No último domingo tomamos conhecimento da partida da atriz Titina Medeiros, aos 49 anos. Domingo amargo.
Conheci Titina em Campina Grande, quando estava no início de minha vida de mãe. Ela fazia parte do grupo de teatro Clowns de Shakespeare. Era início dos anos 2000. Ir aquele espetáculo infantil, com meu filho, um menino pequeno ainda, me tirou de uma certa solidão da maternidade e abriu horizontes para ele.
O espetáculo era lindo, figurino, cenário, contação de história, as músicas. Aquela trupe inteira ali iluminando, trazendo tanto encantamento e vida. E aquela garota vibrante, de olhos bem vivos, sorridentes e arregalados era a Titina.
A partir daquele momento a presença de Titina e do Clowns começava a fazer parte de nosso aprendizado de viver, de bem viver. Experiência de entrega sagrada do teatro.
Foram anos e anos tendo a alegria do reencontro com a trupe, com a Titina. Até mesmo, durante a pandemia Covid-19, em que lutávamos para sobreviver, e a cultura e artistas daqui eram perseguidos por um governo autoritário. A arte foi parte significativa da salvação naquele período de horror e obscurantismo político e social.
As homenagens a Titina seguem até hoje no espaço da internet, sobretudo falando da importância do seu legado e da necessidade de que não nos esqueçamos da sua dedicação, talento, coragem, compromisso cidadão, lealdade aos amigos e seus ideais.
Certa vez, meu filho já adolescente nos convidou para ver a encenação de Hamlet, pelo Clowns. Após o espetáculo, venceu um pouco a timidez indo falar diretamente com a Titina, expressando seu afeto e admiração.
Noutro momento, em 2018, caminhando pelas ruas de Valparaíso passei por grupo e disse, que moça parecida com Titina. E alguém gritou: é ela mesma!!! Aí a gente caiu na gargalhada. Um reencontro de um monte de nordestino no Chile. A gente arrastando chinela e batendo papo na caminhada até nos despedirmos na rodoviária.
Além da presença física linda, acompanhamos ao longo desses anos a presença de seus trabalhos também nas telas. Titina resguardava sua originalidade. E existia na coletividade, no desejo do fazer-com, do co-existir. Fez de sua jornada uma linda semeadura.
A partida física dela no último domingo foi como um abalo sísmico silencioso, uma rachadura que a gente vê se alastrando, se espalhando. A fé no Sagrado da Vida e da Arte vai quem sabe nos amalgamando, nos colando de novo. Nos costurando devagarzinho.
A beleza desta mulher em sua inteireza vai dando conta de nos refazer diante de sua ausência física. Tem sido um desafio, sobretudo para seu esposo César Ferrario, sua família e amigos mais íntimos. E de toda uma comunidade artística.
Desde sua partida muito tem sido compartilhado. E tudo é de muita profundidade e beleza. É seu olhar atento e sorridente. É sobre sua força ao longo da própria jornada. É sobre amor. E sobre a saudade que fica.
Amigos e amigas têm partilhado uma emoção bonita que emana de Titina, do que foi, e do que pode ser a partir do que deixou como ofertório para todos e todas nós.
É esse sentimento de vida comum, de amor compartilhado que nos convida a reinventar o lugar do luto, da dor das perdas que atravessam o nosso caminho.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 16 de janeiro de 2026.