A pobreza não é medida apenas pela falta de comida, moradia e saneamento básico. Longe de ser um supérfluo, o acesso ao lazer, à circulação pela cidade e aos momentos de convivência também ajudam a definir o grau de vulnerabilidade social de uma população. Com 88% dos paraibanos endividados, cortar gastos com diversão costuma aparecer como uma das primeiras recomendações para equilibrar as contas. Especialistas, porém, alertam que eliminar completamente esses espaços de convivência pode afetar diretamente a percepção de qualidade de vida.
Para o economista Alexandre Nascimento, a discussão sobre como incluir o lazer nessa equação costuma carregar um moralismo implícito, como se qualquer gasto ligado ao bem--estar fosse irresponsável. “Lazer não é apenas diversão. É convivência, saúde mental, circulação pela cidade, acesso à cultura e formação de repertório”, afirma. Segundo ele, cortes drásticos no lazer levam a um fenômeno que ele chama de “empobrecimento subjetivo”.
“Quando uma família pobre não consegue pagar cinema, teatro, clube, esporte ou passeio cultural, a desigualdade deixa de ser apenas de renda e vira desigualdade de experiência de vida. Quem tem renda compra descanso, cultura e experiência”, acrescenta Nascimento. Isso é o que mostra a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo mede a chamada “vulnerabilidade multidimensional”, indicador que considera diferentes tipos de privação no cotidiano das famílias brasileiras.
Na Paraíba, 81% da população enfrenta alguma carência essencial no seu dia a dia. Entre os fatores que mais pesam na vulnerabilidade das famílias paraibanas, estão justamente as dificuldades ligadas a transporte e lazer, que representam 15,4% das privações medidas pelo indicador. É sob a lógica de que o respiro é um direito inegociável, e não um capricho de orçamento, que muitos trabalhadores subvertem as cartilhas tradicionais de economia doméstica. “A cartilha tradicional erra quando trata lazer apenas como supérfluo”, defende o economista.
Junto à decisão financeira de como dividir a renda, vem uma revelação muito peculiar de como as pessoas enxergam a própria vida. Para a jornalista Diana Lima, mesmo diante do aperto nas contas, cortar completamente esse tipo de gasto com lazer significaria abrir mão de sua própria humanidade. “Quando gasto com lazer, é como se eu estivesse vivendo de alguma forma, e não só trabalhando. É como se eu estivesse dedicando a minha vida a outras pessoas e não a mim mesma. Eu preciso ter essa sensação de que estou vivendo com o dinheiro que eu luto tanto para ter”, diz.
Aos 39 anos, Diana mora no bairro Mário Andreazza, em Bayeux, na Região Metropolitana de João Pessoa. Ela divide a casa com o marido e dois filhos, de 21 e 15 anos. Entre as despesas fixas, estão a sua faculdade de Psicologia, a escola, terapia e academia do filho mais novo, além das contas gerais da casa. Ela se define como integrante de uma “classe média baixa” e afirma conviver com a sensação de instabilidade financeira. “Acontece um imprevisto e corro para o cartão de crédito”, resume.
Mesmo assim, as saídas continuam fazendo parte da rotina familiar de Diana. Praia, barzinho, encontros na casa de amigos, viagens curtas, shows e programações gratuitas espalhadas pela cidade entram com frequência no roteiro de suas atividades. “Eu tento fazer essas programações pelo menos uns dois finais de semana por mês. Às vezes três. Depende muito de como está a situação financeira”, conta. “Às vezes até no meio da semana eu dou uma quebradinha também, quando estou muito estressada”.
Ela descreve o lazer menos pela disposição de satisfação de consumo e mais como uma oportunidade de reencontro com as pessoas que ama. “Na correria da nossa rotina, às vezes eu não consigo nem fazer uma refeição junto com meus filhos e marido. Às vezes eu saio de casa quando eles ainda estão dormindo e, quando volto, o tempo de estar junto já é muito curto. Então o momento de lazer é o momento em que todo mundo consegue ficar junto”. Com dois vínculos profissionais que se somam a serviços de freelancer, a jornalista equilibra as contas buscando opções mais baratas.
Essa reorganização intensifica-se em meio à inflação dos itens de lazer. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses até abril registrou alta de 11,4% na hospedagem, 9,6% nos lanches, 6,3% nos serviços de streaming, 6,1% em cinema, teatro e concertos, além de aumentos em refeições fora de casa (5,2%) e atividades físicas (4,4%). Esses aumentos aprofundam as desigualdades sociais e funcionam como uma barreira que adia indefinidamente os planos da família de celebrar a vida.
“O paraibano não necessariamente gasta demais; muitas vezes tenta preservar uma vida social que a renda baixa insiste em comprimir”, explica o economista. Segundo ele, a renda até pode existir formalmente, mas já não compra o mesmo padrão de vida de antes. “A pessoa continua consumindo lazer, mas sente que perdeu qualidade de vida. Continua saindo, mas de uma forma reduzida, substituída, adaptada”.
Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda domiciliar per capita gira em torno de R$ 1,54 mil. “Para muita gente, sair para comer ou circular pela cidade é uma das poucas formas acessíveis de lazer, pertencimento e dignidade”, complementa Nascimento. “O problema é quando a família tenta manter um padrão de sociabilidade incompatível com a renda disponível e, para isso, sacrifica energia, aluguel, alimentação básica ou remédios. Aí o lazer deixa de ser bem-estar e vira gatilho de inadimplência”.
Diana tenta encontrar esse equilíbrio à sua maneira. Diz que já reduziu pedidos de comida por aplicativo, evita cinemas mais caros e prefere espaços gratuitos ou de baixo custo. Conta que costuma pesquisar bares com cerveja mais barata e programas acessíveis. “Eu não costumo fazer rolês muito caros”, afirma. “Para mim, o importante é estar perto das pessoas”. Ela também reorganiza outras áreas da vida para preservar esses momentos. Compra roupas em brechós, procura bolsas e sapatos de segunda mão e evita gastos considerados excessivos. “O dinheiro que eu gastaria numa roupa cara eu gasto com um lazer”.
No fim das contas, é essa dimensão que Diana tenta preservar. Não necessariamente o restaurante mais caro ou a viagem distante, mas o encontro possível dentro da realidade que consegue sustentar. “Meu maior lazer é o tempo que eu tenho para estar perto das pessoas que eu amo. Eu consigo reduzir, mas cortar totalmente eu não consigo. Porque senão a gente só sobrevive”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de maio de 2026.