No setor público, a proposta de redução da jornada semanal de trabalho para 40 horas, associada à alteração da escala 6x1, poderia elevar despesas e afetar a prestação de serviços, é o que indica a projeção da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo o estudo, divulgado ontem, os gastos com trabalhadores do setor público poderiam aumentar em até R$ 4 bilhões por ano, dependendo da estratégia adotada para recomposição das horas trabalhadas.
Segundo a análise da CNI, o aumento decorre da necessidade de pagamento de horas extras ou contratação adicional para manutenção da carga horária. “A proposta de redução da jornada de trabalho pode modificar a dinâmica dos contratos e da folha de pagamento. O custo por hora aumenta e novas contratações se tornam necessárias, o que pressiona as despesas públicas. Os efeitos se estendem do orçamento à capacidade de manter a regularidade dos serviços prestados”, explica o presidente da CNI, Ricardo Alban.
A CNI simulou dois caminhos possíveis para a recomposição da jornada. No primeiro, em que as horas seriam compensadas por meio do pagamento de adicionais aos atuais servidores, o acréscimo de despesas poderia chegar a R$ 4 bilhões por ano. Na segunda hipótese, baseada na reposição da carga horária com novas contratações, o valor estimado seria em torno de R$ 2,6 bilhões anuais.
Os custos adicionais seriam distribuídos de forma desigual entre os níveis da administração pública e as empresas estatais. No cenário de maior acréscimo, o aumento poderia alcançar cerca de R$ 1,9 bilhão nas empresas estatais, R$ 1,6 bilhão nos municípios, R$ 364,2 milhões nos estados e R$ 30,8 milhões na esfera federal.
No cenário de menor acréscimo, os gastos adicionais seriam estimados em R$ 1,3 bilhão nas empresas estatais, R$ 1,1 bilhão nos municípios, R$ 242,9 milhões nos estados e R$ 20,5 milhões na esfera federal.
Efeitos indiretos
Os reflexos da medida não se limitariam às despesas com pessoal. A projeção indica que contratos administrativos também poderiam sofrer ajustes, já que o aumento do custo do trabalho tende a repercutir nos preços de bens e serviços adquiridos pelo setor público. Nesse cenário, somente no caso das despesas federais com contratos de compras e serviços, a elevação poderia chegar a R$ 2 bilhões.
“As concessões públicas também podem sentir os efeitos dessa mudança, porque as empresas tendem a enfrentar custos operacionais mais altos, o que pode se refletir nos contratos ao longo do tempo. Além disso, a recomposição da jornada por meio de novas contratações pode reduzir a eficiência no curto prazo, já que há um período necessário para recrutamento, treinamento e adaptação dos profissionais”, conclui o presidente Ricardo Alban.
Comércio
Os impactos econômicos da proposta também foram avaliados em estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Segundo Nara de Deus, diretora de Relações Institucionais da CNC, o estudo foi desenvolvido com base em dados objetivos e evidencia os reflexos da proposta sobre custos operacionais, geração de empregos e preços ao consumidor. “Nosso objetivo é contribuir para o debate de forma responsável, levando informações técnicas que permitam uma avaliação equilibrada. Estamos abertos ao diálogo, mas decisões dessa dimensão precisam ser tomadas com base em evidências e na realidade de cada setor”, explicou.
De acordo com a análise, o fim da escala 6x1 pode gerar custo adicional de R$ 122,4 bilhões por ano no setor comercial. Ainda são destacados os seguintes impactos:
- aumento da folha de pagamento: crescimento imediato de aproximadamente 21% na folha salarial do comércio; e elevação de cerca de 22% no custo da hora trabalhada;
- aumento de preços e informalidade: possível aumento de preços ao consumidor, de até 13%; e risco de ampliação da informalidade e redução de empregos formais;
- o setor de turismo pode enfrentar o custo de adequação de até 54%.
Já o impacto total no setor de serviços (incluindo comércio) pode ter custo adicional estimado em R$ 235,8 bilhões por ano.
Setor produtivo
Representantes do setor produtivo lançaram, em Brasília, o “Manifesto pela modernização da jornada de trabalho no Brasil”, documento que reúne 100 entidades signatárias, entre elas CNC e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). O documento pediu que o aprofundamento da pauta sobre as mudanças na jornada de trabalho “ocorra fora do ambiente de disputas eleitorais [...] evitando que decisões pressionadas possam comprometer a qualidade de políticas públicas e seus efeitos sobre o país”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 05 de março de 2026.