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Acidentes caem, mas riscos persistem

publicado: 23/02/2026 09h15, última modificação: 23/02/2026 09h15
Apesar de uma queda de 38% em colisões envolvendo bicicletas no estado, adeptos atravessam desafios diários na rua
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João Pessoa é a 17ª capital do país em malha cicloviária, segundo associação nacional do setor | Foto: Roberto Guedes

por Samantha Pimentel*

Quem usa bicicleta diariamente enfrenta riscos no trânsito. Disputar espaço com motos, carros e caminhões pode ser difícil e, além de tudo, perigoso. A falta de ciclovias e ciclofaixas é outro fator que prejudica o uso desse transporte. E, mesmo quando esses equipamentos existem, muitas vezes não são respeitados, o que também pode contribuir para os acidentes. Porém, todas essas adversidades parecem estar contribuindo para deixar os ciclistas mais prudentes e atentos, já que o número de acidentes na Paraíba reduziu em 2025.

Segundo informações do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-PB), com base nos dados da Secretaria de Estado da Segurança e da Defesa Social (Sesds), em 2024, os acidentes de trânsito envolvendo bicicletas somaram 437 ocorrências — uma média diária de 2,5 —, apresentando 20 vítimas fatais. Já em 2025, o número diminuiu para 268 casos — uma média de 1,2 por dia — com 15 vítimas fatais. A redução foi de aproximadamente 38%. 

Pistas são disputadas com carros, motos e caminhões | Foto: Roberto Guedes

Embora os números de acidentes tenham diminuído no estado, quem anda rotineiramente de bicicleta por João Pessoa relata as dificuldades enfrentadas, sobretudo quanto à falta de espaço no trânsito. Conforme a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike), a cidade ocupa a posição de 17ª capital do país em malha cicloviária, com 76,77 km de ciclovias e ciclofaixas, atrás de outras capitais do Nordeste, como Fortaleza (CE) — em terceiro lugar, com 477,60 km; Salvador (BA), em quinto lugar, com 308,59 km; e Recife (PE), em nono, com 132, 25 km. Os dados são de julho de 2025.

Hospitais

Quanto aos atendimentos médicos relacionados a acidentes com bicicletas na Paraíba, em 2024, 1.333 pessoas deram entrada em hospitais, após ocorrências do tipo, em busca de assistência. Já no ano passado, o número foi de 1.273 — uma redução de aproximadamente 4,5%.

O índice tem como base os dados das duas principais unidades de Saúde do estado, que são consideradas referências para esses casos: o Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, em João Pessoa, e o Hospital de Emergência e Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes, em Campina Grande.

Usuários pedem ampliação de vias exclusivas para outros bairros

Para Edivânio Varela dos Santos, morador de João Pessoa que anda de bicicleta pela cidade desde a adolescência, o número de ciclovias e ciclofaixas ainda é insuficiente. “Uso ciclovia quando vou para a praia. É bom que fico mais protegido, mais distante dos carros. Mas precisa ter mais ciclovias, porque, nos bairros mais distantes da praia, como em Cruz das Armas, não tem. No Centro, era para ter, porque em muitos lugares nem acostamento tem, a gente anda vulnerável a um acidente”, reclama.

Wires Mendes utiliza sua bicicleta para o trabalho há 15 anos | Fotos: Roberto Guedes

Ele conta que usa a bike para se locomover para todos os lugares, há mais de 20 anos, e que nunca sofreu acidentes, mas já passou por situações arriscadas no trânsito. “Já passou perto [de haver um acidente], mas nunca tive nada. Muitos carros não respeitam nem as motos, quanto mais as bicicletas. Tem que andar sempre atento, é perigoso. Ônibus ‘tirando fino’ na gente, é complicado. Mas eu gosto, sempre tive bicicleta, não troco, não”, destaca. Edivânio ainda confessa que não usa capacete ou outro equipamento de proteção, embora saiba que são importantes.

Outro ciclista de João Pessoa, Wires Mendes, usa a bicicleta como meio de trabalho. Ele adaptou sua bike e colocou, nas partes dianteira e traseira, duas caixas para carregar garrafas de café, lanches, pipoca, balas, pirulitos e outros produtos que vende nas ruas. “Trabalho nela todo dia, faz uns 15 anos. Acho mais tranquilo, porque já estou acostumado, nunca tive acidente, mas já passei um susto grande: fui passar num cruzamento e olhei só para um lado, do outro lado um carro veio e freou em cima de mim”, relata ele, frisando que, depois desse episódio, ficou mais atento. Wires também não usa equipamento de proteção.

Damião Toscano, mais um ciclista da capital, conta que anda de bicicleta pela cidade há mais de 30 anos e reforça o coro por mais segurança. “Costumo combinar passeios em grupos, porque acho mais seguro. Quando tem mais gente, os carros passam com mais cuidado, com medo de bater, e até mesmo a possibilidade de assaltos é menor”, comenta. Quanto ao espaço disponível para as bikes, ele aponta a necessidade de ampliação das ciclovias: “Quase não temos [ciclovias] nos bairros, estão mais em pontos turísticos. Não temos a interligação dos bairros para o Centro e do Centro para as praias. A prefeitura precisa investir nisso”, defende Damião, argumentando que também faltam serviços de manutenção nos espaços já existentes — muitos dos quais, segundo o ciclista, apresentam desníveis e até buracos.

A equipe de reportagem do jornal A União procurou a Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de João Pessoa (Semob-JP), para saber se existem projetos de ampliação das ciclovias e ciclofaixas na cidade, bem como da manutenção dessas estruturas. No entanto, até o fechamento desta edição, não houve retorno de representantes do órgão.

Regra de distância mínima e uso de EPIs ajudam a manter segurança

De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), os condutores de automóveis precisam manter uma distância mínima de 1,5 m dos ciclistas, que devem trafegar na mesma mão da via, e nunca em sentido contrário, como explica a coordenadora de Educação para o Trânsito do Detran-PB, Ariana Nogueira.

“O ciclista deve se colocar no trânsito como um participante desse espaço, como qualquer outro. E é importante se fazer ser visto. Então, quando ele anda no lugar errado, isso dificulta a visualização dele naquele espaço e, em decorrência disso, podem acontecer acidentes”, afirma. Outros pontos relevantes sobre o tema é que os ciclistas não devem circular pelas calçadas e precisam trajar os equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados para garantir maior segurança no trânsito. “Mas, muitas vezes, a gente percebe que quem faz uso desses equipamentos são apenas os ciclistas esportivos. Porém, quem se desloca para o trabalho também deve usar capacete, assim como o motociclista precisa usá-lo para andar de moto”, salienta a representante do Detran-PB. 

Representante do Detran-PB frisa que acessórios como o capacete são essenciais no trânsito | Foto: Ortilo Antônio/Arquivo A União

Ariana ressalta, ainda, que é preciso que a população se eduque melhor para a convivência no trânsito, pensando na segurança coletiva e no bem comum e assumindo suas responsabilidades individuais. Em sua avaliação, a capital paraibana necessita avançar em termos de políticas públicas para o ciclista. “Ainda existe uma necessidade de melhoramento na urbanização e na mobilidade humana do trânsito — e a gente tem usado esse conceito de humano porque, afinal, o trânsito é feito por pessoas e para pessoas, então, dentro das cidades, precisamos criar uma mobilidade para garantir a segurança de todos”, observa.

Em relação à utilização de ciclovias e de ciclofaixas, Ariana frisa que tais espaços são exclusivos para bicicletas. Por isso, motos, carros ou qualquer outro tipo de meio de transporte, assim como os pedestres, são proibidos de trafegar ali. Além do risco de provocar acidentes, o descumprimento da norma é considerado infração grave, de acordo com o CTB.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de fevereiro de 2026.