João Pessoa tem sido assolada esses dias por fortes chuvas. Quem me conhece sabe que não é o meu clima preferido. Mas, pelo menos, inspirou grandes momentos do cinema.
O maior deles, claro, é o número-título de Cantando na chuva (1952). “Singin’ in the rain” é uma música escrita por Arthur Freed e Nacio Herb Brown em 1929 e que já havia aparecido em vários filmes quando batizou o musical que reunia o portfólio da dupla Freed-Brown. Já se falou muito como Gene Kelly estava com 39º de febre enquanto cantava e dançava debaixo do pé d’água providenciado pela MGM.
Mas – atenção! – não é verdade que leite foi misturado à água para que os pingos fossem melhor captados pela câmara. Foi técnica de iluminação mesmo. E o personagem também não está celebrando a chuva: ele está feliz apesar dela, é bom que fique claro.
Outra cena memorável veio dois anos depois, no Japão. Akira Kurosawa colocava a grande batalha de Os sete samurais (1954) debaixo de um temporal memorável. Os guerreiros que defendem a paupérrima aldeia atraem os bandidos que costumam roubá-la para emboscá-los quando os criminosos pensam que estão invadindo o local.
A sequência foi a última filmada por Kurosawa, levou dois meses de gravações, teve três câmeras em ação simultaneamente e a chuva era artificial. Como foi rodada no inverno, teve gente que foi parar no hospital por conta das baixas temperaturas e do aguaceiro – o astro Toshiro Mifune.
Duas grandes comédias românticas terminam suas histórias debaixo de um toró. Uma delas é Bonequinha de luxo (1961), com a Holly Golithly vivida por Audrey Hepburn procurando seu gato debaixo de chuva em um beco, observada pelo escritor que ela ama (George Peppard) e que sempre acreditou mais no amor do que ela. O beijo vem ao som de “Moon river” e o gato, todo molhado, se comporta direitinho no colo de Audrey.
A outra é Quatro casamentos e um funeral (1994), com o reencontro do casal vivido por Carrie (Andie MacDowell) e Charles (Hugh Grant), que tiveram idas e vindas durante os cinco eventos do título. No último, pouco antes, faz a cerimônia de casamento de Charles terminar em desatre. Debaixo de muita chuva, eles resolvem viver juntos (sem casar) e um raio no céu simboliza a “paixão relampejante” dos dois.
Chuva é bom assim: a gente vendo esses filmes – de preferência no sofá, debaixo de um cobertor.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de abril de 2026.
