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Brinquedo do cão

publicado: 17/04/2026 09h12, última modificação: 17/04/2026 09h12

por Sandra Raquew Azevêdo*

Quando eu tinha uns 20 e poucos anos consegui um trabalho como educadora social. Meu local de trabalho era nas ruas, mais precisamente o entorno do antigo trapiche (ou píer) da orla de Tambaú. Numa outra crônica já cheguei a falar um pouco sobre essa experiência.

Mais recentemente, acompanhando o noticiário sobre guerra pelo controle do petróleo no Oriente Médio eu lembrei demais de um jovem, cujo codinome era “Brinquedo do Cão”. Obviamente eu nunca o chamei pela alcunha dada pelos seus colegas adolescentes, que representavam ali uma família provisória.

Naquela época, apenas observava os garotos para entender por que o chamavam assim. Mesmo que tivesse nesse tempo uma ingenuidade do nível da personagem Macabéa, de A Hora da Estrela, não demorou muito para que compreendesse.

Observando os outros garotos entendi que havia uma hierarquia ali bem estruturada, mas sutil que atuava deliberando sobre a vida deles. Quem já leu Oliver Twist, ou viu o filme, percebe um pouco a micropolítica das ruas.

Ele era intempestivo, impulsivo, irônico, a arte era colocar medo nos que passavam perto e nos garotos menores. Falava palavrão com ódio, dominava a cena. Era protagonista, mas não exercia liderança maior, porque sutilmente era manipulado por um outro jovem, já maior de idade, aparentemente tranquilo, sorridente, e que tinha um olhar meigo de esquilo capaz de mascarar sintomas de sociopatia.

Quem manipulava o “colega” de rua era o calmo, tranquilo, cordial, firme, que desenhava o roteiro a ser seguido pelo jovem que poderia “tocar fogo”, “tocar o terror”. O valentão da turma obedecia a “ordens” dentro de uma dinâmica de autoridade que nem todo mundo que estava de fora percebia, apenas quem estava próximo.

Com toda valentia emergente das dores e revoltas com o mundo, ele - jovem negro, filho de pais que sofriam com alcoolismo, relegado a violência como uma condição para existir, habitante do relento, e alvo do racismo estrutural – tinha, quando sóbrio, um bom humor. Era presepeiro quando não estava entorpecido na Orla da Capital. Ele também tinha seus medos. Entre eles, medo de dentista.

Esses dias, ao observar a cobertura das guerras pelo controle do petróleo no Oriente Médio lembrei da alcunha sentenciada ao garoto. Os operadores do neoliberalismo têm usado o caos como matéria prima da manipulação do tempo presente. Inclusive o caos da informação, rompendo com o mundo objetivo comum.

Essas figuras decrépitas de um sistema de poder decadente só não são tão risíveis porque assumem o protagonismo da crueldade que destrói a vida de muita gente, de seus territórios e que corrói o Planeta em que vivemos. São também ecocidas.

Impressiona sempre o simbolismo que usam alinhando política e entretenimento. O reino de Narciso operando os mecanismos da propaganda das guerras. impressionantes como demonização o Outro, promovem a ritualização do medo na vida cotidiana, e a sacralização e onipresença de imagens de morte como expressão de exercício de poder.

Nessa lógica a esfera pública é corroída sistematicamente pelas forças supremacistas, neoliberais. Destruir a interação social, e o papel construído por instituições é um mecanismo de subjugar, controlar a política despolitizando.

Há quem assume o protagonismo como sádico que goza com a destruição e até pode dançar diante de milhares de mortos. Há também quem opere a geopolítica de maneira minimalista. O sadismo é o mesmo.

O neoliberalismo é assim como um alien. Vai corroendo o Estado por dentro e dilacerando o tecido social.  A performance populista, salvacionista, messiânica, como um roteiro a ser seguido, vai tentando neutralizar esse tipo de horror, sacralizando destruição, e de modo refinado entrando na subjetividade das pessoas até, finalmente, devorá-las por inteiro.  

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de abril de 2026.