“O sanfoneiro padece, mas não pode reclamar: está ganhando dinheiro”. O verso eternizado por Os Três do Nordeste já cantava o trabalho e a renda que o mês de junho representa para os trios de forró pé de serra da Paraíba. Em Campina Grande, por exemplo, o Trio Forró Nordestinado já ultrapassou a marca de 34 shows nesta temporada de São João. O período representa uma oportunidade única de ampliar a renda e manter viva uma tradição que atravessa gerações. Mas a realidade também é marcada por dificuldades. “Os trios de forró realmente estão ficando sem espaço”, resume o sanfoneiro Marcos Lima.
Servidor da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e formado em música, Marcos é um dos integrantes do Trio Forró Nordestinado, criado há cinco anos. O grupo ainda reúne Dimas Xavier, responsável pelo triângulo, agogô e voz, e Edmilson, na zabumba. Natural de Cuité, ele se aproximou do forró ainda criança, quando desfilava vestido de Luiz Gonzaga nas comemorações de Sete de Setembro, em Coronel Ezequiel, no Rio Grande do Norte.
“Por três anos, eu desfilei vestido de Luiz Gonzaga. Então eu fiquei na mente daquela pessoa, daquela figura que eu representava. Comecei a pesquisar e me interessar pela cultura nordestina”, relembra.
A música veio primeiro pelas bandas marciais, depois pelos projetos sociais e pelas lives feitas durante a pandemia. “Comecei a pesquisar e me interessar pela cultura nordestina, pelo forró, pelo Luiz Gonzaga. Eu tinha oito anos”, recorda.
O interesse crescente pelo forró acabou se transformando em profissão, mas não em uma fonte exclusiva de renda. A realidade encontrada por Marcos é semelhante à de grande parte dos músicos que mantêm os trios pé de serra. “A maioria dos trios não tem como fonte principal de renda o trabalho com a música. Tem enfermeiro, pedreiro, gente que trabalha com agricultura. São poucos os trios onde os componentes vivem da música”, afirma.
As apresentações do Forró Nordestinado são contratadas, principalmente, por famílias, empresas, sindicatos, restaurantes e escolas. O trio também participa das programações juninas de Campina Grande e dos festivais voltados ao gênero. O problema, segundo Marcos, continua sendo a remuneração.
“A gente está numa batalha pela valorização dos cachês, porque você vê a discrepância dos cachês de artistas famosos. Com o cachê de um artista desses que toca no palco principal do São João de Campina Grande, pagaria bem todos os trios de forró, pagaria um valor justo”, diz.
A disputa por espaço também interfere diretamente na renda. Marcos observa que os trios perderam presença nos principais palcos e passaram a se concentrar em áreas menores. E até esses espaços vêm se transformando. “Hoje, o trio não está mais no palco principal, nem no palco cultural. Ficou nas palhoças, mas até nas palhoças agora tem teclado. Se tirar o trio desse último espaço que tem, o que é que ficou da nossa cultura, da nossa música tradicional?”, questiona.
A redução dos espaços destinados aos trios também é sentida por músicos que acompanham o São João há mais tempo. É o caso de Júnior Alves, zabumbeiro, cantor e fundador do Trio Gaviões da Paraíba. O grupo, formado por ele, pelo irmão, Anselmo Gavião, no triângulo, e por Vandinho de Taperoá, na sanfona, completa 13 anos de atividade e representa a continuidade de uma tradição familiar iniciada ainda na década de 1970.
“Faz seis anos que a gente não toca no palco principal d’O Maior São João do Mundo. Tem procura de empresas, de particulares, mas os palcos, infelizmente, não têm mais para a gente se apresentar”, afirma. Júnior conhece esse palco desde muito cedo. Aos oito anos de idade, subiu pela primeira vez no palco principal do São João de Campina Grande, tocando agogô ao lado do pai, Mestre Jordão. Trinta anos depois, ainda guarda a lembrança daquele momento.
“Naquele tempo, não era o tempo dos celulares. Era na época das máquinas de fotografia e o povo dançando. Foi dali que despertou algo em mim. Aquela multidão, brilhando”. Hoje, Junior se depara com um contraste: perda de espaços e críticas de que os trios precisariam se adaptar a novos formatos musicais. Para ele, a essência do pé de serra já nasceu contemporânea. “Eu nunca vi um segmento mais moderno do que um trio de forró. Três instrumentos e voz fazem uma multidão dançar. O forró pé de serra já nasceu moderno”, diz.
A história dos Gaviões da Paraíba está ligada à própria história da família. Júnior é neto do sanfoneiro Cícero Pedro e filho de Mestre Jordão, reconhecido pelo Governo da Paraíba com o título de Mestre das Artes. A formação atual surgiu em um churrasco entre amigos e retomou o nome que o pai utilizava em outros grupos desde os anos 1970. “Minha história pessoal não tinha como não ter forró. A gente tem uma raiz, um celeiro de forrozeiros. Eu sou a terceira geração de Cícero Pedro. Não tinha como não ter essa raiz no sangue”, afirma.
Assim como Marcos, Júnior e os demais integrantes também mantêm outras ocupações. Um trabalha na construção civil, outro é mecânico e outro é servidor da rede estadual. “Hoje eu sou CLT, como os outros componentes são. A gente segue uma paixão e o Gaviões da Paraíba é uma resistência. Se fosse esperar e depender do mês de junho, a gente ia passar necessidade”, conta. Já os festivais de forró e os espaços mantidos por algumas prefeituras funcionam como pontos de resistência para os grupos tradicionais.
Na avaliação dele, a valorização financeira continua sendo um desafio. Os cachês não acompanharam os custos e exigem negociações constantes. Ainda assim, os investimentos não param. Todos os anos, antes mesmo de saber quantos shows terão, os integrantes compram roupas novas, chapéus e sandálias de couro para manter a identidade visual do grupo.
Num período em que as festas juninas movimentam milhões de reais e atraem multidões, os trios pé de serra seguem sustentados por uma combinação entre trabalho, tradição e paixão. Uma dedicação que aparece nas palavras dos dois músicos. “Eu me orgulho de estar junto desse movimento de resistência pela preservação da nossa identidade”, resume Marcos Lima. “Dependendo dos Gaviões da Paraíba, o forró nunca vai cair e nunca vai sumir”, conclui Júnior Alves.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de junho de 2026.