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Airbnb movimenta mais de R$ 1,6 bilhão em 2025

publicado: 13/10/2026 09h41, última modificação: 13/10/2026 09h41
Aluguel por temporada cresce 11% em um ano e se consolida como negócio
2026.10.06 Airbnb © Carlos Rodrigo (2).jpg

Plataformas registraram 6.457 anúncios em agosto | Foto: Carlos Rodrigo

por Joel Cavalcanti*

As hospedagens por temporada no Airbnb movimentaram mais de R$ 1,6 bilhão em João Pessoa, no ano passado, um crescimento de 11% em relação ao ano anterior, segundo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) encomendado pela própria plataforma. O espaço que esse mercado vem ocupando também aparece no levantamento da AirDNA, uma empresa que reúne anúncios de plataformas de hospedagem, como o próprio Airbnb  e o Booking.com. Em agosto, a ferramenta identificava 6.457 anúncios ativos em João Pessoa, com ocupação média de 56%.

 O secretário de Turismo de João Pessoa, Daniel Rodrigues, estima que existam na capital 13 mil leitos disponíveis na hotelaria e 20 mil ofertados em plataformas virtuais, ou seja, 60% de toda a capacidade de hospedagem estimada. Segundo dados do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Paraíba (Creci-PB), 35% dos lançamentos imobiliários da capital em 2026 já têm esse perfil.

Para a diretora-geral do Airbnb para a América do Sul, Fiamma Zarife, a plataforma descentraliza os ganhos do turismo. “João Pessoa mostra como as viagens podem gerar oportunidades que permanecem na própria cidade. Os gastos dos visitantes chegam aos pequenos negócios, movimentam a economia local e ajudam a gerar renda para moradores de diferentes regiões da capital”, afirma.

A trajetória da engenheira civil Jéssica Santana Ribeiro ajuda a entender como o aluguel por temporada deixou de ser apenas uma alternativa de incremento de renda para se transformar em atividade profissional. Em 2012, antes de se mudar de Feira de Santana, na Bahia, para João Pessoa, ela comprou um apartamento na capital paraibana. Ela alugava o imóvel no Airbnb quando não estava na cidade. Essa é a realidade de 75% dos anfitriões locais, percentual dos que usam a plataforma como fonte complementar de renda, segundo o levantamento da FGV.

Mas, quatro anos depois, Jessica decidiu se mudar definitivamente para a Paraíba e passou a morar no apartamento. A experiência com a locação, porém, fez com que ela enxergasse o potencial daquele negócio. “Quando cheguei em João Pessoa, trabalhava na minha área. Com o tempo, fui conhecendo meus vizinhos e percebi que muitos deles moravam fora da cidade. Eles começaram a me pedir ajuda para administrar os imóveis deles também. A partir daí, uma indicação foi levando a outra, a quantidade de imóveis foi aumentando e o que começou por acaso acabou se tornando meu trabalho”, conta.

Hoje, Jéssica administra 15 imóveis de terceiros e mantém uma casa própria destinada à hospedagem. A atividade tornou-se sua única ocupação profissional. “A administração dos imóveis passou a me dar um retorno financeiro melhor, além de ter horários mais flexíveis. Isso me permitiu ter mais liberdade e uma qualidade de vida melhor”, relata.

Os imóveis administrados por Jéssica ficam nos bairros de Cabo Branco, Tambaú e Manaíra. Essas localidades estão justamente nas áreas com maior aumento no valor do aluguel residencial em João Pessoa, segundo o Índice FipeZAP de agosto de 2026. A capital registrou preço médio de R$ 51,59 por metro quadrado e aumento de 11,6% em 12 meses, o sétimo maior entre as 22 capitais acompanhadas pelo indicador.

Em Manaíra, o valor médio chegou a R$ 54/m², alta de 17% em 12 meses. No Bessa, o aluguel subiu 14,5%. Em Cabo Branco, onde os valores já são altos, subiram 6,4%, enquanto o Altiplano marcou 8,1%. Registros de elevações expressivas também ocorreram no Aeroclube (+22,8%), nos Bancários (+26,8%), no Portal do Sol (+15,9%) e no Miramar (+10,8%).

Expansão acende debate sobre regulação

A busca por limites à expansão desenfreada de locações temporárias mobiliza governos locais no exterior e no Brasil. Barcelona congelou novas licenças para hospedagens de curta duração na tentativa de conter o esvaziamento de bairros centrais, enquanto Veneza passou a exigir cadastro municipal obrigatório, controle do fluxo de visitantes e aplicação de taxas turísticas específicas direcionadas ao custeio de serviços públicos locais.

No Brasil, capitais como Rio de Janeiro e São Paulo debatem marcos regulatórios nas Câmaras Municipais. Na esteira dessa discussão, em maio de 2026, a Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a prática pode ser proibida em assembleia de condôminos por dois terços dos votos, desde que a utilização reiterada e profissionalizada seja caracterizada como uma alteração na finalidade do imóvel.

“É um fenômeno muito complexo, que tem preocupado arquitetos no mundo todo. O Airbnb é uma atividade voltada ao turista, mas, se não for bem regulamentada, causa distorções que geram muitos problemas para os habitantes. O mercado acaba se autorregulando e cria áreas fortemente impactadas, onde a elevação acentuada dos aluguéis afasta a população residente. A cidade precisa de um mix para funcionar bem: você não pode ter um bairro estritamente para turistas, precisa ter habitantes, inclusive para trabalhar nos serviços prestados a esses visitantes”, analisa o arquiteto e urbanista Fabiano Melo, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil na Paraíba (IAB-PB).

Em João Pessoa, os dados disponíveis ainda não permitem vincular que a expansão das hospedagens de curta duração seja a única variável na inflação dos aluguéis, conforme explica o especialista. O arquiteto pondera, entretanto, que a concentração de atividades voltadas aos turistas amplia as pressões sobre os moradores. “Isso precisa preocupar, porque a população local perde a capacidade de adquirir ou alugar imóveis nessas áreas. Todo processo especulativo em excesso gera gentrificação e traz problemas de mobilidade e pressão sobre a infraestrutura existente”, adverte.

Para o presidente do IAB-PB, o debate deveria se caminhar para o controle público. “A cidade é um espaço coletivo e precisa cumprir sua função social. Quando uma atividade privada gera ônus para a coletividade, o poder público precisa intervir. Não acho que seja o caso de proibir o Airbnb, mas de regulamentar. Precisamos de mecanismos de mapeamento, exigência de cadastro na prefeitura e criação de contrapartidas ou taxas que compensem os impactos gerados no espaço urbano”, defende.

Por outro lado, na avaliação de Jéssica Ribeiro, o trabalho para a plataforma mudou suas perspectivas financeiras e o crescimento dos imóveis por temporada acompanha a expansão natural do turismo. “Eu vejo mais benefícios do que prejuízos. Claro que, quando esse crescimento acontece de forma muito rápida, surgem novos desafios. Por isso, acho que a administração da cidade também precisa acompanhar essa evolução. Então, para mim, o problema não é o aumento da oferta de imóveis para temporada, mas a cidade estar preparada para crescer junto com o turismo”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de outubro de 2026.