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Entrevista

Ronaldo Fraga, Estilista

publicado: 09/02/2026 10h08, última modificação: 09/02/2026 10h09
Em entrevista ao jornal A União, estilista mineiro fala da paixão pelo Cariri paraibano, artesanato e suas criações
2026.01.31 Ronaldo Fraga © Leonardo Ariel (4).JPG

“A Paraíba entrou em mim e nunca mais saiu” | Foto: Leonardo Ariel

por Bárbara Wanderley*

Com cerca de 40 anos de atuação no mundo da moda, o estilista mineiro Ronaldo Fraga conta que foi o gosto pelo desenho que acabou levando-o por esse caminho. Além disso, ele queria ter uma profissão que lhe possibilitasse viajar e conhecer o mundo. Deu certo. Suas criações já foram apresentadas em diferentes países, como Japão, Holanda, Espanha, Uruguai, Bélgica, Chile, Argentina, México e Angola. Seu interesse maior, porém, permanece no Brasil, em sua cultura e em suas tradições. Apaixonado pelo Cariri paraibano, ele esteve em João Pessoa para apresentar a coleção Lar-Jedo, realizada em parceria com crocheteiras do Lajedo do Marinho. A apresentação ocorreu durante o desfile Tramas Arretadas, realizado no dia 31 de janeiro deste ano, no Espaço Cultural José Lins do Rêgo. Confira a entrevista exclusiva do estilista ao jornal A União.

A entrevista

  • Em que momento você decidiu que ia trabalhar com moda? Como a moda surgiu na sua vida?

Na verdade, eu nunca tive essa coisa de “quando eu crescer, eu vou trabalhar com a moda”. Eu desenhava desde criança e a minha coisa foi pelo desenho, para onde o desenho me levasse. Aí eu venho de uma família de poucos recursos, meus pais tinham morrido e eu fazia qualquer curso de desenho, contanto que fosse gratuito. E, adolescente, eu fiquei sabendo de um curso de desenho de moda no Senac, em Belo Horizonte. Fui fazer o curso, mas sem nenhuma pretensão que eu iria trabalhar, eu ia ser um profissional de moda. No final do curso, eu tive uma nota mais alta e imediatamente, na semana seguinte, me indicaram para um emprego numa loja de tecidos. Nunca mais parei. Isso foi mais ou menos 84, 85.

  • De lá para cá, como é que você vê a evolução da moda no Brasil?

É tão curioso, eu lancei um livro dois anos atrás: “Memórias de um estilista coração de galinha” (2023). Eu nunca tinha tido consciência que eu tinha começado no final de um ciclo da moda brasileira e o início de outro. E estava lançando o livro no final de um ciclo também. Então, quando eu comecei, nos anos 80, estava o Brasil começando também a fortalecer a indústria do prêt-à-porter. Naquela ocasião, na primeira metade dos anos 80, as pessoas ainda compravam muito tecido, ainda existia costureira de família, né? Então eram poucas lojas. As lojas vinham, era curioso que qualquer parte do Brasil, ela tinha que ter o codinome “Rio”, que é o Rio de Janeiro, é a grande referência. É a “Marina Rio”, “não sei o que Rio” e tal. E os anos 80 foram uma década que, para a cultura brasileira, houve um movimento na música, no cinema e na moda, como a gente nunca tinha vivido antes. Mas, ainda assim, era algo que era focado no mercado externo. A tendência era ditada pelo mercado externo. Nos anos 90, a gente começa a ver um movimento no mundo pela procura do novo e da identidade na moda, assinatura na moda. É nessa esteira que eu fui selecionado para o Phytoervas Fashion, que iria dar origem ao São Paulo Fashion Week, e estreio no São Paulo Fashion Week em 2001. Aí a gente fala que, nos anos 2000, a gente viu uma organização do calendário da moda brasileira, dos profissionais da moda brasileira. O Brasil tem um boom de escolas de moda e passa a ser o país com o maior número de escolas de moda do mundo. Já na década de 2010, a gente começa a ver a decadência disso. A indústria migrando para os países asiáticos. Então, hoje, a indústria têxtil migrou para os países asiáticos. A concorrência é desleal, com a produção em série vinda de fora. E, mais do que nunca, é importante — eu falo da moda, mas isso eu acho que em todo setor — que a criatividade seja o grande bastião e a prova dos nove. Então, se a gente comparar a moda de hoje com a moda dessas décadas, a gente pode dizer seguramente que a moda acabou. Ela não existe, ela não tem mais uma força que a moda brasileira um dia teve. Mas, ainda assim, o brasileiro tem gosto por moda; a indústria vai persistir, mas não com o vigor como ela já teve em décadas passadas.

  • Você saiu de Belo Horizonte para o Brasil e para o mundo. Como veio parar na Paraíba?

Tudo culpa do meu mentor intelectual, que é o Mário de Andrade. Quando adolescente, eu lia muito. Era final da ditadura militar. Eu lia muita literatura política dos clássicos. E foi aí o meu encontro com o Mário de Andrade. E, quando eu li o “Turista Aprendiz”, do Mário, eu falei: “Gente, mas é isso que eu quero fazer. Eu quero ir de encontro”. Eu fui provocado por ele. Eu falei: “Não, eu quero ir de encontro aí esse Brasil. Eu quero ter uma profissão que me permita fazer isso”. Mas eu nem pensava que seria a moda. Então a primeira vez que eu cheguei na Paraíba foi em 2003, para trabalhar com algodão colorido e levar o algodão colorido para o desfile no São Paulo Fashion Week. E esse encontro me impactou muito na minha vida profissional, na minha vida pessoal, na minha visão de mundo, na minha relação com o Brasil. A Paraíba entrou em mim e nunca mais saiu. E depois vieram outros projetos com a renda Renascença e agora o projeto com as expedições. Já estamos na 33a expedição que eu faço com Paulo e Thiago Buriti, os irmãos da agência Visu, que é uma agência que trabalha com o turismo humanizado.

  • Você também teve uma coleção que tinha uma participação das Sereias da Penha.

Participação não, foi toda centrada nisso. Foi a Fúria das Sereias. Eu fui convidado na época, por causa de um desfile que eu tinha feito com biojoias no Sudeste do Pará. E tinha umas meninas que trabalhavam com escama de peixe. Eu lembro... quando eu cheguei aqui, elas até já tinham uma marca; a marca chamava “Escamando”. Eu falava: “Gente, mas esse nome não é bom”. Como era na Praia da Penha, eu sugeri, e elas aceitaram, “Sereias da Penha”, que foi um sucesso, que as colocou como uma referência da escama de peixe no Brasil.

  • Quais são os elementos que são usados nas suas coleções agora e que vêm da Paraíba?

Eu falo que, quando esses saberes do Brasil entraram na minha vida, entraram para não sair nunca mais. Por mais que a coleção não tenha Paraíba como tema, mas você vai encontrar alguma coisa bordada pelas meninas de Monteiro, você vai encontrar alguma coisa crochetada pelas meninas lá do Lajedo do Marinho. Eu sou um apaixonado pelo Cariri Paraibano. Aí vem uma influência do Mário [de Andrade]. O brasileiro conhece o Brasil pela borda, só pela borda, e permanece na borda. Aí ele era muito contra essa coisa do Nordeste conhecido através só do Litoral. Porque, quando você pega uma hora em linha reta aqui, aí você cai em outro universo que a maioria dos brasileiros e, pasme, dos paraibanos, não conhece. Agora também tem uma coisa com esse projeto, com esse trabalho, que eu acho que é importante, que é da autonomia para o grupo. Por mais que tenha a minha chancela, por mais que tenha a criação de uma peça minha, por mais que eu tenha participação numa coleção, elas precisam caminhar sozinhas.

  • A sua participação vem da criação das peças?

A criação é minha das peças, foram desenvolvidas por mim. Nós fizemos essa oficina em novembro, mas as peças são delas. Eu não ganho nada por isso. Não é peça da minha coleção. Foi uma provocação que eu fiz. É muito importante que um crochê, que a pintura, que um trabalho de uma renda venda a cultura daquele lugar. E venda a natureza daquele lugar, como é o caso dessa coleção Lar-Jedo. Então brinquei com as meninas, fiz a provocação de peças que mimetizassem a beleza do Lajedo do Marinho, da flora local, da fauna local, dos dias de chuva, dos dias de sol, e é isso que foi o que é o resultado, é isso que as pessoas vão ver.

  • O crochê é uma atividade manual que vem de décadas e décadas e de repente tem ganhado muito destaque na moda. Você acha que é uma tendência passageira ou algo que deve permanecer?

Eu espero que não seja tendência, eu espero que não entre na moda. Porque na verdade você chega nas lojas de produção em série, aí do fast fashion, você vê aquele monte de crochê feito da máquina, um monte de renda feita da máquina. Então isso é péssimo quando entra na moda. Porque a menina de 15, 20 anos, ela quer o vestido de crochê mais barato, independente se isso foi feito com uma crocheteira ou não. Então é importante que a gente trate esses saberes como sinais e marcas da ancestralidade do povo brasileiro e, nesse caso, do povo nordestino. Eu falo que você consegue criar um mapa etnográfico, poético, geográfico, através dos saberes e as rendas do Nordeste brasileiro. Então, nesse mapa, a renda renascença é Pernambuco, a renda filé é Alagoas, a renda irlandesa é Sergipe, o ponto abrolhos é Bahia, a renda de bilro é cearense. Por mais que essas coisas sejam produzidas no Nordeste inteiro, existe um epicentro disso. Por isso que é importante que o crochê produzido aqui traga características desse lugar. Porque o crochê você tem no Brasil inteiro, mas qual é a diferença do crochê daqui? Então essa coisa da moda... quando eu falei: “Vai entrar na moda, vai virar tendência”... isso é bom e isso é ruim; porque, se entrar na moda, sai. Hoje está na moda, amanhã não está mais. E eu acho que nós temos o Japão, nós temos a França, nós temos a Itália, que nos ensinam que esses saberes precisam ser valorizados e perpassados por gerações. Cada vez mais, deveria se valorizar, e eu acredito nesse lugar do feito à mão. O artesanato torna-se cada vez mais raro.

  • Você também apresenta muito suas coleções fora do país. Como é que o pessoal recebe esse artesanato?

A Europa valoriza muito, o Japão valoriza muito também. Aliás, acho que todos os lugares, eles ficam muito impactados com aquilo que fazemos, que é o feito à mão, que é o bordado e que é a nossa relação com cor. Por isso que é muito triste quando você vê um novo designer simplesmente querendo refletir algo que foi feito por eles e eles não querem saber disso mais. Existe um certo fascínio e curiosidade pelo Brasil; não é pela moda brasileira, é pelo Brasil. Então é importante que vetores e a cultura desse país reflitam esse país.

  • Como é que você vê o apoio que é dado ao artesanato aqui na Paraíba por meio de ações governamentais como, por exemplo, o Salão do Artesanato?

A primeira vez que eu fiz o trabalho com a renda Renascença, em 2006, mais ou menos... o Governo da Paraíba era o único no Brasil que tinha uma secretaria do artesanato, que era chamada “secretaria de artesanato”, mas nós podíamos chamar até de uma “secretaria de economia criativa”. Porque é um estado que tem uma indústria de bens de consumo incipiente, mas tem uma cultura fortíssima. Então é importante que esse estado invista na criatividade. Mas aí, como acontece com o Brasil, veio um governador que acabou com a secretaria de artesanato. Então foi esse governo atual que retomou a secretaria. Aí eu fui contratado para voltar e fazer uma nova coleção com as meninas da renda da Renascença. E eu espero que governador nenhum mexa nisso. E, aliás, só não vai mexer se o povo paraibano entender isso como valor e importância. Poucos estados no Brasil têm uma gestão pública voltada para o artesanato. E a Paraíba é um deles. A Paraíba é um exemplo, o Sebrae da Paraíba acaba sendo um exemplo para os outros estados, a gestão do governo virou um exemplo também para outros estados. Eu acho que com isso ganha a Paraíba e ganha o Brasil, principalmente.

téria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de setembro de 2026.