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Mulheres artistas

publicado: 20/03/2026 09h21, última modificação: 20/03/2026 09h21

por Sandra Raquew Azevêdo*

“O tempo da mulher é diferente do tempo do homem. Eu não tenho todo o tempo para estar no ateliê”. Ouvi esse depoimento da artista visual Cristina Strapação, ao refletir sobre os desafios de sua trajetória profissional. Foi num momento em que as mulheres celebravam o lançamento do livro “Mulheres que resistem nas margens: Arte e gênero na Paraíba” (Ed. Arribaçã, 2025) organizado pelas professoras pesquisadoras Madalena Zaccara e Sabrina Melo.  Fiquei com as palavras ditas na cabeça.

O livro lançado, no último dia 24, é fruto de uma pesquisa intensa e constante das organizadoras e colaboradoras, e coloca em evidência o repertório artístico de mulheres paraibanas. Problematiza o lugar complexo das mulheres nas artes visuais.

A publicação pode ser compreendida como um ato de justiça social e justiça epistemológica, como defende, Patrícial Folgeman, na apresentação do livro que comecei a ler em meio ao turbilhão cotidiano. Um livro escrito no plural a partir da participação de mulheres diversas em seu pertencimento identitário, geracional e social.

O que sabemos do tempo das mulheres paraibanas em suas trajetórias nas artes visuais, se sempre ouvimos falar dos homens na escrita, na pintura, no desenho, na fotografia, na xilogravura, na escultura? Acho conhecemos muito pouco, ou quase nada.

A publicação “Mulheres que resistem nas margens: Arte e gênero na Paraíba” fala do percurso, às vezes exaustivo, de noventa e uma mulheres que assinalam nas artes visuais um jeito de olhar o mundo atravessado pela experiência de ser mulher. Um feminino plural.

Falo exaustivo porque é recorrente ainda em nossos dias as mulheres lutarem para garantir um tempo em que caibam seus sonhos, seus desejos, sua energia vital e criatividade, seu movimento de autoria. O mundo reconhece as mulheres como criadoras, mas muito condicionado ao trabalho reprodutivo.

Cotidianamente a vida de muitas  mulheres é abreviada, especialmente se você for uma mulher negra que more ou trabalhe numa periferia do país sistematicamente exposta às “balas perdidas”, como Andréa Marins, Bárbara Elisa Yabeta Borges, Luciana Pereira, entre tantas outras mulheres que aparecem nos noticiários sem seus nomes próprios, mas com corpos expostos. 

A atuação das mulheres nas artes visuais nos leva a pensar sobre a luta travada para existir no campo simbólico como parte significativa de sua energia vital criadora.

O livro é um ato de resistência, de contra-hegemonia, enquanto construção de alternativas.  O livro, onde se partilha, a história das mulheres artistas, revela um pouco do percurso delas e de seu fazer artístico, suas especificidades, linguagem. Reflete sobre a jornada na construção de alternativas aos papéis de gênero socialmente atribuídos às mulheres, em que quase sempre a arte é subtraída da vida cotidiana.

Uma das coisas que me impressionou no lançamento foi a ausência de muitos homens artistas da cidade. Uns raros estiveram lá. Sei quem são, embora não saiba o nome de todos. Encontrei Flávio Tavares, Hirlen Mendonça, Nelson Barros, Hildeberto Barbosa Filho, Fernando Trevas, e outros homens, amigos, parentes, estudantes. Poucos. Era um evento sobre a trajetória das mulheres artistas, e não era restrito só a presença feminina.

Vez por outra vou às exposições na cidade em que vivo. Frequento quando posso. E testemunho a forte presença das mulheres artistas nas exposições dos seus colegas, artistas homens. Quando observei ali tantas mulheres artistas falando e celebrando suas trajetórias e um vácuo masculino naquele momento tão importante testemunhei a indiferença com que muitas vezes são tratadas.

Naquele momento senti também que precisamos equacionar melhor o tempo de si em nossas vidas. Somos abreviadas pela falta de tempo, porque essa matéria fina da vida é extraviada das mulheres pelo trabalho do cuidado. Existimos em tempos minúsculos. Ser mulher e ser artista exige a conquista do tempo de si para construir o que se deseja ser. 

Ouvimos falar nas brechas construídas pelas mulheres na história. Sinto que é necessário vivenciar um tempo em que caibamos inteiras, não mais nas brechas, um tempo com mais qualidade, um tempo em espiral...

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de março de 2026.