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mudança no mercado

Procura por moradias individuais cresce na PB

publicado: 23/03/2026 09h04, última modificação: 23/03/2026 09h04
Construtor diz que bairros turísticos têm alta demanda de unidades compactas
Divulgação Riccelly Lacerda.jpeg

Riccelly Lacerda, da Bloco Construções, aposta na ampliação do uso dos espaços coletivos | Foto: Arquivo pessoal

por Nalim Tavares*

O número de pessoas que moram sós, na Paraíba, tem provocado mudanças no mercado imobiliário e na dinâmica urbana de cidades como João Pessoa. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coletados no último censo, mostram que, em 2022, o estado registrou 225.195 domicílios com apenas um morador — quantidade que representa um aumento de 109,7% em relação a 2010. Hoje, esse tipo de residência representa 16,5% das unidades domésticas paraibanas, e se fortalece enquanto empreendimento, junto às imobiliárias e incorporadoras.

De acordo com o engenheiro civil e CEO da Bloco Construções, Riccelly Lacerda, o novo perfil de morador aumenta a demanda por unidades compactas, como apartamentos do tipo studio e com apenas um quarto. Como forma de complementar a metragem reduzida dos apartamentos, novos empreendimentos passam a investir em soluções que ampliem o uso dos espaços coletivos, e áreas como coworking, academias, espaços gourmet e ambientes de convivência ganham destaque. Outro fator importante é a localização desses espaços, que preza pela praticidade e busca reduzir a necessidade de percorrer longas distâncias, a fim de acessar serviços.

“Quando falamos que o aumento de moradores solteiros favorece o adensamento em bairros com infraestrutura, a ideia é simples: se mais pessoas passam a morar sozinhas, a cidade precisa acomodar mais domicílios — e faz mais sentido fazer isso onde já existe rede de serviços, transporte, emprego e comércio, como Manaíra e Altiplano, do que ‘espalhar’ a mancha urbana para áreas distantes,” explica Riccelly. Segundo ele, essa dinâmica também influencia a forma como a cidade se desenvolve: um exemplo são os projetos com fachadas ativas — térreos de edifícios projetados com comércios, serviços ou espaços culturais abertos diretamente para a calçada, que integram o privado ao público e tornam as ruas mais dinâmicas ao substituir muros por vitrines, estimulando a interação social, promovendo a sensação de segurança e a valorização imobiliária.

A popularidade de residências solo também é percebida por profissionais que atuam como intermediários na compra, venda e locação de imóveis. Conforme o diretor-tesoureiro do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Paraíba (Creci-PB), Fabiano Cabral, “hoje, em João Pessoa, já existe uma oferta crescente de unidades compactas, principalmente nos bairros turísticos e universitários. Apesar disso, em algumas regiões, a demanda ainda é maior que a oferta, principalmente para imóveis prontos e bem localizados”. Ainda, ele conta que bairros próximos à orla, como Tambaú, Bessa e Jardim Oceania, chamam a atenção de investidores interessados em locação por temporada.

“João Pessoa vive um engrandecimento do mercado imobiliário, atraindo investidores de outras regiões do país devido à qualidade de vida da cidade. Isso fortalece o modelo de flats, short stay [aluguel de imóveis mobiliados por um curto período de tempo] e locação por temporada,” explica Fabiano. De acordo com o Índice Fipezap — indicador mensal de preços de imóveis no Brasil —, a cidade registrou uma valorização de 13,49% no acumulado de 2025, dado que a coloca como a terceira capital do país com o melhor registro de crescimento. “Hoje, o corretor precisa vender conceito e estilo de vida, não apenas metragem. Isso significa apresentar rentabilidade para investidores, liquidez do imóvel, potencial de locação por temporada, mobilidade urbana e proximidade de serviços,” reflete o diretor-tesoureiro.

Tanto imobiliárias quando incorporadoras conseguem traçar um perfil entre pessoas que procuram moradias individuais: em sua maioria, são jovens profissionais (que valorizam a mobilidade urbana e rotina mais dinâmica), recém-divorciados (buscando recomeço com um imóvel mais simples de manter) e aposentados (que optam por reduzir o tamanho do imóvel e priorizar segurança, conveniência e serviços no entorno). Para Riccelly Lacerda, “o ponto comum entre eles é a busca por autonomia, segurança e praticidade, com boa localização e qualidade de vida”. Investidores e locatários também integram esse perfil de público: “Unidades compactas bem localizadas tendem a ter liquidez e demanda consistente, especialmente quando o empreendimento oferece diferenciais claros de operação, tecnologia e amenidades”, esclarece Riccelly.

Já Fabiano Cabral destaca que há uma busca clara por apartamentos de 20 m2 a 40 m². “Além do aumento no número de moradores individuais, isso está ligado à valorização do metro quadrado em João Pessoa, que subiu significativamente nos últimos anos, tornando unidades menores uma alternativa de entrada para compradores e investidores. Com isso, a tendência é maior verticalização, uso mais eficiente do terreno, maior densidade urbana, processo que já acontece em áreas mais valorizadas da cidade”.

Para quem mora sozinho, independência e autonomia estão entre os principais fatores que motivam essa escolha. Habitante do bairro de Água Fria, Marcelo Azevedo conta que não tem parentes próximos, nem está em um relacionamento — e, portanto, a decisão de morar sozinho pareceu natural. “A vantagem é, justamente, a liberdade. Você não deve nada a ninguém, além de si mesmo”. Segundo ele, poder ditar o próprio ritmo e viver sem regras rígidas dentro de casa é gratificante, e contribui para uma vida menos tensa e mais tranquila.

As desvantagens, no entanto, existem. Mesmo gostando de passar um tempo sozinho, Marcelo reconhece que, em alguns momentos, dividir a casa com alguém pode ser mais prático: “Já precisei engessar a perna e, enquanto o gesso não secava, não podia apoiar o pé no chão e tive dificuldade, por exemplo, para ir na cozinha pegar água. Até hoje tenho medo de ter uma crise de apendicite sozinho em casa, desmaiar e não ter ninguém para me socorrer”. Outra desvantagem que ele identifica são os custos: sozinho, a quitação de todas as despesas depende de você.

Marcelo lembra que, inicialmente, escolheu o local em que mora com base no custo-benefício. “A localização é razoável, não muito longe da principal dos Bancários, e é um conjunto de casinhas independentes, então a individualidade e privacidade de cada um fica preservada. Mas o aluguel já foi reajustado duas vezes e sempre muito acima da inflação. A gente acaba ficando refém, porque achar outro lugar bom para morar geralmente é difícil”. Outra habitante de João Pessoa, Gabriella Borges, que encontrou morada em Jardim Cidade Universitária, concorda: “Acho que, como a cidade está em alta, os preços têm subido muito. Eu morava aqui antes, mas tive que sair da cidade por um tempo e, quando voltei, os imóveis estavam bem mais caros. Mas, como a localização do apartamento é importante para mim, entendi que havia uma questão de valorização da área. Não sou uma fã do preço, mas tenho algumas prioridades”, menciona.        

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de março de 2026.