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O sorriso de Cabíria

publicado: 10/04/2026 09h25, última modificação: 10/04/2026 09h25

por Sandra Raquew Azevêdo*

Minha mãe era um pouco como a personagem Cabíria de Fellini. Era capaz de sorrir com lágrima nos olhos diante do caos de sua própria vida de mulher, arrastada pela correnteza de desigualdades de toda ordem. Silenciosamente esperançosa. De cabeça erguida. Sobrevivente.  Espichando uma corda interior. A lançando como isca para salvar a si mesma e a todas nós.

Eu preciso do sorriso de Cabíria para atravessar meus dias caóticos. Não por acaso, o riso me atrai. Especialmente se vem do lado do avesso dos versos. Se vem das coisas mais lesas (bobas) da vida. Sou capaz de rir dos tropicões (topadas) que já levei.  Risos nervosos, de alívio por não quebrar a cara.

Não consigo permanecer muito tempo ao lado de raivosos, arrogantes, mal-humorados, dos chatos.

Dia desses, divagando submersa nas águas, lembrei muito da minha turma do colégio que obrigada a rezar o pai nosso em inglês, se olhava com risos reprimidos que saltavam aos olhos. A escola era leiga, mas havia contratado uma freira para as aulas de inglês.

As lembranças dessa turma insubmissa destamparam o baú de meus risos. E parecia que as águas riam junto comigo naquele sol de meio-dia. Águas verde esmeralda. O sal das lágrimas mais o sal marinho se juntando e temperando o riso. Cabíria de olhar triste rasgando a solidão e a noite com iluminação do seu riso.

A vida sem humor é quase inexistência. Rir diante do gozo sem julgamentos é estar presente na vida.

Conjugar o verbo mangar tão presente na vida de nordestinos. Mangar é rir com uma malícia atravessada nos dentes. Malícia que criança carrega sempre consigo. E entender um pouco que o riso tem uma ética cristalina.

Eu preciso sorrir mesmo quando estou com dor. Mesmo diante daquele dolorido que ninguém vê e que não tem curativo aparente.

Rir para curar, rir junto. Não por acaso os meus amigos e amigas mais íntimos são um bando de gente lesa (com maior respeito!). Com gente lesa como eu a vida é melhor. É quando a amizade se faz lar. Por isso me julgo como Belchior, uma sujeita de muita sorte.

Gostaria de saber desenhar para cartografar as besteiras que me fazem rir. “Sorrir, quando a dor te torturar, e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios... (Smile/ Sorrir.). As Cabírias de minha história me ensinaram a gramática do riso. O aprendizado da subversão política.

É possível ainda cultivar uma cachoeira de sorrisos por trás dos olhos. E poder se aconchegar nelas quando o medo tenta te abraçar ferozmente.

Na adolescência, na matilha da escola, o riso de meus colegas era um rio em que navegávamos as incertezas da nossa própria vida com felicidade. E era também um código de cumplicidade.

Sim, rir junto nos faz cúmplices de algo que às vezes a gente nem sabe explicar direito, mas que nos faz bem, nos faz livres. Sobretudo se dois olhos se encontram lendo um o mesmo pensamento sem que se diga nada, e se compreenda o todo de um instante.

Eu gosto de gente que é espontaneamente munganguenta (engraçada). quando é muito séria, e, sem que precise fazer graça, entende e encarna em seu ser o encanto e a Dádiva. O riso é uma dádiva.

É um alento poder rir debaixo dos lençóis quando todos dormem. Chorar de rir. Não perder nunca a capacidade de brincar de viver mesmo em meio aos escombros. É um alento o florescimento de um sorriso, mesmo entre pessoas desconhecidas.

Triste de quem não conhece mesmo a matéria prima de um sorriso que destrava o peito, que liberta. Acho que é algo que não se fabrica em shows de humor feitos em monólogo. É como se fosse um milagre que acontece de surpresa dentro da gente.  

Por isso eu acho quase sempre que “há de surgir uma estrela no céu cada vez que ocê sorrir” (Estrela, Gilberto Gil). E acho que quando eu sorrio só ou junto com alguém a vida acontece de um jeito lindo, iluminado, porque a gente encontra e partilha a Esperança.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de abril de 2026.