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Relações perigosas

Portal seguia ordens de Vorcaro

publicado: 16/10/2026 08h30, última modificação: 16/10/2026 08h30
Ex-banqueiro editava, derrubava textos e sugeria pautas ao Metrópoles; também tinha laços com outros veículos
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Tratativas de Vorcaro com Lilian Tahan, CEO do portal, estão em diálogos extraídos do celular dele | Foto: Reprodução/Wikimedia

por Agência Estado*

A CEO do portal Metrópoles, Lilian Tahan, consultava o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, antes de publicar reportagens sobre a instituição sua financeira. Ele pedia alterações nos textos levados ao ar, sugeria pautas favoráveis e chegou a derrubar a publicação de um texto, inclusive no período em que era investigado pela Polícia Federal por fraude de R$ 12 bilhões ao sistema financeiro.

Tahan era quem se comunicava com o ex-banqueiro e atendia a seus desejos, marcava reuniões presenciais e intermediava encontros com o dono do Metrópoles, o ex-senador Luiz Estevão. Procurada, ela não se manifestou. As tratativas estão registradas em diálogos extraídos do celular de Vorcaro pela Polícia Federal. No mesmo celular foram encontradas conversas com o CEO da Editora Globo, Frederic Kachar. O executivo foi demitido ontem (leia a nota da empresa no fim desta reportagem).

No dia 2 de abril de 2025, ao debater os rumores de que o banco BTG teria feito uma proposta de R$ 1 pela compra de ativos do Master, Vorcaro envia um desmentido oficial e avisa: “Proposta de 1 real nunca existiu!”. Tahan prontamente responde: “Tiramos”.

O banqueiro então determina como o texto deveria ser publicado: “Mas tem que ser um jeito que não pareça que não tem interesse. Só desmentir quem falou que tinha proposta de 1 real”. A jornalista concorda (“Deixa comigo”) e, horas depois, envia o link da matéria no ar, com uma promessa: “Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não tem pressa. No seu tempo. Não publicarei sem nos falarmos”.

Dias depois, em 10 de abril, Tahan envia a ele o rascunho de uma reportagem cujo título era “Compare os principais números dos balanços do BRB e do Master” e, em seguida, lhe pergunta: “O que acha?”. Vorcaro sugere alterações para inflar os números. “Carteira crédito do master é maior. Pois tem que pegar as carteiras dos fundos. Vou te mandar aí”, diz, em três mensagens, repassando o número de 52 bilhões. Mais tarde, naquele mesmo dia, a jornalista acata a mudança e lhe envia o link da publicação.

No dia seguinte, 11 de abril, ela manda o rascunho de um novo texto, desta vez sobre detalhes de uma reunião de Vorcaro com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Logo depois, pede autorização: “Alguma observação? Vou publicar!! Rs. Se tiver qualquer alteração, me diga que faço com ela no ar”, escreve Tahan.

O poder de veto do banqueiro sobre as matérias também ficou evidente em 27 de maio de 2025. A diretora submete a Vorcaro uma prévia, revelando que o BTG Pactual havia comprado ativos bilionários do Master e citando ações do Hotel Fasano, Light, Pão de Açúcar e Hapvida. O banqueiro ordena: “Pode retirar Hapvida do texto?”. Tahan obedece (“Claro”) e a matéria é publicada sem a menção à empresa.

A intervenção se repetia nos títulos do portal. No dia 28 de julho daquele ano, ela submete ao ex-banqueiro um texto que trata da entrega de documentos pelo Master ao Banco Central para concluir a venda ao Banco de Brasília (BRB). Ele sugere uma alteração na manchete. “Ao invés de último passo para compra, colocaria que Bacen deve aprovar nos próximos dias”, diz. A jornalista acata o pedido: “Deixa comigo! Fácil! Esta é a tendência”. E então lhe envia a nova versão, que o banqueiro aprova: “Ótimo”. A operação de compra do Master pelo BRB foi vetada pelo Banco Central em setembro do ano passado e o banco de Vorcaro foi liquidado em novembro.

Vorcaro usou sua influência no portal para pedir que o espaço de Ricardo Cappelli, candidato ao governo do Distrito Federal (PSB), fosse reduzido. À época, Cappelli atuava como um dos principais críticos da transação entre o Banco Master e o BRB, cobrando intervenção na instituição. “Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”, solicitou o banqueiro a Lilian Tahan. A CEO atendeu prontamente ao pedido de censura: “Deixa comigo”.

Uma conversa de 22 de outubro de 2025 mostra que o site deixou de publicar uma reportagem por ter sido vetada pelo banqueiro. A dirigente envia a Vorcaro a versão do que seria um texto com o título “Repactuação entre Oncoclínicas e Master permite que CDBs sejam convertidos em ações”.

Ela indaga a Vorcaro se haveria algum problema em publicar o tema: “Isso aqui te traz algum incômodo?”. “Sim! Pessoal da Oncoclínicas é completamente maluco, soltou fato disso. Informação errada ainda”, respondeu o banqueiro. Lilian Tahan então decide: “Deixar quieto aqui”. O texto não foi publicado.

Controle alcançava diferentes sites nacionais

Por: Redação

As mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam, ainda, que a rede de influência em sites de notícias, por meio de patrocínios e investimentos de empresas ligadas a ele, alcança também os sites das revistas IstoÉ e Carta Capital, além do Brazil Journal, PlatôBR e Diário do Centro do Mundo (DCM).

Textos eram avaliados por Vorcaro antes de serem divulgados pelas empresas jornalísticas, bem como títulos de matérias que não favoreciam o Banco Master. “Tem que pegar o Platô e moer esse Cappelli”, disse Vorcaro, em agosto de 2025, a respeito do então presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (Abdi) e pré-candidato ao Governo do Distrito Federal.

O PlatôBR tem como sócia a Foone, empresa de Flávio Carneiro, que atuava como assessor de imagem de Vorcaro. Era por meio de Carneiro que o ex-banqueiro interferia no conteúdo jornalístico.

Carneiro também era investidor das publicações IstoÉ e IstoÉ Dinheiro. Em 2024, o dono do Master encomendou a Carneiro uma capa da IstoÉ Dinheiro sobre a farmacêutica Biomm, em que havia investido.

O DCM receberia uma mesada para não publicar críticas a Vorcaro. No Brazil Journal, a relação de Vorcaro era com o jornalista fundador do site, Geraldo Samor, com quem falava para alterar ou excluir determinadas matérias. Na Carta Capital, que recebia patrocínio do Banco Master, a relação já estava evoluindo para uma possível sociedade.

Leia a nota oficial da Globo sobre demissão

“O Grupo Globo comunicou hoje [ontem] o desligamento do diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar. O conteúdo das conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025, às quais a empresa teve acesso ontem [quarta-feira (14)], revela uma relação inadequada do executivo com um anunciante.

A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação. O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo.

A empresa reconhece os 29 anos de dedicação de Kachar ao desenvolvimento de seus negócios de mídia e informa que o nome de seu substituto à frente da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio será divulgado em breve”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 16 de outubro de 2026.