Entre o público presente em meio às cadeiras brancas, distinguiam-se os corpos e as subjetividades dissidentes, pessoas negras e travestis, prontas para iniciar o debate e o diálogo com base no livro Depois do maremoto, ressaca-mar, de Cley Tornado, lançado, ontem (16), na Livraria A União, no Espaço Cultural. O livro reúne 15 contos que tratam das vivências justamente dessas existências dissidentes diante da brutalidade urbana, nas perspectivas de futuros ainda possíveis para além da marginalidade e da morte.
A predileção pelos contos veio pela consideração de ser um gênero que pode atingir as pessoas de forma mais impactante, já que resume narrativas. Cley vem de uma produção de poesia, com a qual se sente mais confortável — tendo, inclusive, vencido o Prêmio Literário José Lins do Rêgo com a obra Sou Eu Lírico em 2022. Por isso, diz que a escrita em conto lhe retira de uma situação de “conforto” para uma situação de “confronto”.
“O conto tem um período muito curto de tempo, é uma coisa muito fácil de ser lida, acredito que tem um poder interpretativo menor [do que a poesia] e acho que o alcance é maior, tem mais fluidez também nas palavras, eu consigo escrever para além de um verso só, eu vou conseguir me expressar de uma forma melhor e é uma escolha também de me desafiar como escritor”, coloca Cley.
A produção dos contos surgiu, inicialmente, a partir da adaptação de poesias para o formato. Depois, chegou a vontade de falar de assuntos específicos, e, aí, foi o momento de pensar primeiro na mensagem para depois seguir à forma, em como organizar as ideias na escrita.
“É um trabalho que vem de dentro, de algo, de uma mensagem, de um sentimento, de alguma crítica social que eu quero fazer, mas que eu tenho todo o cuidado estético no estilo em que eu faço isso”, explica o autor, que reforça a vontade de abordar problemáticas da negritude na contemporaneidade.
“Fugir um pouco do estereótipo do que é ser negro para além do colonialismo. As pessoas têm o costume de resumir a história da população negra ao momento da escravidão. Mas, hoje em dia, a gente tem outras vivências, outras formas de ver o mundo, outro tipo de conhecimento. A gente tem nossa cultura, as religiões africanas, acessamos outros espaços, acadêmicos, formais, de uma classe social até maior. Queria trazer problemáticas da contemporaneidade”.
Para além dos temas, por exemplo, Cley conta as narrativas a partir do fantasioso no real. “Eu gosto do realismo mágico, porque eu gosto de falar as coisas, mas não gosto de falar as coisas de uma forma muito óbvia”, finaliza o autor.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de abril de 2026.