Quando o relógio marcou pontualmente às 22h, Fuba e Juzé puxaram o trio elétrico na Avenida Epitácio Pessoa cantando o hino das Muriçocas para uma edição histórica. É assim que João Pessoa sabe que a quarta-feira deixou de ser comum. É noite de fogo e de zumbido. Quarenta anos depois de sair pela primeira vez com pouco mais de 30 pessoas e um som improvisado, o Bloco Muriçocas do Miramar transforma novamente a Via Folia em corredor de frevo, samba e maracatu.
O abre-alas para o voo das muriçocas em 2026 veio com a presença de Alceu Valença, Capilé, Juzé e Myra Maya, entre outros. Ao todo, foram sete trios para comemorar quatro décadas de existência, homenageando o samba e um de seus nomes mais influentes: o paraibano Zé Katimba. Natural de Guarabira, o sambista de 93 anos é um dos fundadores da Imperatriz Leopoldinense. A escolha do tema conduz o desfile deste ano e orienta repertórios, estandartes e discursos.
Vindo à frente do primeiro trio, Zé Katimba falava emocionado sobre o tributo em sua terra natal. “Isso aqui é por amor, isso aqui é muito amor, muita dedicação. E aí você ser homenageado por essas pessoas com a alma, com a garra e a minha obra ser reconhecida, isso é algo gigante. Não tem explicação”, exaltou o sambista que saiu pela primeira vez no bloco. “Agora, eu sou Muriçoca!”.
O tema deste ano também devolve à avenida a trajetória de Zé Katimba. Autor de clássicos como “Martim Cererê”, “Disritmia” e “Bandeira da fé”, ele ajudou a modernizar o samba-enredo brasileiro e teve composições gravadas por nomes como Alcione, João Nogueira, Elza Soares e Zeca Pagodinho. Sua obra, marcada pelo protagonismo negro e pela leitura crítica das contradições do país, é incorporada ao desfile como referência central da edição.
A festa começou bem antes de Fuba anunciar mais uma vez o sonho de João Pessoa “com o seu verde colorindo o azul do mar”. Desde as 19h, os foliões já se concentravam na Praça das Muriçocas. Antes que os trios elétricos ganhassem a avenida, o cortejo abriu espaço para os grupos de cultura popular, como os ursos, maracatus e grupos de frevo. É nesse momento que o desfile assume feição própria e que simboliza a mistura que simboliza o bloco que é Patrimônio Cultural Imaterial da Paraíba.
Na frente, os estandartes criados por artistas plásticos paraibanos dão as boas-vindas a mais uma edição do bloco que gerou todos os outros no pré-Carnaval da capital. Sem cordão de isolamento, o público compareceu em grande número à Via Folia. A expectativa dos órgãos de segurança é de que cerca de 150 mil foliões tenham comparecido ao desfile.
A presença de Alceu Valença dá ao bloco a força e o entusiasmo que só o cantor pernambucano que completa 80 anos neste ano é capaz de criar. O Bicho Maluco Beleza veio no terceiro trio, atravessou às 23h os cerca de 5 km de percurso, marcando sua participação pela fusão de música nordestina, frevo, rock e elementos pop.
Mas é no chão que se mostra a cara das Muriçocas. Fantasias improvisadas dividem espaço com produções elaboradas e famílias inteiras caminham juntas com grupos de amigos. É o caso da educadora física Giuliane Araújo. Ela veio em um grupo de 15 pessoas, todas fantasiadas de palhaço, para dar continuidade a uma tradição que vem de longe.
“Eu amo o Carnaval, então, por mim, eu estou em todos anos. As Muriçocas são uma tradição, a gente está todo ano aqui. Desde adolescente, quando eu tinha 14 anos, eu estou aqui”, diz a foliã, que há 35 anos frequenta a festa. Neste Carnaval, ela trouxe o filho de 13 anos, que estreia como folião da versão adulta do bloco. Uma tradição fica na pele feito coceira de muriçoca.
O bloco nasceu em 1986 como uma reação ao esvaziamento da cidade às vésperas do Carnaval. A quarta-feira anterior à festa foi escolhida estrategicamente para reunir os moradores antes das viagens para outros polos do Nordeste.
Ponto facultativo
Enquanto os trios avançam pela Epitácio Pessoa e a noite se estende até depois da meia-noite, a cidade reorganiza sua rotina. Hoje, a Prefeitura de João Pessoa funciona excepcionalmente das 12h às 17h. Já o Governo do Estado decretou ponto facultativo até o meio-dia nas repartições públicas estaduais da capital. Os serviços essenciais seguem mantidos.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de fevereiro de 2026.