Na última quarta-feira, estive com minha amiga e maninha, a amada Roselei Bertoldo, na abertura da Campanha da Fraternidade 2026, em Manaus. Enquanto observava a chegada das comunidades para o ato celebrativo da campanha, fiquei lembrando dos meus lugares de morada.
Como filha de trabalhadores, desde cedo fiz o trajeto de mobilidade dentro da cidade, guiada pela realidade de meus pais, que não tinham casa própria — à época era o grande sonho de minha mãe.
As ruas e casas em que morei, especialmente duas delas, significaram muito na cartografia afetiva da minha vida, especialmente pelos aprendizados da vida comunitária.
Mas reconheço que, no universo de minha mãe e irmãos, sempre foi um desafio garantir um teto para uma família tão grande, que significasse um espaço de vida e dignidade.
Ainda hoje a moradia tem sido um dos grandes desafios para a garantia da dignidade humana. Muitos vêem e tratam a moradia como uma mercadoria, uma fatia do sistema financeiro bastante lucrativa.
Não por acaso, os espaços da cidade são cada vez mais disputados em diferentes partes do mundo por pessoas, gestores e empresas que representam um modelo de concentração de renda e poder econômico-político.
Nosso planeta vive, sem sombra de dúvidas, uma grave crise habitacional. Que se amplia em virtude da sistemática destruição dos territórios, de ecossistemas, de modos de vida de povos tradicionais, de deslocamentos forçados por guerras e catástrofes.
As cidades foram ainda radicalmente transformadas. Talvez seja preciso também recuperar o próprio sentido sobre o habitar, o morar, se abrindo um pouco mais para um olhar mais holístico, integral, sobre a cidade, e que inclua outras formas de vida. A Casa-Comum.
Observando a realidade de Manaus, que se assemelha à de tantas outras cidades brasileiras, constatamos que essa realidade tem um rosto: comunidades ribeirinhas, moradores e moradoras de rua, povo negro, mulheres em sua maioria chefes de família.
A crise de moradia significa a negação de um direito humano fundamental, que reflete o passado escravocrata do Brasil, o descaso do poder público com periferias urbanas e a realidade da população sem teto.
Para termos uma ideia da amplitude do problema, a Campanha Nacional Despejo Zero estima que mais de 1,5 milhão de pessoas foram vítimas de despejos ou remoções forçadas nos últimos anos.
Lembro que a pandemia da Covid-19 nos mostrou claramente as condições de moradia extremamente desiguais e precárias em nosso país.
A campanha nos convida a construir uma presença solidária e afetiva nas periferias urbanas, nos chama à reflexão sobre uma questão tão urgente.
Cuidar da existência é perceber ainda como estamos habitando os espaços e como compartilhamos a vida na Casa-Comum.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de fevereiro de 2026.