Ela prepara sua Páscoa. Sabendo ser a última. Essa é um rito de passagem. Ela sabe tanto que decidiu ser protagonista. Como em toda viagem, é preciso preparar-se um pouco. Especialmente se há neste ato um mistério indivisível.
Como é difícil experimentar a Páscoa sem partilha, ela tratou de ser franca desde o princípio. Dizendo do que se tratava. Em situações assim o coração da gente vira um mar difícil de se navegar.
Mas imaginem, que ela, meio como uma capitã shakespeariana, tratou de acalmar a tripulação. Aos poucos, como Cristo, por Esperança, foi ordenando que nossas águas interiores ficassem mais calmas.
De longe organiza suas malas em plena Primavera. E de longe eu desejo que seja a mais bela de todas as estações. Que ela sinta profundamente a explosão de um mundo fecundo, um mundo que silenciosamente se multiplica em cores e frutos.
De longe eu choro sem que ela saiba. E tento em momentos esquecer essa costura aonde a vida vai por um lado sendo desfiada e vai mudando toda a paisagem por dentro de nós.
Ela segue conversando, com impressionante lucidez, mas não sem medo obviamente. Ela segue degustando a vida possível. Certamente lembra muito de todas as coisas amadas que não mais estão. E se achega no amor mais palpável no universo das decisões práticas.
Que Páscoa a ser vivida agora... A vida é agora. E o meu tempo presente, por incrível que pareça a distância, é de alguma maneira acariciar esses fios tênues, silenciosos como se fossem meus cabelos.
Minha abstinência, neste instante, é o silêncio que preciso ter, que sinaliza a aceitação destas horas. Aceitar o que não se pode mudar. Para quem sempre acreditou, por forças da necessidade de sobreviver, que precisava tomar à frente e construir destinos, é uma jornada subterrânea e microscópica acompanhar os bastidores desta Páscoa e, de certo modo, ser cumplice deste pacto com a “finitude”.
Quando eu observo o Infinito tento chegar mais perto dela. Na esperança de que a minha amorosidade lhe alcance em forma de prece.
O preparo de uma Páscoa exige uma força visceral e discreta. Não há alardes. A contrição não representa flagelo, é um caminho de resgate de toda beleza vivida em outros instantes e nos momentos de agora. Ela sabe bem disso, e talvez por isto eu penso que quase se confunde com uma maestrina, regendo o último concerto da temporada.
Eu gostaria de arrumar com ela suas malas, onde estarão suas últimas vestes. Adoraria cantar bossa nova e uns sambas do João e Diogo Nogueira, e muitas das canções queridas de sua lista, até me encontrar no silêncio absoluto. Adoraria escutar sua última piada. Sim, a gente mantém em alta as piadas. E como não querer escutar seus palavrões favoritos contra o Trump e Netanyahu.
Fico me perguntando onde eu vou caber no mundo depois desta Páscoa. Sem que ninguém veja eu vou passeando no fio da vida dela. E degusto um certo amargor de uma Quarta-feira de Trevas, porque atravesso à distância física entre nós como se fosse uma escuridão a ser percorrida.
Ela segue num caminho onde haverá Libertação, e reencontros. Um instante será aberto em que ela definitivamente voltará a sorrir como há muito não conseguia. Um sorriso dos mais belos. É nessa Esperança que encontro algum alento.
Ela aos poucos se entrega à beleza da vida que não se pode ver. E é Primavera. Saber disto faz com que esteja mais próxima. Por isto eu sigo voltando o olhar para as flores minúsculas que brotam na areia, nos meio fios, nas ruínas.
Na Páscoa eu atravesso junto com ela o último hiato.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de abril de 2026.