Em 1940, Charles Chaplin protagonizava um filme em que dizia: sinto muito, não quero ser imperador... quero ajudar a todos. Bem no início da semana esse filme me veio à cabeça, diante de cenas repetidas sobre a Venezuela nos telejornais.
Na mesma semana num grupo de discussão entre jornalistas uma pessoa afirma que outra colega, do mesmo grupo, havia dominado o algoritmo. Essa afirmação abriu um túnel imenso em mim. Porque é aí que reside a ilusão na tecno-ditadura em que vivemos, a ideia de que dominamos o algoritmo.
Neste simulacro da vida “real”, essa nova Guerra Fria, a palavra talvez seja um dos aspectos mais relevantes das práticas de aprisionamento. Primeiro a gente convence pela palavra (imagem-simulacro), depois domina e mata.
Talvez nas pseudodemocracias os storytellings sejam bem mais eficientes do que qualquer doutrina econômica. Embora acredite ainda que nessa mutação histórica do capitalismo, nos deparamos com um certo delírio de dominação planetária, enquanto na real, as fontes de sustentação da vida estão, como dizem no interior do Nordeste, por uma peinha (ínfimos, mínimos) para dar conta da sustentação a vida aqui na Terra.
Nessa bizarrice contemporânea que parece uma refilmagem de Star Wars surgem uns salvacionistas com cara de pato amarelado, e que parecem estar entupidos. É um mundo estranho este em que vivemos. O mais louco ainda é pensar que é com a nossa renda, pagando os planos de internet e cedendo nossos dados, que a gente mantém uma parte desta loucura.
O autor grego Yanis Varoufakis chama de renda das nuvens, ou melhor, um capital nuvem. A nova face do capitalismo. E de alguma forma concordo com ele. Na medida em que vejo cotidianamente o esforço imenso de todo mundo para se manter com um celular e pagar literalmente para manter este modo de extrativismo das mentes e de tudo mais.
Enquanto em minha imaginação aparece a Alegoria da Caverna, de Platão, surge também uma pergunta: como recuperar nossa autonomia? Autonomia do tempo, do pensar e do Ser.
Durante a semana fiquei também refletindo sobre as traições. O mundo político está repleto delas, mas não apenas ele. As traições quase não fazem barulho, mas são capazes tais quais drones de fazer desmoronar. Quase sempre, no mundo público, têm sido uma estratégia para se chegar mais facilmente a um alvo desejado.
Mais uma vez pergunto para mim mesma: como recuperar a autonomia, do Tempo, do Pensar, do Ser? Talvez seja a pergunta mais relevante que faça em 2026.
Assim vou vendo os caminhos do humano, enquanto canto bem alto: “Os ventos do Norte não movem moinho, o que me resta é só um gemido. Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos, meu Sangue Latino, minh’alma cativa. Rompi tratados, traí os ritos. Quebrei a lança, lancei no espaço. Um grito, um desabafo. E o que me importa é não estar vencido. Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos. Meu Sangue Latino...” (Sangue Latino, Secos & Molhados)
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 09 de janeiro de 2026.