Tem um momento em Zico, o samurai de Quintino em que uma passagem de tempo acontece a partir do casamento de Zico e Sandra em 1975: a lua de mel, o nascimento dos filhos, em imagens de super-8, enquanto o Galinho vai arrebentando no Flamengo, em imagens da TV ou do saudoso Canal 100. A sequência é embalada pela versão de Billy Paul para “Your song”.
Um dos ótimos momentos do filme, mas pensei, enquanto assistia: “Essa música não pode estar aí à toa. Por que a escolha dela em especial?”.
A resposta quem dá é o próprio Zico em seguida: quem mostrou essa canção a ele foi Geraldo, colega de campo, amigo-irmão do craque e, dizem, tão genial quanto. E que morreu tragicamente na aurora da carreira em uma cirurgia banal.
Usar a canção pra fazer a ponte de uma história a outra é um dos momentos inteligentes do filme de João Wainer – que, aliás, só fica em cartaz até hoje em João Pessoa, no criminoso único horário das 13h, no Cinépolis Manaíra, a despeito de ter lotado suas sessões no fim de semana). Zico, o samurai de Quintino é cheio de momentos assim, que tornam a sessão mais saborosa para o espectador.
Indo e voltando no tempo, ele navega entre a infância do craque no bairro carioca de Quintino, o Flamengo dos anos 1970 e 1980 e o Japão dos anos 1990, onde Zico simplesmente refundou o futebol do país. E isso pontuado por imagens incríveis em 4k de cenas antigas do futebol que só víamos borradas, egressas das transmissões de TV da época.
E cenas familiares dos super-8 e VHS gravados pela própria família Antunes Coimbra, mostrando a intimidade da família ao longo dos anos. O filme equilibra as glórias (os gols, os títulos, a Libertadores e o Mundial de 1981, a esposa Sandra, as amizades como as de Geraldo e de Roberto Dinamite) com os momentos difíceis da vida de Zico (a morte de Geraldo, a perseguição da ditadura ao irmão Nando, o corte covarde da seleção em 1972, as derrotas nas copas de 1982 e 1986, a contusão criminosa provocada pelo zagueiro do Bangu em 1985).
E dá a dimensão, que nunca temos completamente, da adoração do Japão pelo Galinho. Quando chegou lá, não levou só seu talento, mas seu profissionalismo, dedicação e respeito aos colegas e à torcida, revolucionando o futebol por lá. “Spirit of Zico” é a expressão que criaram.
O formato de depoimentos, que evita as falas isoladas e prefere conversas entre grupos de convidados, funciona muito bem. O papo é natural e de qualidade. Como flamenguista, só reclamo de não terem ouvido Leandro, que era o Zico da lateral naquele Flamengo clássico, e de, no gol de Sócrates pela Seleção contra a Itália na Copa de 1982, terem cortado justo o drible e passe geniais do Zico!
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de maio de 2026.
