Mana é uma expressão que no Norte do Brasil significa uma forma carinhosa de chamar irmã. Em 2024, a cineasta Mariana Brennand lançou o filme Manas, para falar sobre a exploração sexual infantil na Ilha de Marajó.
O trabalho de Mariana circulou entre vários festivais com reconhecimento e premiações compartilhando atenções com outros filmes brasileiros, entre eles, O Agente Secreto, dirigido pelo pernambucano Kléber Mendonça Filho.
Manas é um roteiro de ficção construído para falar sobre uma realidade desafiadora, não só no Norte do país, mas em diversos lugares, países, culturas e crenças. Assistindo ao filme eu fiquei pensando no esforço grande de muitas mulheres ao redor do mundo para preservar os corpos de suas filhas – e filhos – de abusos e exploração sexual.
A personagem Marcielle, de 13 anos, representa uma realidade presente em muitos lares em que sistematicamente as meninas em sua maioria, e também meninos, são vítimas de abuso e exploração dentro da família e fora dela.
O filme Manas rompe com a ideia de fatalidade e mostra uma cultura impregnada de violência que legitima o abuso a partir da construção das relações de poder desiguais entre homens e mulheres, no interior da família e tecido social.
Recentemente, em virtude, do Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes - 18 de maio - as mídias pautaram a temática, ouvindo especialistas, divulgando dados e manifestações públicas que aconteceram no país, como também contextualizando informações sobre políticas públicas de enfrentamento e lançamento de guias sobre a questão.
Os dados são estarrecedores, isto porque houve um aumento de 195% dos casos entre 2020 e 2024. De acordo com o Ministério dos Direitos Humanos, as denúncias recebidas pelo Disque 100, saltaram de 6.380, em 2020, para 18.826 no ano de 2024.
Instituições de referência, como o Fórum Nacional de Segurança Pública, afirmam ainda que os casos são subnotificados. O abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes ainda é tema tabu.
Mariana Brennand, ao visibilizar a questão numa ficção, tem como ponto de partida o espaço da casa, da família, e da figura paterna. Ampliando a percepção da questão ao mostrar também as práticas de mercantilização dos corpos infantojuvenis que se mostram tristemente naturalizadas.
É importante ainda lembrar que megaeventos podem ainda elevar os riscos de violação de direitos de crianças e adolescentes. Por isso a necessidade de ações muito articuladas entre as redes de proteção, assistência social, saúde e educação para prevenir e enfrentar situações como exploração sexual, trabalho infantil, desaparecimento de crianças, violência e negligência.
Lembro ainda que não só existe abuso e exploração de crianças e adolescentes em territórios ribeirinhos, nas periferias ou em lugares isolados. Mapeando notícias e levantando dados é possível identificar a diversidade de espaços onde as violações acontecem. A casa, lamentavelmente, é ainda o espaço inseguro, uma vez que 82,5% dos casos envolvem pessoas conhecidas da vítima, inclusive parentes mais próximos e “amigos” da família.
Testemunhamos hoje avanços importantes com a maior visibilidade e campanhas educativas, a formação de redes de apoio e proteção a crianças e adolescentes, políticas públicas voltadas à proteção da infância e adolescência, e marcos legais relevantes como o Estatuto da Criança e do Adolescente, e a Lei nº 15.211/2025, o ECA Digital.
Todavia há uma configuração complexa na mercantilização e monetização advindas de redes de abuso e exploração que passa pela hoje cibercultura, os crimes online. Dados recentes levantados por UNICEF Innocenti, ECPAT Internacional e Interpol apontam que uma em cada cinco crianças sofreu violência sexual facilitada pela tecnologia - plataformas digitais, redes sociais, jogos online entre outras ferramentas digitais. E isso nos mostra que o enfrentamento deve ser cotidiano, integral e eficiente e envolver toda sociedade.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de maio de 2026.