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O final feliz de Carlitos

publicado: 11/02/2026 08h51, última modificação: 11/02/2026 08h51
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Na despedida de Carlitos, ele mais uma vez ruma sem destino em direção ao horizonte; mas agora não está mais sozinho | Foto: Divulgação/United Artists

por Renato Félix*

Não acontecia sempre, mas a imagem final clássica dos filmes de Carlitos era o vagabundo andando em direção ao horizonte, de costas para nós, sozinho e novamente solitário. A querida criação de Charles Chaplin, com 111 anos e por tantos deles um dos personagens mais famosos do mundo, muitas vezes terminava suas aventuras desse jeito melancólico. Ícone do cinema mudo, se despediu das telas quando a plateia ouviu suas primeiras e únicas palavras sonoras, há 90 anos, em Tempos Modernos (1936). E seu final foi feliz.

O filme teve sua premiere em 5 de fevereiro de 1936, em Nova York, e entrou efetivamente em cartaz  há exatas nove décadas no Reino Unido (e no dia 12, nos EUA). O cinema sonoro já tinha dominado o mercado desde 1927, mas Chaplin resistia: Luzes da Cidade (1931) já tinha música, mas não diálogos. O filme seguinte marcaria o fim dessa era para o cineasta.

Tempos Modernos é quase todo mudo, com diálogos ainda aparecendo em textos, nas cartelas. Mas pela primeira vez se ouvem vozes nos filmes de Chaplin. Não por acaso, do diretor da fábrica, dando ordens aos empregados por videochamada. Carlitos, um trabalhador da linha de montagem vai ao banheiro e está lá a cara gigante do patrão dizendo para ele voltar ao trabalho.

A má vontade de Chaplin pelos diálogos sonoros se combinava aqui com a pouca simpatia que ele nutria por esse tipo de opressão ao trabalhador. A primeira imagem de Tempos Modernos é um rebanho de ovelhas andando rapidamente, enchendo a tela, metáfora para a imagem seguinte: uma multidão de trabalhadores saindo do metrô, rumo às fábricas. Com um detalhe: tem uma ovelha negra correndo entre as brancas. Será uma representação do Carlitos?

Esse comportamento de rebanho combina com a robotização do ser humano na linha de montagem, que culmina com Carlitos sendo engolido pelas engrenagens da máquina e enlouquecido apertando a chave de boca em qualquer coisa que pareça remotamente uma porca: o nariz de alguém, os botões nas roupas das mulheres...

Há um monte de outras cenas antológicas: Carlitos querendo devolver uma bandeira que caiu de um caminhão e preso como comunista; dançando de patins numa loja de departamentos vazia; o teste da máquina de comer, para o trabalhador continuar produzindo enquanto almoça.

Para Chaplin, Carlitos só poderia sobreviver no silêncio. Por isso, ele mudou sua ideia inicial que fazer um filme falado para que fosse seu último mudo. E é por isso também que sua voz é ouvida em uma cena, mas de maneira única. Pronto para se apresentar num número musical em um restaurante, ele esquece a letra da canção. “Cante! Deixe as palavras pra lá!”, grita para ele a órfã (Paulette Goddard).

E aí Carlitos canta. Mas as palavras não fazem sentido, são inventadas, e a história da canção está mesmo é em sua pantomima, como sempre aconteceu em seus filmes. Depois, de novo sem eira nem beira, o vagabundo e a órfã estão sentados à beira da estrada. Mas ele a faz levantar a cabeça e sorrir.

No final, ele está mais uma vez andando sem destino para o horizonte, de costas para nós. Mas, desta vez, ele não está sozinho. Isso faz toda a diferença.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de fevereiro de 2026.