A Emenda Constitucional no 221, que instituiu a escala 5x2, foi promulgada ontem, pelo Congreso Nacional. O ato dá início à fase de adaptação que antecede a implementação das novas normas. Na Paraíba, a redução da jornada de trabalho semanal sem cortes no salário ainda divide opiniões. Nas ruas de João Pessoa, relatos de quem já viveu essa rotina mostram que o debate vai além das horas trabalhadas e envolve o tempo gasto no transporte, as tarefas domésticas e a conciliação entre emprego e estudos. Já o setor produtivo aponta desafios para manter as atividades com o fim da escala 6x1.
Ozeias Diniz é vigilante e trabalhou por seis anos com apenas um dia de descanso semanal. “A rotina era muito corrida, muito pesada”, lembra. Para ele, as mudanças podem melhorar a vida de quem permanece em atividades no comércio. “Eu acredito que vai ajudar muito, principalmente para o contato com a família”, expressa.
Aline Carvalho é psicopedagoga e conta que trabalhou por cinco anos na secretaria de uma escola de idiomas, no regime 6x1. “Era muito cansativo, eu trabalhava de segunda a sábado e só tinha o domingo para fazer tudo: faxina em casa e estudar”, exemplifica, acrescentando que considera ter mais tempo livre uma vantagem para os trabalhadores e para as empresas. “Eu acredito que as pessoas, tendo um tempo de descanso, conseguem ter mais qualidade de vida e ficar mais produtivas no trabalho”, argumenta.
Durante o um ano e meio em que trabalhou na escala 6x1, o estudante Max William percebeu que o trabalho não terminava ao sair do estabelecimento, já que o deslocamento também consumia parte considerável do seu tempo. “Ter um dia a mais para descanso é algo muito mais humano, é muito mais palpável de você poder se cuidar. Então, eu digo que, para o trabalhador, é uma conquista”, constata.
Setor produtivo
Representantes das principais atividades econômicas do estado destacam, contudo, os principais desafios a serem superados na transição para a redução da jornada. No comércio, a principal preocupação é com custos e mão de obra. O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de João Pessoa (CDL-JP), Nivaldo Vilar, afirma que a entidade “reconhece a importância do descanso, da saúde e da convivência familiar dos trabalhadores”. Entretanto, ele também defende uma transição planejada, com regras claras e atenção às particularidades das micro e pequenas empresas. “Nossa principal preocupação é o aumento dos custos para as empresas e a dificuldade de reorganizar as equipes, especialmente nos pequenos negócios, que têm menos condições de absorver despesas adicionais”, explica, acrescentando que, caso os custos operacionais aumentem, parte das despesas poderá ser repassada aos preços dos produtos, com possíveis efeitos sobre o poder de compra dos consumidores.
O repasse do aumento dos custos para pela população também é destacado pela presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) na Paraíba, Thâmara Cavalcanti. Para ela, a redução da jornada precisa ser acompanhada de medidas que permitam às empresas reorganizar as equipes sem comprometer o funcionamento dos estabelecimentos. “Para um negócio pequeno, perder mais um dia de faturamento pode significar não conseguir mais manter as portas abertas”, alerta.
Thâmara também critica a velocidade com que a proposta foi conduzida e defende uma discussão mais ampla sobre os efeitos econômicos da mudança. “A posição da Abrasel é muito clara: somos favoráveis à melhoria das condições de trabalho e à discussão sobre a redução da jornada, mas defendemos planejamento, diálogo, medidas compensatórias e uma transição responsável”, completa.
Na construção civil, o vice- -presidente do Sindicato da Indústria da Construção e do Mobiliário do Estado da Paraíba (Sinduscon-PB), Helder Campos Pereira, conta que muitas empresas do setor já adotam a escala com cinco dias de trabalho e dois de descanso, mas, ainda assim, a transição preocupa. “Os impactos poderão surgir ao longo da implantação do novo regime, a exemplo de aumento de custos, impacto na economia, perda de competitividade, e não podemos deixar de pensar em um possível risco de demissões no setor”, avalia.
Pereira também demonstra preocupação com os prazos de execução das obras. Segundo ele, a redução das horas disponíveis para o trabalho pode atrasar os cronogramas e exigir mudanças na contratação de pessoal, caso não seja acompanhada de medidas para reorganizar as atividades.
A reportagem de A União ainda procurou representantes da Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (Fiepb) e da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis na Paraíba (Abih-PB), mas não obteve respostas até o fechamento desta edição.
Política de preços
Para o economista Alexandre Nascimento, a adoção de uma escala com duas folgas semanais pode trazer benefícios para os trabalhadores e abrir espaço para mudanças na organização das empresas. O efeito mais imediato tende a ser a melhora na qualidade de vida, especialmente porque a proposta prevê a manutenção dos salários. No entanto, o especialista reconhece que a adaptação terá custos e exigirá mudanças na gestão.
Segundo ele, os setores de comércio e serviços presenciais, como supermercados, restaurantes e hotéis, estão entre os segmentos que devem sentir primeiro os efeitos da nova jornada, por dependerem de equipes para manter o atendimento durante vários dias da semana. “Nos pequenos estabelecimentos, o desafio vai ser maior, porque há menos funcionários para distribuir entre essas escalas”, observa.
Embora haja preocupação com o repasse de custos ao consumidor, o especialista lembra que o preço final depende de múltiplos fatores, como produtividade, concorrência e margem de lucro. “De alguma forma, é possível que essas outras variáveis também tenham que sofrer ajustes para que, justamente, não se perceba no preço final”.
Apesar dos desafios, Alexandre Nascimento é otimista. Para ele, a mudança pode estimular as empresas a rever processos e melhorar a organização do trabalho, em vez de depender apenas de jornadas mais longas para manter os resultados. “O saldo, na minha opinião, vai ser muito positivo, desde que essa transição seja bem organizada”, conclui.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de outubro de 2026.