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Quando o título original se impõe

publicado: 25/02/2026 08h54, última modificação: 25/02/2026 08h56
Ponto Final - Match Point.jpg

“Ponto Final” ficou mesmo “Match Point” | Fotos: Divuilgação

por Renato Félix*

Quem lembra de Tempo de Violência, aquele filme de 1994 que contava várias histórias interligadas no mundo dos gangsters? Palma de Ouro em Cannes, dirigido por um cineasta em ascensão que teria vários fãs. Se não lembra talvez seja porque você conhece o filme como Pulp Fiction. É um dos casos em que o filme estreou nos cinemas brasileiros com um título em versão brasileira, mas o original se impôs e se tornou o padrão.

No caso do filme de Tarantino, ele chegou às telonas nacionais como Tempo de Violência – Pulp Fiction, com o título original, de maneira incomum, como subtítulo. Quando chegou ao VHS, já inverteu: o subtítulo virou título e o título virou sub em Pulp Fiction – Tempo de Violência, que é como o filme é encontrado hoje na Netflix. Muito embora o filme seja chamado mesmo é de Pulp Fiction e só. 

Pulp Fiction ficou “Tempo de Violência”?

Caso semelhante é o de Ponto Final – Match Point (2006) , de Woody Allen. Por alguma razão, o título original entrou como subtítulo do brasileiro. Talvez numa demonstração da força do original, que a distribuidora brasileira não pôde ignorar no rebatismo do filme.

E aí quando o filme chegou ao DVD no Brasil, houve a rendição apenas a Match Point. Ao contrário de Tempo de Violência para Pulp Fiction, o Ponto Final não virou subtítulo, foi deixado totalmente no limbo.

Em 1978, era como Nos Tempos da Brilhantina que o musical com Olivia Newton-John e John Travolta aparecia nas agendas dos jornais. Também foi assim que o filme foi apresentado nas primeiras exibições na TV, nos anos 1980.

Mas não teve jeito: o título original, Grease, é tão forte que é assim que o filme se tornou conhecido de verdade.  No lançamento em VHS, Nos Tempos da Brilhantina já aparecia como subtítulo e assim ficou até hoje.

Um caso curioso é o de My Fair Lady, o musical com Audrey Hepburn de 1964. Eventualmente tentam colar alguma tradução do título em português: o VHS, por exemplo, chegou a ser lançado como My Fair Lady – Minha Bela Dama

Eventualmente, Minha Querida Dama apareceu em citações nos jornais como o título brasileiro do filme. E as TVs já o exibiram como Minha Bela Dama. Mas o fato é que desde sua estreia nos cinemas ele foi chamado aqui de My Fair Lady, título que permaneceu nos lançamentos em VHS, DVD e blu-ray.

Há também os casos de subtítulos que desapareceram por não acrescentarem nada diante do carisma do título original.  Quem lembra que Taxi Driver (1976), o filmaço de Scorsese, chegou ao Brasil com Taxi Driver – Motorista de Taxi? Pela lógica, o filme deveria se chamar apenas Motorista de Taxi, mas a tradução literal foi usada como subtítulo porque foi impossível se desfazer da força do título original. Com o tempo, foi esquecida.

Deve ser surpreendente também saber que, em sua estreia em 1995, a animação com o cowboy Woody e o patrulheiro espacial Buzz Lightyear se chamou Toy Story – Um Mundo de Aventuras. Um subtítulo inócuo  que não chegou nem ao lançamento em VHS.

Esse fenômeno era comum acontecer também em séries de TV. As emissoras brasileiras criavam títulos muitas vezes esdrúxulos ou genéricos demais para os enlatados que exibiam por aqui. Alguns pegavam, como A Gata e o Rato, comédia de detetive com Cybill Shepherd e Bruce Willis (nossa versão para Moonlighting). Mas era comum a garotada chamar a série pelo nome do protagonista que, por tabela, era o nome original da série.

É o caso emblemático de Profissão Perigo, que ninguém chamava assim. Para todo mundo, era MacGyver. Isso acabou com o advento da TV a cabo, quando predominou desde o começo o título original das séries, como Lost e Friends. Aí, faltava um esforcinho para tentar emplacar um título brasileiro.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de fevereiro de 2026.