Com mais de duas décadas de atuação na vida pública, o deputado estadual André Gadelha chega à disputa por uma vaga no Senado Federal apresentando uma trajetória construída no Sertão paraibano. Natural de João Pessoa, mas com base política consolidada em Sousa, iniciou a carreira política em 2000 como vereador, foi vice-prefeito, elegeu-se deputado estadual pela primeira vez em 2010 e, dois anos depois, assumiu a Prefeitura de Sousa, um dos principais municípios do interior da Paraíba.
Após retornar à Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB) em 2023, passou a concentrar sua atuação em pautas voltadas ao desenvolvimento do Alto Sertão, à geração de emprego e renda, à descentralização dos serviços públicos e à transparência na gestão pública.
Impulsionado pelo MDB e pelo senador Veneziano Vital do Rêgo, André Gadelha lançou sua pré-candidatura ao Senado com o discurso de fortalecer a representatividade do interior paraibano nas decisões nacionais. Nesta entrevista, ele fala sobre sua trajetória política, as principais bandeiras que pretende defender em Brasília e sua visão sobre temas como desenvolvimento regional, emendas parlamentares, jornada de trabalho e relação entre o Senado e o Supremo Tribunal Federal (STF).
A entrevista:
- Qual experiência da sua trajetória política o credencia para representar a Paraíba no Senado?
Minha trajetória começou como vereador em Sousa. Fui vice-prefeito, prefeito e atualmente estou no segundo mandato como deputado estadual. São 26 anos de vida pública, somados à história da minha família, que atua na política paraibana há quase 90 anos. Essa experiência me permitiu percorrer os 223 municípios da Paraíba, conhecer de perto as necessidades de cada região e entender as prioridades da população. Além da atuação política, também trago a experiência da iniciativa privada, o que contribui para uma visão mais prática sobre gestão e desenvolvimento. Acredito que essa bagagem me credencia para representar a Paraíba no Senado, com independência e conhecimento da realidade dos municípios. Quero chegar ao Senado com vontade de trabalhar pelo estado e fazer diferente. Para mim, fazer diferente é olhar para o povo. A Paraíba é um estado rico, mas faltou um olhar mais atento para o seu maior potencial e para as oportunidades que podem melhorar a vida da população.
- Quais serão as principais bandeiras de uma eventual atuação no Senado?
Minha principal bandeira será a geração de emprego e renda. A Paraíba é um estado rico, mas que não recebeu os investimentos necessários em seu maior potencial, que é a agricultura. Nós sonhamos com as águas do Rio São Francisco chegando às nossas terras, mas ainda falta um olhar mais forte para transformar esse potencial em oportunidades para a população, principalmente para o pequeno produtor e para a agricultura familiar. Quero defender projetos que ampliem a utilização dessas águas, porque acredito que é possível gerar dezenas de milhares de empregos no Sertão, no Cariri e em outras regiões do estado. Um dos projetos que pretendo discutir junto ao Governo Federal é a implantação do eixo que ligaria Conceição a Coremas e Mãe d’Água. Essa obra beneficiaria 17 municípios e poderia impulsionar a produção agrícola e a geração de renda. Outra pauta importante é a infraestrutura voltada ao desenvolvimento econômico. Precisamos retomar a discussão sobre o transporte ferroviário de cargas, aproveitando o percurso ferroviário que liga o Sertão ao Porto de Cabedelo, reduzindo os custos do frete e facilitando o escoamento da produção. Também defendo a implantação de uma Ceasa em Sousa e de um porto seco no Sertão, criando condições para ampliar a comercialização, a exportação e a geração de empregos. Além disso, quero incentivar cadeias produtivas importantes da nossa região, como a bacia leiteira e a caprinocultura, que já demonstram grande potencial, mas ainda carecem de investimentos e de maior apoio do poder público.
- A saúde e o combate à corrupção também aparecem entre suas prioridades. O que precisa mudar nessas áreas?
Na saúde, a prioridade é a descentralização dos serviços de média e alta complexidade. Quem vive no Sertão conhece o sofrimento de percorrer centenas de quilômetros em busca de atendimento especializado. Muitas pessoas passam horas em ambulâncias para chegar a Campina Grande ou João Pessoa. Precisamos ampliar a oferta de serviços no Curimataú, no Cariri, no Sertão e no Alto Sertão, além de criar uma central de regulação mais eficiente, para que os pacientes tenham acesso aos leitos e aos tratamentos no tempo adequado. No Senado, quero exercer plenamente o papel do parlamentar: fiscalizar, criar leis e acompanhar a execução das obras do Governo Federal. Também pretendo defender mudanças no Código Penal e cumprir com responsabilidade atribuições constitucionais da Casa, como a sabatina de ministros do Supremo Tribunal Federal [STF] e do Superior Tribunal de Justiça [STJ]. Outra prioridade será o combate à corrupção e o fortalecimento da fiscalização dos recursos públicos. O Brasil é um país rico e não pode continuar perdendo oportunidades por causa do desperdício e da má utilização do dinheiro da população. Quero levar ao Senado uma atuação independente, com coragem para defender os interesses da Paraíba e discutir os problemas que realmente afetam a vida das pessoas.
- Sua candidatura ao Senado surgiu quando o senhor se preparava para disputar a reeleição para a Assembleia Legislativa. O que motivou essa mudança de planos?
Confesso que, quando recebi o convite do senador Veneziano Vital do Rêgo, fiquei sem entender. Eu estava trabalhando para uma eleição de deputado estadual, concentrada na minha região e, de repente, surgiu o desafio de percorrer os 223 municípios da Paraíba em busca de uma vaga no Senado. Sou uma pessoa de muita fé e enxerguei nessa oportunidade algo maior. O convite me fez lembrar de uma história familiar da década de 1960: meu avô, Salomão Gadelha, era prefeito de Sousa quando foi convidado por Pedro Gondim [avô de Veneziano] para disputar a vice-governadoria. Na época, chamaram de loucura, mas ele aceitou e fez história. Décadas depois, ver o neto de Pedro Gondim convidando o neto de Salomão para a chapa majoritária não me pareceu coincidência, mas uma providência de Deus. Eu acredito que foi um chamamento divino. É uma disputa difícil contra grupos fortes, mas percebo nas ruas um forte desejo de mudança e renovação por parte dos paraibanos. Por isso, aceitei o desafio com fé, coragem e disposição para percorrer o estado, apresentar nossas ideias e mostrar que é possível fazer política com independência e compromisso com o desenvolvimento do estado.
- Embora integre a chapa liderada por Cícero Lucena, o senhor ainda não conta com apoio declarado de lideranças importantes do grupo, como o prefeito de João Pessoa, Leo Bezerra. Como avalia esse cenário e em que medida isso pode impactar sua candidatura?
Tenho consciência de que começamos essa articulação um pouco mais tarde do que outros candidatos, que já estão há quatro anos construindo suas candidaturas. Também existe a força da máquina pública e das promessas de recursos, o que influencia esse processo. Mesmo assim, encaro essa construção com serenidade. Em relação às lideranças que não declararam apoio à chapa completa, acredito que isso faz parte do processo e será construído ao longo da campanha. Tenho respeito pelo prefeito Leo Bezerra. Eu já fui vice-prefeito e sei que a responsabilidade do gestor é muito grande. Ele tem o desafio de consolidar sua liderança e pensar no futuro político. Acredito que, visando ao fortalecimento do nosso projeto para os cenários de 2026 e 2028, é importante que haja unidade em torno da chapa liderada por Cícero Lucena. Não é uma questão pessoal comigo, mas de fortalecimento da chapa. No segundo turno, quem estará ao lado de Cícero e de Veneziano será André. Se outras candidaturas forem fortalecidas fora desse projeto, elas também chegarão mais fortes para a disputa seguinte. O que vejo, hoje, é muita disputa por lideranças políticas, enquanto pouca gente está falando diretamente com o povo. Espero que a campanha seja cada vez mais voltada às pessoas e às soluções para os problemas da Paraíba.
- As emendas parlamentares têm sido alvo de muitos debates sobre transparência e eficiência. Para o senhor, esse modelo atual deve ser mantido ou precisa de reformulação?
Precisa ser reformulado com urgência. Eu não sou contra as emendas em si, sou contra a forma como elas estão sendo utilizadas hoje, muitas vezes como moeda de troca. Hoje existe uma distorção: parlamentares com o mesmo mandato e as mesmas atribuições têm acesso a volumes muito diferentes de recursos apenas por estarem alinhados ou não ao governo. Fui prefeito em um dos períodos mais difíceis da seca, quando não existiam as chamadas “emendas Pix” e os municípios dependiam de convênios e de critérios muito mais rígidos. Hoje o recurso chega com mais facilidade, o que ajuda os prefeitos, mas faltam regras claras, critérios técnicos e transparência. Defendo que todos os parlamentares tenham acesso ao mesmo volume de emendas. Se um senador ou deputado tem direito a determinado valor, esse direito deve ser igual para todos, sem privilégios ou diferenças por posição política. O que vemos hoje são parlamentares movimentando centenas de milhões de reais em poucos anos e, durante a campanha, sendo feitas promessas de valores que, muitas vezes, nem fecham a conta. Isso deveria chamar a atenção dos órgãos de controle e do próprio Governo Federal, porque abre espaço para abuso de poder e compromete a credibilidade da política. Do jeito que está, esse modelo precisa ser revisto com urgência.
- A proposta de redução da jornada de trabalho no modelo 6x1 tem gerado debates em nível nacional. Qual é a sua posição sobre esse tema?
Na minha avaliação, o que está acontecendo com os representantes políticos que são contra essa mudança é uma covardia como trabalhador. Se você fizer uma pesquisa, vai ver que os países desenvolvidos, os países ricos, com renda per capita muito maior que a nossa, já trabalham em modelos de quatro dias de trabalho e três de folga. Não faz sentido o Brasil caminhar na contramão do que já deu certo no mundo. Nós nem estamos propondo isso, mas apenas cinco dias de trabalho e dois de folga. Na pandemia, quando o mundo inteiro precisou parar, as pessoas se reinventaram. Muita gente descobriu novas formas de trabalhar, de empreender e de gerar renda. O trabalhador mostrou capacidade de adaptação. Esses dois dias de folga são fundamentais. Não é só descanso físico, é saúde mental, é convivência com a família. Hoje, muitas pessoas saem de casa muito cedo, retornam tarde da noite e praticamente perdem o sábado inteiro no trabalho e em deslocamento. Não vivem o dia. Com dois dias de descanso, o trabalhador pode viver melhor: ir à praia, ao açude, ao rio, ao shopping, estar com a família. Isso muda completamente a cabeça dele para a semana seguinte. Eu sou totalmente favorável a essa mudança. Acho uma covardia não aprovar isso com mais rapidez. Agora, também precisamos discutir o outro lado. Se o empresário diz que isso gera impacto, o Governo Federal precisa olhar com responsabilidade para a reforma tributária. Até agora, pouco avançou de forma concreta para aliviar para quem produz e gera emprego. Nós temos uma carga tributária muito alta. O combustível chega a mais de 50%, produtos básicos também são altamente tributados. Então é preciso rever isso.
- Como o senhor avalia o papel do Senado na relação com o STF e quais devem ser os limites dessa atuação?
O Senado tem uma responsabilidade muito grande porque é a Casa responsável por sabatinar e aprovar as indicações para o STF, o STJ e também para cargos como o de embaixador. Eu defendo que precisamos mudar o modelo de escolha dos ministros da Suprema Corte, tornando esse processo mais técnico e menos político. Na minha opinião, deveriam existir critérios baseados na carreira jurídica, valorizando magistrados, promotores, procuradores e advogados com experiência comprovada, em um modelo semelhante ao de um concurso de títulos. Hoje, a indicação é política: o presidente da República indica e o Senado aprova. Precisamos ter coragem para mudar essa formatação, garantindo que os ministros tenham cada vez mais independência e compromisso com as instituições, sem ficarem vinculados a interesses políticos.
- Para encerrar, que mensagem o senhor deixa aos leitores paraibanos?
Quero agradecer a oportunidade de falar aos paraibanos e contar um pouco da minha história e da disposição que tenho de disputar uma vaga no Senado. Sei que é uma eleição muito difícil, com grupos políticos fortes e uma disputa intensa, mas sou uma pessoa de muita fé, temente a Deus e devota de Nossa Senhora. Acredito que estamos plantando uma semente no coração dos paraibanos e que o resultado será aquilo que Deus permitir. Quando aceitei esse desafio, conversei com minha esposa e meus filhos e disse que, aos 51 anos, vivendo um bom momento da minha vida, posso me dedicar ainda mais à Paraíba. Nunca precisei da política para viver; quero a oportunidade de servir ao estado. Agora cabe ao povo decidir. Vou continuar andando pela Paraíba, conversando com as pessoas, apresentando nossas ideias e, principalmente, ouvindo a população para, se Deus permitir que eu chegue ao Senado, representar o estado com firmeza, responsabilidade e muito trabalho.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de junho de 2026.