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Benefícios sociais injetam mais de R$ 8,54 bi por ano

publicado: 16/03/2026 09h32, última modificação: 16/03/2026 09h32
Valor compõe orçamento doméstico e garante fluxo contínuo de consumo local
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Bolsa Família, Auxílio Gás e BPC contemplam mais de um milhão de famílias paraibanas | Foto: Alexsandra Tavares

por Priscila Perez*

Todos os meses, mais de R$ 712 milhões entram na economia paraibana sem passar por grandes obras ou investimentos. O destino é outro: o orçamento doméstico de milhares de famílias atendidas por programas como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Auxílio Gás. Somados, esses três benefícios transferiram mais de R$ 8,54 bilhões diretamente à população do estado apenas em 2025, influenciando desde o consumo básico até o movimento do comércio em praticamente toda a Paraíba.

Embora federais, são recursos que permanecem no território, garantindo um valor mínimo às famílias de baixa renda e um fluxo contínuo de consumo na economia local. Esse é o “efeito multiplicador” que as estatísticas evidenciam quando se observa o caminho percorrido por esse dinheiro, do bolso do paraibano às contas pagas no dia a dia.

O economista Cássio Besarria, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), observa que, por serem direcionadas às camadas mais vulneráveis da população, essas transferências tendem a retornar mais rapidamente ao mercado. “Na prática, para cada real adicional destinado às famílias de baixa renda, a parcela direcionada ao consumo é maior do que a observada entre as famílias de alta renda”, explica. Segundo ele, setores ligados a bens e serviços essenciais estão entre os primeiros a sentir esse impacto.

Na matemática dos benefícios sociais, esses R$ 8,54 bilhões representam uma injeção média de R$ 23,4 milhões por dia na economia paraibana. Diante de tal volume, Cássio chama atenção para o peso que esses recursos assumem quando comparados à própria riqueza gerada no estado. “Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) da Paraíba, em 2023, foi de R$ 96,96 bilhões. Comparando este dado com o volume anual em transferências sociais, elas representam, aproximadamente, 8,8% do PIB”, analisa.

Em outras palavras, isso significa que uma parcela expressiva da atividade econômica do estado tem origem nessa renda adicional que chega diretamente ao bolso do paraibano e movimenta pequenos comércios e serviços locais. “Existem diversos trabalhos que mostram que o consumo derivado das transferências de renda se concentra em bens essenciais. Esse efeito fica mais evidente quando se observa as datas de pagamento dos benefícios. O período costuma gerar aumento perceptível no movimento do comércio”, complementa o economista.

Estatísticas

No caso do Bolsa Família, que transferiu mais de R$ 5,1 bilhões à população no ano passado, o acesso ao programa está condicionado a uma renda mensal de até R$ 218 por pessoa da família — critério que ajuda a explicar por que o valor recebido é raramente acumulado, sendo direcionado ao pagamento de despesas mais básicas.

Segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Humano da Paraíba (Sedh), com base em informações do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), cerca de 647 mil famílias foram beneficiadas com o valor médio de R$ 670,25 em 2025. Isso significa que, aproximadamente, 1,63 milhão de pessoas vivem em lares atendidos pelo programa, o equivalente a quase 39% da população paraibana, estimada em 4,16 milhões de habitantes, conforme projeção recente do IBGE.

A mesma lógica pode ser observada no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e no Auxílio Gás, programas que, embora distintos em finalidade, ajudam a revelar como esses repasses federais passam a circular na economia local. O BPC é pago atualmente a mais de 180 mil paraibanos, entre idosos com 65 anos ou mais e pessoas com deficiência, pertencentes a famílias de baixa renda, garantindo, assim, o valor mensal de um salário-mínimo sem exigência de contribuição ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Somenteno ano passado, o benefício representou mais de R$ 3,2 bilhões transferidos, indiretamente, à Paraíba, assegurando renda contínua a grupos com menor estabilidade financeira e despesas permanentes com medicamentos e cuidados básicos.

Já o Auxílio Gás mostra como benefícios aparentemente “simples” também exercem um impacto relevante no cotidiano das famílias e, por consequência, na circulação do dinheiro nos municípios. Com valor médio de R$ 110 por repasse bimestral, o programa alcançou entre 199 mil e 233 mil famílias ao longo de 2025, somando mais de R$ 144,1 milhões destinados aos paraibanos. Voltado a famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) com renda mensal de até meio salário-mínimo por pessoa, o benefício atua sobre um dos custos mais sensíveis da rotina doméstica: o gás de cozinha. Na prática, trata-se de um gasto inadiável, cuja variação de preço acaba comprometendo, ainda mais, um orçamento já muito enxuto.

Efeito multiplicador é evidente no estado

Quem conhece essa realidade é Eduarda Alves Ferreira, de 20 anos, moradora de Catolé do Rocha, no Sertão da Paraíba, onde vive com o pai e os seus dois irmãos, em um contexto marcado por renda instável, oriunda de trabalhos informais realizados pelo genitor. Por conta do Bolsa Família, a família recebe cerca de R$ 600 por mês, dinheiro que, segundo ela, é destinado à compra de alimentos, produtos de limpeza e higiene.

Ainda assim, Eduarda faz questão de relativizar o alcance do benefício, já que o valor recebido não “sustenta uma casa”.  “Hoje em dia, fazer o orçamento girar, assim, é bem complicado”, afirma. De toda a forma, o que a família recebe é gasto no próprio município, que tem um pouco mais de 30 mil habitantes. Moradora da Zona Rural, Eduarda explica que as compras são feitas na cidade pela facilidade de encontrar o que precisa.

História semelhante é vivida por Claudete de Oliveira, moradora de Bayeux, na Região Metropolitana de João Pessoa. Mãe de três filhos, ela conta que passou a receber o Bolsa Família quando os meninos ainda eram pequenos e, desde então, utiliza esse recurso para manter a casa. “Já faz uns 20 anos que eu tenho o Bolsa Família. Meu menino mais velho tem 26 anos”, relata.

Hoje, apenas o filho mais novo, de 16 anos, permanece no programa, garantindo um repasse de cerca de R$ 700 mensais. O dinheiro, segundo ela, tem destino certo dentro do orçamento doméstico. “Faço uma feira com o dinheiro do Bolsa Família”, resume. No início, conciliar trabalho e cuidado com os filhos pequenos era um desafio, já que, muitas vezes, não conseguia trabalhar fora por não contar com apoio em casa. Hoje, para complementar a renda, ela costuma fazer “bicos”, mas ela acredita que, sem o dinheiro do benefício, “seria muito difícil”.

Essa dinâmica de repasses é acompanhada de perto pela coordenadora estadual do programa, Ediclê Travassos de Lima, que destaca os efeitos positivos sobre a economia do estado. Para ela, o efeito multiplicador é real, sobretudo em regiões com alto índice de vulnerabilidade social. “Nós, em apoio técnico in loco, principalmente nos municípios de pequeno porte, percebemos que essas transferências de renda são as que mais circulam no comércio”, afirma.

De olho no futuro e para que os benefícios práticos sejam ainda maiores, o governo estadual tem articulado políticas de inclusão produtiva, qualificação e geração de renda, buscando ampliar a autonomia financeira de famílias como as de Eduarda e Claudete. Afinal, não há impacto mais marcante do que a população com dinheiro no bolso.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de março de 2026.