou 15 gols em cinco jogos, dos quais simplesmente 11 são obras-primas. Quantas campeãs podem ostentar uma performance dessas?
Quantas não campeãs inspiram uma edição especial de uma revista pelos 40 anos do campeonato que disputou e não venceu? A Seleção de 1982 foi capa de um especial da Placar em 2002, revivendo jogo a jogo as muitas alegrias e a extrema dor e consternação daquela Copa.
Entre outras coisas, ela traz o depoimento do jornalista e historiador inglês Stuart Horsfield, autor do livro 1982 Brazil: the glorious failure. No canal Fifa+ (também disponível no site do canal) há um documentário chamado Futebol-Arte. Apesar do título em português, também é uma produção britânica da Fifa Films e Here We Go Films. Os dois produtos ingleses dedicam-se a mostrar como aquela Seleção encantou o mundo e até hoje é reverenciada e como sua derrota foi a derrota de todos os amantes do futebol.
Dos incontáveis canais do YouTube por aí, um que estreou há pouco tempo e me pegou de cara é o Por Onde Andrey. Nele, o jornalista Andrey Raychtock conta história do futebol a partir de uma finíssima apuração dos fatos vasculhando os registros de época da imprensa. Seu mais recente vídeo, de uma série que aborda a trajetória da Seleção em algumas copas, é sobre 1982.
Sim, o Brasil perdeu em 1982. Eu, como tanta gente em todo mundo (crianças e adultos), chorei desconsolado naquele dia. Ainda queria ter vencido, claro: que o juiz desse o pênalti no Zico quando o seguraram a ponto de rasgar a camisa dele, ou que a cabeceada do Oscar não fosse milagrosamente defendida por Zoff em cima da linha naquele finalzinho de jogo (muito se fala que aquele time atacava demais e deveria ter se defendido. Se aquela bola tivesse entrado, estaríamos contando uma história diferente).
Enfim, o Brasil de 1982 perdeu a Copa, mas a posteridade é sua vitória. A exaltação de sua arte, décadas depois, é a prova de que há coisas maiores que a vitória.
Se é pra ter perdido, que seja sendo amado eternamente — mais do que quem venceu.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de julho de 2026.