Andar pelas ruas de João Pessoa é se deparar com uma multiplicidade de expressões culturais. Quem observa a paisagem urbana encontra um caleidoscópio de cores e desenhos nos muros e painéis espalhados pelos bairros da capital, capazes de converter o cinza do dia a dia em uma verdadeira galeria a céu aberto. Assim é o grafite — ou graffiti, do original em italiano, como prefere a artista Kalyne Lima: uma reivindicação do espaço público por meio da arte, recorte da história e do imaginário de um lugar.
A intenção dessa vertente artística, como ela aponta, consiste em compartilhar a vivência de quem mora em uma cidade. Demarcador territorial, o graffiti estabelece um elo entre o meio urbano e os cidadãos. “Quando a gente está fazendo uma arte, na rua principalmente, as pessoas se interessam. Elas param, elas comentam, elas questionam. Essa exposição, que a gente chama muito de galeria a céu aberto, dá oportunidade para as pessoas verem a produção. O público gosta. Nunca houve nenhuma intercorrência negativa sobre o feitio ou o resultado de algum painel, porque há esse apelo de retratar o cotidiano, as informações do dia a dia”, afirma.
Há 14 anos, Kalyne integra o coletivo de graffiti Crew’Olinas, ao lado dos colegas Patrícia Oliveira, Elizabeth Carneiro e Amadeus Coisethal. Referência no estado, o grupo promove uma arte que evoca preocupações sociais e o protagonismo feminino. A equipe já executou projetos junto ao poder público e à iniciativa privada, como o primeiro mutirão protagonizado por mulheres na Paraíba e em outras regiões do Nordeste, em 2018, e ações na Penitenciária de Reeducação Feminina Maria Júlia Maranhão, em João Pessoa. 
“O graffiti é uma grande ferramenta de comunicação, de transformação de territórios, de mudança de ambiente. Quando uma área é grafitada, quando ela é trabalhada com arte, ela se torna uma outra coisa para as pessoas. Não só porque fica mais bonito, mais colorido, mas também porque ela se torna um ambiente mais acolhedor. Isso é uma coisa universal do graffiti, que é desenvolvido no mundo inteiro, e é o objetivo principal dessa expressão artística. Ela surge com esse intento de ressignificar espaços, de recondicionar a visão dos territórios. É uma arte periférica que surge em áreas vulneráveis, feita por pessoas que querem se projetar e se destacar de alguma maneira, trazendo uma perspectiva artística para o seu contexto, para o seu cotidiano”, revela.
Arte de resistência
Ao longo da história, lembra o artista e pesquisador Thayroni Arruda, o espaço público configurou um suporte recorrente para manifestações artísticas e reivindicações sociais. Afinal, qual o melhor local para ser visto, para expor uma ideia, senão a rua? O graffiti, nesse cenário, surgiu na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, como um instrumento de contestação do status quo, símbolo da resistência popular aos ideais dominantes, nos anos 1970. “O graffiti nunca deixou de ser marginal e sempre foi arte urbana. A questão é, depende de quem e de onde se lança o olhar. O sistema encontrou uma forma de ‘aceitar’ o graffiti. Não foi o graffiti que pediu permissão, foi a cidade que começou a entender que ele também é linguagem, é narrativa visual e é identidade”, pontua.
Essa modalidade artística, explica Thayroni, sintetiza um conjunto de técnicas e tipologias visuais de arte urbana; entre outros, o wildstyle, o throw-up, o stencil e a tag, pejorativamente chamada de pichação. Além da estética, o que distingue a tag dos demais estilos é a intenção e a leitura social: as cores e as imagens das outras vertentes conferem um apelo mais popular à arte, enquanto o aspecto cru e codificado das tags acentuam o distanciamento do público.
“Porém, os dois vêm do mesmo lugar, da necessidade de existir na cidade. Não só o graffiti, mas toda manifestação artística em espaço público é libertadora, transformadora e democrática. Vai de encontro ao modelo eurocêntrico de consumo de arte erudita, historicamente baseada em museus, galerias e na valorização da técnica acadêmica. O graffiti quebra a monotonia da cidade cinza, criando um ponto de atenção, memória afetiva e identidade visual. O que antes era apenas um espaço público, passa a ter um novo significado para as pessoas, se transforma em território. Em muitas cidades, a arte urbana ativa áreas esquecidas, movimenta a economia, o turismo e a cultura”, reforça.
Ainda há, no entanto, resquícios do preconceito contra essa expressão artística. A própria legislação brasileira já reconhece o graffiti como arte, na Lei nº 14.996/2024, mas a criminalização social e a carência de projetos de fomento à modalidade contribuem para a persistência de estigmas danosos, tanto sobre as obras quanto sobre quem as produz. Thayroni também vê um dilema na apropriação do graffiti para fins comerciais, ameaça em potencial às mensagens de protesto expressas na arte. “Quando o mercado abraça, às vezes se esvazia o sentido. Como manter a essência em meio à institucionalização? Fazer arte urbana é viver nesse equilíbrio constante entre resistência e oportunidade”, enfatiza.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de maio de 2026.