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em quatro anos

Era digital reduz em 22% os caixas eletrônicos do estado

publicado: 18/05/2026 08h50, última modificação: 18/05/2026 08h50
No sentido oposto, o número de maquininhas de cartão quadruplicou no período
2026.05.07 caixa eletrônico © Carlos Rodrigo (10).JPG

Transferência via TED é considerada difícil de usar por 14% dos consumidores brasileiros | Foto: Carlos Rodrigo

por Joel Cavalcanti*

O avanço dos pagamentos eletrônicos e a redução do uso de dinheiro em espécie já redesenham a infraestrutura financeira na Paraíba. Um sintoma dessa transformação está nos dados do Banco Central do Brasil, que demonstram que a quantidade de caixas eletrônicos na Paraíba caiu 22% em quatro anos. Já um levantamento recente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito mostra que 57% dos consumidores brasileiros relatam dificuldade em utilizar meios de pagamento tradicionais, como boleto, cheque e crediário. Esse movimento tem acelerado uma mudança no comportamento financeiro da população.

“Eu não faço a minha ideia do que é um TED, como é que faz, para que serve, não tenho noção nenhuma. Também não tenho nenhum contato com caixa eletrônico”, afirma Jordânia Helena. A jovem de 20 anos divide seu tempo entre o curso de Relações Públicas na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e o trabalho em uma clínica odontológica. Em seu itinerário corrido, em nenhum momento de sua vida ela alega ter precisado aguardar em uma fila de banco ou de caixa eletrônico. “Por que eu vou ao banco se eu consigo resolver isso pelo meu próprio celular?”, questiona.

Cada vez mais pessoas se questionam a mesma coisa e, por isso mesmo, a quantidade de caixas eletrônicos foi de 2.408 no segundo trimestre de 2020 para 2.093 em junho de 2024 no estado. Se, de um lado, a rede de autoatendimento encolhe, de outro, o número de maquininhas na mão de comerciantes e prestadores de serviço teve um salto. No mesmo período, esses equipamentos quadruplicaram, saindo de 113 mil para 490,6 mil em quatro anos. São números claros que demonstram a perda de relevância de instrumentos tradicionais como DOC, TED e o boleto bancário. 

Em fevereiro de 2024, os bancos deixaram de oferecer transferências via DOC, modalidade criada nos anos 1980 e que já vinha em queda acentuada nos últimos anos. Entre os métodos considerados mais difíceis de usar pelos consumidores, aparecem o crediário (15%), o cheque (à vista e pré-datado, 15% cada), o boleto bancário (14%) e as transferências tradicionais, como TED e DOC (14%). A retração desses meios está diretamente associada à grande adesão ao Pix.

Lançado em 2020, o sistema de pagamento instantâneo tornou-se o principal meio de pagamento do país, superando transferências tradicionais e ganhando espaço inclusive sobre cartões e boletos. Em 2023, já era o sistema mais utilizado no Brasil, com dezenas de bilhões de transações anuais e ampla adesão da população. De acordo com a mesma pesquisa da CNDL e SPC Brasil, 80% dos consumidores já utilizam o sistema. Nas lojas físicas, ele responde por 41% dos pagamentos, enquanto no comércio eletrônico lidera com 55% das transações.

“A combinação entre gratuidade para pessoas físicas, funcionamento ininterrupto e liquidação instantânea reduziu a atratividade de instrumentos como TED e DOC, que dependiam de horários bancários, tarifas e maior preenchimento de dados. Esse processo também impacta o uso do boleto, que, embora ainda relevante em alguns setores, enfrenta concorrência direta de soluções como o Pix Cobrança, que permite pagamentos com vencimento e aplicação de juros e multas de forma semelhante”, afirma a analista de Desenvolvimento de Negócios da Central Sicredi Nordeste, Jussara Marques

A mudança, no entanto, não ocorre de forma homogênea, como percebe a estudante Jordânia. “Como a mudança é muito constante, vejo que, hoje, não faz sentido minha avó se adaptar a uma coisa que ela passou a vida todinha recebendo dinheiro em banco. Eu acho que tira um pouco até da autonomia da pessoa, já que ela resolveu tudo de uma certa forma durante muito tempo. Mas é uma coisa muito geracional, porque do mesmo jeito que, hoje, ela não consegue resolver uma coisa via aplicativo, eu, se eu for até um banco, eu sei que vou acabar tendo que pedir informação”, pondera.

Apesar do avanço das soluções digitais, parte da população ainda depende de meios tradicionais, seja por questões de acesso à tecnologia, hábito ou inclusão financeira. Ainda assim, os indicadores apontam para uma transição consistente: menos infraestrutura voltada ao dinheiro físico e mais dispositivos conectados a sistemas eletrônicos de pagamento. Segundo a pesquisa, 92% dos consumidores afirmam recorrer a dinheiro ou cartão em situações de emergência, indicando que a transição para um sistema totalmente digital ocorre de forma gradual e desigual entre diferentes perfis de usuários.

“Desde que eu me tornei adulta e comecei a trabalhar, nunca precisei abrir conta presencialmente em banco. Nunca fui a um banco, nunca tirei dinheiro, nunca abri uma poupança. Todas as contas que tenho, hoje, foram feitas de forma o de forma digital em relação a transação do dinheiro. Tudo que puder ser feito on-line é feito de forma on-line”, detalha Jordânia. Para ela e uma geração inteira, o sumiço dos caixas 24 horas não será sequer notado.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 16 de maio de 2026.