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como equilibrar?

Gasto com moradia desafia o planejamento doméstico

publicado: 18/05/2026 09h24, última modificação: 18/05/2026 09h24
Aluguel e contas de água, luz e internet consomem boa parte da renda mensal
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Alêssa tem faturamento variável e precisa de planejamento para manter as despesas em dia | Foto: Carlos Rodrigo

por Pedro Alves*

As despesas com moradia seguem como uma das maiores preocupações no orçamento das pessoas, especialmente para as classes média e baixa do país, que precisam equilibrar renda limitada com gastos cada vez mais elevados. Seja para quem vive de aluguel ou está em um processo de financiando da casa própria, o peso desse custos compromete uma parcela significativa da renda mensal e exige organização financeira regular.

Para quem mora de aluguel, o valor pago mensalmente ao proprietário é apenas uma parte da conta. Além do desse custo há despesas como condomínio, Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), que em alguns casos é repassado ao inquilino, além das contas de consumo dentro de casa, a exemplo de energia elétrica, água, internet e gás.

O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), conhecido como “inflação do aluguel”, avançou 2,73% em abril, atingindo a maior variação mensal desde maio de 2021 (4,10%). Com o resultado, o indicador acumula alta de 2,93% no ano.

Em cidades em crescimento, como João Pessoa, os preços dos aluguéis têm acompanhado a valorização imobiliária, o que pressiona ainda mais o orçamento de quem não possui imóvel. De acordo com o Índice FipeZap de Locação Residencial, o preço dos aluguéis no estado aumentou 1,91% em abril, acumulando alta de 5,85% ao ano.

A produtora de audiovisual, Alêssa Bruna, sonha em ter a sua casa própria e revela que está se organizando para conquistar esse bem no futuro. Atualmente, no entanto, mora sozinha de aluguel e conhece bem os custos resultantes dessa escolha. Ela explica que, por conta da natureza do seu trabalho, a renda varia de mês a mês, assim como os perrengues com as despesas ou a tranquilidade com esses custos mensais relacionados à moradia.

“Como eu sou autônoma, há variação de faturamento por mês. Alguns meses são bem difíceis, outros eu vivo no paraíso. Requer um pouco de planejamento financeiro e calma. Mas tenho sobrevivido com, pelo menos, o mínimo de dignidade, que eu considero ser: comer bem, pagar os custos de morar sozinha e ter ainda acesso a cultura, arte e lazer de uma maneira geral”, comentou.

As despesas da casa realmente pesam no orçamento da jovem de 32 anos, que mora no bairro do Colibris, em João Pessoa. “Aproximadamente 40% da minha renda vai para gastos fixos como aluguel, água, luz e internet. Soma-se a isso alimentação, saúde e transporte, e aí temos cerca de 80% da minha renda com esses compromissos”.

A escolha por morar de aluguel é um planejamento definido com um olhar também para o horizonte. Alêssa quer ter um lar próprio no futuro, mas também vem juntando dinheiro para poder investir em um negócio, outro sonho da produtora de audiovisual. “Hoje moro num apartamento pequeno, num bairro popular, onde o custo com aluguel é menor. Ainda está longe do que eu almejo pro meu lar. Mas fiz essa escolha para dar prioridade a outras coisas como juntar dinheiro para investir no meu negócio e também para poder comprar, no futuro, imóvel próprio”, revela Alêssa.

Já para aqueles que optam pela compra de um imóvel financiado, a realidade não é necessariamente mais leve. Embora exista a perspectiva de conquistar um patrimônio, o compromisso financeiro costuma ser de longo prazo, podendo se estender de 20 a 30 anos ou até mais. As parcelas do financiamento, muitas vezes corrigidas por juros e índices inflacionários a cada ano, podem variar ao longo do tempo e surpreender o comprador. Além disso, o proprietário também arca com custos como condomínio, IPTU, registros civis, seguros obrigatórios do financiamento e manutenção do imóvel.

Em ambos os casos, há despesas que, muitas vezes, passam despercebidas em um primeiro momento, mas que impactam diretamente no orçamento. Reparos na residência, mobília, eletrodomésticos representam gastos adicionais que precisam ser considerados e que, muitas vezes, podem estar invisíveis em uma primeira análise orçamentária. No caso de imóveis financiados, ainda há a entrada inicial, que pode exigir anos de economia.

A consultora de finanças pessoais e de gestão empresarial, Rebeca Cavalcante, analisa que a decisão de assumir um custo maior com despesas de moradia precisa ser tomada com uma clareza em relação não só à renda, mas também a quanto sobra dela por mês e sobre qual é a previsibilidade das receitas.

“É importante, por exemplo, ter uma renda estável por pelo menos seis meses antes de uma eventual decisão e guardar 20% da renda ou mais todo mês. É fundamental se planejar antes, simular os custos de moradia e não ficar no limite. As despesas com moradia, no máximo, devem atingir 35% da sua renda. A partir daí já exige um controle e uma atenção maior”, comentou.

Em casos de quem quer se planejar para comprar um apartamento, ou uma casa, a partir de um financiamento, Rebeca também explica como se deve planejar esse passo tão importante na vida, para que não seja uma fonte de dor de cabeça e de dívidas que sufoquem a rotina financeira de quem adquire um patrimônio.

“Tem que definir o valor do imóvel baseado na renda e na capacidade de financiamento. O ideal é uma parcela que comprometa no máximo 25% da renda, lembrando, claro, que vai ter um valor de entrada. Se você só consegue pagar no limite, não compre ainda. Tem que se considerar custos invisíveis, como escritura, ITBI [Imposto Sobre Transmissão de Bens Imóveis], reforma inicial e mobília. Recorrer a empréstimo tem que ser apenas em último caso”, finalizou.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de maio de 2026.