Um dia estava assistindo Bluey com meu filho, quando uma melodia me chamou a atenção. Nós adoramos essa série animada australiana (que pode ser vista na Disney+, no canal pago Disney Junior e no canal oficial no YouTube: https://www.youtube.com/@blueyportuguesbrasil-canal) e já a assistimos completa mais de uma vez. Mas em certo episódio, no qual as irmãs Bluey e Bingo estão passando o dia na casa da vovó, a música de fundo me pareceu familiar.
Nos créditos finais, está lá: “Brejeiro”, de Ernesto Nazareth! O episódio “Charadas” (o quinto da segunda temporada, de 2020) tem o chorinho do compositor carioca nascido em 1863 e que morreu em 1934 como trilha sonora. O fato de um choro brasileiro de 1893 ter ido parar na trilha de um desenho animado da Austrália em 2020 é um atestado e tanto da força cultural da nossa música.
Woody Allen, que é um conhecedor de música, também já colocou Nazareth na trilha de um de seus filmes: “Dengoso” está em Scoop: o grande furo, de 2006. Lá atrás, em 1948, Disney também visitou a obra de Ernesto Nazareth: foi no segmento “Blame it on the samba”, com o Pato Donald e Zé Carioca no filme Tempo de melodia, embalado por “Apanhei-te, cavaquinho”.
A música brasileira é assim: a gente se depara com ela quando menos espera e nos filmes mais inusitados. No clímax de Os Irmãos Cara-de-Pau (1980), por exemplo, uma comédia sobre blues, um pandemônio acontece na entrada de um prédio. Lá dentro, no elevador, os dois protagonistas ouvem a música ambiente: a inevitável “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
Mas essa é uma das canções mais regravadas do mundo. Eu me refiro a registros mais insuspeitos.
Outro exemplo: estava vendo A garota da agulha, o grande filme dinamarquês dirigido por Magnus van Horn, quando me espantei porque parecia ter ouvido alguém cantando em português em certo trecho em que as personagens vão ao cinema. Achei que, em um filme que se passava na Escandinávia logo após a Primeira Guerra Mundial, devia ser imaginação minha. “Que bobagem”, pensei.
Mas vieram os créditos e pimba! “Sublime provação”, valsa do maestro e pianista paulista Eduardo Souto (1882-1942), na voz da cantora e atriz tijucana Alda Verona (1898-1989) em gravação de 1929. Na época, Souto era diretor artístico da gravadora Odeon, onde Alda gravou a canção.
Como danado uma valsa brasileira dos anos 1920 foi parar na trilha de um filme dinamarquês de 2024 que se passa nos anos 1910? Incrível, não é?
E Michelle Pfeiffer cantando “Feelings”, de Morris Albert – aliás, Maurício Alberto Kaisermann, paulista que foi uma daqueles cantores fez carreira cantando em inglês no Brasil e fingindo que era estrangeiro? A melosa “Feelings” (que depois ficou provado ser plágio de uma canção francesa) foi um sucesso internacional nos anos 1970 e acabou na trilha de Susie e os Baker Boys (1988), filme em que a atriz interpretava uma prostituta que revelava talento como cantora e virava crooner no show de uma dupla de irmãos pianistas, ondulando sobre o piano.
Pois quando um deles propôs colocar “Feelings” no repertório, ela mostrou que conhecia a canção: “Alguém realmente precisa ouvir ‘Feelings’ de novo na vida?”.
Mas não teve jeito: ela foi lá e cantou.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de abril de 2026.
