No último sábado estive presente a um almoço na casa de um casal amigo. Os meninos tecem juntos o espaço para acolher e celebrar momentos singelos da vida. A casa como sempre um banquete de signos, cheias de imagens afetivas que te lançam para aspectos profundos da vida. Uma casa-poema.
Quando esses momentos acontecem falamos todos e todas pelos cotovelos. Mesmos as pessoas mais caladas participam com alguma história, um sorriso, e permanecem atentas aos mais falantes.
Esses momentos são de comunhão, cumplicidade e muito respeito. Eu poderia também afirmar que são espaços sagrados na vida da gente. É como diz a música Caçador de Mim: abrir o peito a força de uma procura, fugir das armadilhas da mata escura. E não é que lá pelo meio dos mais variados assuntos surge uma pergunta difícil de responder.
Começamos então a pensar sobre a finitude à luz de nossas crenças abrindo uma reflexão entre nós não sobre o futuro, mas sobre o tempo presente. Uma geração hoje atravessada também pela gestão do cuidado de pais, mães, avós, amigos. E num tempo-espaço marcado por forte individualismo e egocentrismo.
Sem que nos déssemos conta abrimos um espaço para a escuta, talvez porque ela nos ajude a desenhar algum horizonte necessário para dentro e para fora de nós mesmos.
Naquele momento acolhemos juntos a nossa necessidade de evocar nosso choro, e a debulhar nossos sorrisos. Porque a consciência de algo chamado tempo pode nos assustar. Como pode também ser uma chave preciosa para viver mais plenamente.
Depois desse almoço, quando voltei para casa, fui lançada às memórias de infância, onde suponho terem sido nutridas as minhas crenças sobre tempo e Eternidade. Recordei, durante um banho, os momentos ao lado de minha avó sorrindo lindamente. O riso longevo dela acompanhando as estações de minha vida foi para mim uma das mais belas formas de oração.
As mulheres lá de casa faziam da fé uma revolução alicerçada na Esperança transformadora. Aprendi a ter fé com elas. Era tudo mais intuitivo, e menos dogmático. A gente ia dia após dia observando os pequenos milagres na vida cotidiana.
Arrastadas pelas mãos de avós, mãe, tia e irmã a gente ia aprendendo a perceber o sagrado na vida, que poderia ser o pão de cada dia, o perdão, a colheita, a chuva, a solidariedade, o amadurecimento, a dádiva da saúde. Era diferente de confessar uma religião. Embora as igrejas sempre estivessem ali perto e fossem parte da vida comunitária numa cidade de interior.
Narrar a nós mesmos com questões que nos inquietam confiando uns nos outros é uma dimensão importante da espiritualidade partilhada. Pão e palavra, amizade e respeito. Escutar sem julgamentos, e poder, com amorosidade, acolher o que é dito e o que não se pronuncia, mas encontra-se no olhar, no corpo em silêncio.
Eu queria ter me dado mais tempo no almoço de sábado que se esticou até o começo da noite. Mas ao sair da casa dos amigos eu me deixei navegar por aquelas questões ao longo de mais dias enquanto observava a beleza e brevidade das flores rasteiras que emergem na areia da praia.
Como se não bastasse, um beija-flor veio pausar suas asas apoiado num fio suspenso da minha varanda. Acostumada a ver as asas batendo freneticamente, vi naquela quietude do pássaro uma lição de que a vida não precisa de tanta pressa.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de maio de 2026.