A alimentação é uma das despesas mais importantes que os consumidores têm que colocar no planejamento financeiro, seja pessoal ou familiar. O peso disso no orçamento, no entanto, continua sendo um dos principais desafios para a população de classe média e, sobretudo, para as famílias de baixa renda. Em um cenário marcado por inflação todo os anos na economia brasileira e, em especial, em diversos produtos básicos, milhões de brasileiros precisam reorganizar hábitos de consumo, reduzir quantidades compradas e buscar alternativas mais acessíveis para manter os gastos com alimentos dentro de uma parcela equilibrada da renda.
O impacto das despesas é ainda mais duro entre aqueles que recebem salários menores, visto que a maior parte da renda acaba sendo direcionada justamente para despesas essenciais, como transporte, moradia e contas domésticas e, não menos importante, claro, comida. Já a classe média, embora possua uma renda maior, também enfrenta dificuldades para equilibrar as contas diante da alta constante do custo de vida. Isso porque, além da alimentação, há despesas fixas elevadas relacionadas a financiamentos, aluguel, educação, planos de saúde, combustíveis e serviços.
Adriano Almeida é funcionário público e adota algumas práticas pensando justamente no objetivo de diminuir as despesas com alimentação — a exemplo de realizar compras, semanalmente, há muitos anos, em feiras livres tradicionais de João Pessoa, como a do bairro de Jaguaribe.
“Esse é um hábito que vem da minha família. Desde criança eu acompanhava meu pai indo à feira de Jaguaribe, por isso foi algo natural adquirir esse costume. Os preços costumam ser mais acessíveis do que nos supermercados, além da qualidade dos produtos, que geralmente são mais frescos e apresentam maior durabilidade quando bem conservados”, comentou Adriano.
Muito comuns em centros urbanos e cidades do interior, as feiras permitem que consumidores encontrem frutas, verduras, legumes, carnes e outros produtos com preços mais competitivos em relação aos supermercados. Em muitos casos, os alimentos são vendidos diretamente pelos produtores ou por pequenos comerciantes, o que reduz custos intermediários e possibilita preços menores.
Além disso, as feiras costumam oferecer produtos mais frescos, muitas vezes sem agrotóxicos, sendo opções até mais saudáveis. E ainda permitem ao consumidor pesquisar valores entre diferentes vendedores que estão no mesmo local. Adriano garante que paga quase 50% menos do que se comprasse em redes maiores de supermercados os mesmos produtos.
“A economia gira em torno de 40%, podendo ser um pouco maior ou menor. Os produtos em que mais percebo economia são frutas, verduras e legumes, como batata, cenoura, cebola, pimentão, jerimum, abobrinha, coentro, cebolinha e alface, além de descontos em macaxeira e inhame”, analisou.
Evitar desperdícios
Algumas mudanças de hábito podem ajudar no controle das despesas alimentares. Planejar compras, evitar desperdícios, pesquisar preços e substituir produtos mais caros por alternativas semelhantes são estratégias que auxiliam no equilíbrio do bolso.
Em períodos de inflação elevada, muitas famílias também passam a reduzir o consumo de determinados alimentos, priorizando itens considerados indispensáveis para o dia a dia. Ainda assim, a sensação de perda do poder de compra permanece presente, principalmente quando o reajuste dos salários não acompanha a velocidade do aumento dos preços nas prateleiras.
“O ideal é que os gastos com alimentação estejam dentro de um percentual que permita equilíbrio entre qualidade de vida, saúde e organização financeira. Em média, comprometer cerca de 35% da renda mensal pode ser considerado um valor razoável para famílias de classe média que desejam manter uma alimentação de qualidade sem comprometer outras despesas essenciais. O mais importante é que esse investimento seja feito de forma planejada, priorizando alimentos saudáveis e evitando desperdícios”, explicou Brígida Andrade, consultora pessoal de finanças.
Inflação de alimentos
O principal indicador para medir a inflação no Brasil é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice acompanha a variação de preços de diversos produtos e serviços consumidos pelas famílias brasileiras, incluindo a alimentação.
No caso dos alimentos, o cálculo considera o comportamento dos preços de produtos consumidos dentro e fora de casa, analisando o quanto esses itens sobem ou caem ao longo do tempo. Quando os alimentos, como feijão, arroz, verduras, carnes, entre outros, registram aumentos frequentes, o IPCA sobe e isso influencia diretamente o custo de vida. Na última divulgação da prévia da inflação oficial, divulgada na última quarta-feira (27), o IPCA-15, os alimentos foram justamente o que mais pressionou o índice. A alta de maio foi de 0,62%, tendo a categoria alimentação e bebidas subido 1,38%, alcançando o maior impacto no resultado do mês.
A inflação dos alimentos é impactada por diferentes fatores econômicos e climáticos. Problemas como secas prolongadas, excesso de chuvas, perdas de safra e dificuldades no transporte podem reduzir a oferta de produtos e provocar aumento de preços. Além disso, as volatilidades do dólar e do petróleo também interferem nos custos de produção, já que muitos insumos utilizados no campo, como fertilizantes e defensivos, possuem relação com o mercado internacional, muitos deles sendo importados, assim como alguns alimentos.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de maio de 2026.
