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Paraibanos de até 35 anos abrem 56% das empresas

publicado: 29/06/2026 09h57, última modificação: 29/06/2026 09h57
De janeiro a maio, homens responderam por 62% dos novos negócios no estado
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Gabriela Carvalho é dona de duas lojas de roupa e, antes de empreender, ela trabalhou como vendedora em uma feira de João Pessoa | Foto: Roberto Guedes

por Joel Cavalcanti*

Ter o próprio negócio é, hoje, o principal sonho dos brasileiros de 35 a 54 anos e está entre os três maiores desejos da população mais jovem, segundo a Global Entrepreneurship Monitor (GEM), principal pesquisa sobre empreendedorismo do mundo. Na Paraíba, uma parcela dessa geração já está tirando esse projeto do papel. De janeiro a maio deste ano, empreendedores de até 35 anos responderam por quase seis em cada 10 empresas abertas no estado.

Ao todo, 18.387 empresas foram abertas por pessoas de até 35 anos nos cinco primeiros meses de 2026, o equivalente a 56% de todos os novos registros realizados no período. Na divisão por gênero, os homens representaram 62% dos empreendedores responsáveis pelas novas empresas.

Para Ivani Costa, gerente da Unidade de Gestão Estratégica e Monitoramento do Sebrae Paraíba, a predominância dos jovens tem uma explicação. “Os jovens costumam apresentar maior disposição para inovar, assumir riscos e explorar novos modelos de negócios, especialmente os digitais. Também estão mais conectados às transformações tecnológicas e às novas demandas de consumo”, afirma.

Se a pouca idade ajuda, nela também reside um desafio intrínseco. “Muitos empreendedores começam com conhecimento técnico sobre o produto ou serviço, mas ainda precisam desenvolver competências de gestão. Por isso, capacitação, mentoria e acompanhamento são fundamentais para aumentar as chances de sucesso e sustentabilidade do negócio”, acrescenta Ivani Costa.

Essas questões têm sido enfrentadas na prática por um percentual cada vez maior de paraibanos. De janeiro a maio, a Paraíba registrou a abertura de mais de 32,8 mil empresas: um crescimento de 10,7% em relação ao mesmo período do ano passado. De janeiro a maio, 19.055 empresas encerraram suas atividades, resultando em um saldo positivo de 13,8 mil empreendimentos. Os dados são do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (Memp).

Esse crescimento revela uma resiliência do empreendedorismo paraibano mesmo em um cenário de juros elevados. Muitos dos novos negócios surgem em segmentos que exigem menor investimento inicial, especialmente nas áreas de comércio e serviços. “O ambiente empreendedor está dinâmico, impulsionado pelo crescimento econômico estadual, pelo fortalecimento dos pequenos negócios e por instituições que apoiam o empreendedorismo. É um sinal de vitalidade econômica, embora ainda existam desafios relacionados à sobrevivência e ao crescimento dessas empresas”, diz.

A distribuição geográfica das novas empresas mostra concentração em João Pessoa. A capital respondeu por 41% de todas as aberturas no estado, com Campina Grande vindo na sequência, com participação de 15%. Outro dado que chama atenção é o protagonismo das microempresas. Elas representam o equivalente a 95% do total de novas empresas no estado.

Jovens buscam autonomia financeira

Entre os jovens que decidiram transformar o sonho de empreender em realidade, está a paulista Gabriela Carvalho, de 24 anos. Moradora do Bairro das Indústrias, ela administra duas lojas de roupas masculinas: a BDI Surf, inaugurada há pouco mais de dois anos, e a Original, aberta em junho deste ano.

Antes de abrir o negócio, Gabriela trabalhava com vendas de produtos de limpeza na Feira de Oitizeiro, e o marido atuava como feirante de frutas e depois como empregado com carteira assinada. O desejo de conquistar autonomia financeira e ampliar as possibilidades de renda foi determinante para a decisão de empreender.

A busca por independência financeira e maior controle sobre o próprio futuro profissional é uma característica cada vez mais presente entre os jovens brasileiros, que passaram a não ver mais no regime de trabalho CLT uma opção para o seu futuro. “É mais pela liberdade. A gente queria expandir, crescer, não ganhar só um salário mínimo. Trabalhando para você, existe a possibilidade de correr atrás dos seus objetivos e construir algo próprio. Não é fácil, mas você consegue”, relata.

Atualmente, a Paraíba possui 322.082 empresas ativas. Entre as atividades econômicas mais presentes no estado, as lojas de roupas e acessórios ocupam a primeira posição, seguidas dos minimercados e mercearias e, em terceiro lugar, os serviços de beleza, como salões de cabeleireiro, manicure e pedicure. “São atividades que possuem forte ligação com o consumo cotidiano das famílias, apresentam menor barreira de entrada e exigem investimentos iniciais mais acessíveis. Ao mesmo tempo, são segmentos altamente competitivos”, avalia a especialista do Sebrae.

Apesar da concorrência, Gabriela aposta na estratégia que combina vendas presenciais e canais digitais, como Instagram e WhatsApp, além das entregas para consumidores de diferentes bairros da capital. “Tem diversas lojas de roupas masculinas em Mangabeira, mas o nosso maior público é de lá. Eu acredito que existe espaço para todo mundo”, defende.

Se abrir uma empresa representa a realização de um sonho para muitos jovens, a fase inicial também costuma ser marcada por riscos e aprendizados. “O maior desafio foi confiar em fornecedores que eu não conhecia pessoalmente. Caímos duas vezes em um golpe. Você faz o pagamento antes de receber a mercadoria e precisa acreditar que aquilo vai chegar. Em um dos casos, fizemos um pagamento de cerca de R$ 8 mil para um fornecedor e nunca recebemos os produtos”, conta Gabriela.

A permanência das empresas no mercado depende menos da ideia inicial e mais da capacidade de gestão desenvolvida ao longo do tempo, aponta Ivani Costa. “Os negócios que prosperam costumam apresentar planejamento consistente, gestão financeira organizada, foco no cliente, capacidade de inovar e busca contínua por capacitação. Hoje, mais do que abrir uma empresa, o diferencial está em desenvolver competências de gestão que permitam transformar uma boa ideia em um negócio sustentável e competitivo”.

São lições que Gabriela diz ter aprendido na prática ao longo dos primeiros anos como empreendedora. “No começo, vão existir desafios e momentos de preocupação. Às vezes, você investe tudo o que tem sem saber exatamente qual será o retorno. Mas, com o tempo, as coisas vão acontecendo. O importante é não desistir. Nossa maior meta agora é expandir para outros bairros”, afirma.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de junho de 2026.