Na Paraíba, comparando os dados dos últimos dois anos, houve uma queda de aproximadamente 10% nos óbitos por câncer de mama. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (SES-PB), o número de mortes passou de 361, em 2024, para 324 no ano passado.
Tipo de câncer mais frequente entre as mulheres no Brasil, o câncer de mama fica atrás, apenas, do câncer de pele não melanoma. Ele também é a principal causa de morte feminina por câncer.
Apesar da alta incidência, a doença apresenta boas chances de prevenção e cura quando diagnosticada precocemente, por meio de exames como a mamografia. Os avanços terapêuticos, a ampliação do acesso ao tratamento e as ações educativas voltadas à conscientização e à detecção precoce têm contribuído para a redução da mortalidade. 
Embora a SES-PB tenha informado que não dispõe dos dados referentes à quantidade de casos de 2023 a 2025, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima um índice de 1.180 novos casos anuais de câncer de mama na Paraíba, o que representa uma taxa de incidência de 41,37 casos por 100 mil mulheres. A projeção para este ano, por sua vez, é de 1.640 novos casos no estado, um aumento aproximado de 38%.
De acordo com a publicação O Controle do Câncer de Mama no Brasil, divulgada no ano passado pelo Ministério da Saúde, apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, a doença mantém elevada taxa de mortalidade no país. Em 2023, o índice foi de 12,58 óbitos por 100 mil mulheres. As maiores taxas foram registradas nas regiões Sul (14,12) e Sudeste (13,26), seguidas pelo Centro-Oeste (12,48), Nordeste (11,19) e Norte (9,53). Na Paraíba, no mesmo ano, a taxa foi de 10,27 óbitos por 100 mil mulheres, abaixo da média nordestina.
O número de mamografias com finalidade diagnóstica, realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), na Paraíba cresceu de 2020 a 2024. Foram realizados 722 exames em 2020; 1.034 em 2021; 1.220 em 2022; 1.357 em 2023; e 1.475 em 2024.
Entre as mulheres de 50 a 69 anos que, em 2019, haviam feito mamografia há menos de dois anos, observa-se diferença conforme o perfil social, considerando cor ou raça, nível de instrução e rendimento domiciliar per capita. Na Paraíba, 72,2% das mulheres com Ensino Superior realizaram o exame, enquanto entre as que não possuem esse nível de escolaridade o percentual foi de 42,6%. Em relação à cor, 55,9% das mulheres brancas haviam realizado mamografia no período, contra 28,8% das mulheres pretas.
Em âmbito nacional, segundo dados do Ministério da Saúde, quanto maior o nível de escolaridade, maior o percentual de mulheres que realizaram mamografia. Os maiores índices de realização do exame também foram observados entre mulheres brancas, com exceção dos estados do Amazonas, Rondônia, Maranhão e Santa Catarina, além do Distrito Federal e Goiás.
Procura deve ser permanente durante o ano
Atuando no Hospital Napoleão Laureano, referência no tratamento oncológico em João Pessoa e região, a mastologista Juliana Gadelha afirma que, na prática clínica, tem observado o aumento tanto no número de casos quanto na conscientização das pacientes. Segundo ela, cresce a procura pelo diagnóstico precoce, o que tem elevado a realização de mamografias de rastreamento. Ainda assim, há vagas disponíveis para o exame, tanto no Laureano quanto em outras instituições.
A médica destaca que o principal desafio é manter essa procura ao longo de todo o ano, e não apenas durante a campanha Outubro Rosa. “O aumento da busca pelo exame em outubro acaba refletindo em um crescimento de diagnósticos no fim do ano, o que sobrecarrega o serviço com casos identificados a partir desse rastreamento concentrado”, explica Juliana.
Transformações
A especialista também chama atenção para uma mudança, em curso, no perfil das pacientes. A idade média ao diagnóstico tem diminuído. Juliana relata que a equipe tem atendido cada vez mais mulheres jovens, inclusive uma paciente de 18 anos com câncer de mama confirmado por biópsia. Se antes a doença era mais comum após os 50 anos, hoje cerca de metade das pacientes atendidas na unidade tem menos de 50 anos.
Sobre a prevenção, a mastologista explica que o Ministério da Saúde recomenda a realização da mamografia a cada dois anos para mulheres entre 50 e 69 anos. Já as sociedades médicas orientam o início aos 40 anos, com periodicidade anual. Ela ressalta que a mamografia tende a ser mais eficaz a partir dos 40 anos, quando ocorre o processo de lipossubstituição da mama, no qual o tecido glandular é gradualmente substituído por tecido gorduroso, facilitando a visualização de alterações no exame. Em mulheres muito jovens, com maior quantidade de tecido glandular, a detecção pode ser mais difícil.
Antes dos 40 anos, a ultrassonografia pode ser utilizada, embora não seja considerada exame de rastreamento. Para mulheres com histórico familiar de câncer de mama, a orientação é iniciar o acompanhamento 10 anos antes da idade em que o primeiro parente foi diagnosticado.
Sintomas e fatores de risco
A médica reforça a importância de observar sinais de alerta, como crescimento rápido de nódulos, alterações inflamatórias na mama — como vermelhidão e aumento de temperatura —, nódulos endurecidos e fixos, além de secreção pelo mamilo, especialmente quando transparente ou com sangue. Alterações na pele da mama também devem ser investigadas.
“Entre os fatores de risco, além do histórico familiar e do avanço da idade, está o uso indiscriminado de terapia de reposição hormonal sem acompanhamento médico”, destaca a especialista, lembrando que, embora raro, o câncer de mama também pode acometer homens.
Quanto ao tratamento, ela enfatiza que o diagnóstico precoce amplia as chances de terapias menos invasivas e mais eficazes, muitas vezes sem necessidade de quimioterapia ou mastectomia, sendo possível retirar apenas o tumor. Nos casos mais avançados, pode ser necessário recorrer à quimioterapia e à retirada da mama, situação em que o Sistema Único de Saúde (SUS) também garante a reconstrução mamária, quando há indicação médica.
A mastologista esclarece que evitar a quimioterapia é um desejo comum entre as pacientes, já que o tratamento provoca efeitos colaterais importantes, como a queda de cabelo, que impacta diretamente a autoestima. Por isso que o investimento no diagnóstico precoce é fundamental e que as campanhas de conscientização têm papel essencial ao estimular as mulheres a buscarem acompanhamento e exames regulares”, conclui.
Pacientes relatam os desafios do tratamento
Com histórico de câncer de mama na família, Francileuza da Silva Ribeiro do Carmo, de 50 anos, mantém a mamografia anual em dia no Hospital Napoleão Laureano. Ela relata que a avó morreu em decorrência da doença, diagnosticada já em estágio avançado, em um período em que ainda havia muito constrangimento em procurar atendimento médico.
Francileuza relata que o pudor em realizar exames e expor o corpo atrasou o diagnóstico da avó. Hoje, ela percebe uma mudança de postura nas novas gerações, que demonstram menos resistência e mais cuidado com a prevenção.
Já Edna Sobral, de 56 anos, descobriu o câncer há cerca de um ano durante exames de rotina. Sem casos anteriores na família, ela foi a primeira a receber o diagnóstico. Após a cirurgia para retirada do tumor, segue em tratamento com quimioterapia. Edna destaca o impacto emocional da notícia, que descreve como devastadora. Além dos desafios físicos do tratamento, ela afirma ter sentido o afastamento de amigos e conhecidos, que passaram a agir com receio, como se a doença fosse contagiosa. Apesar disso, ressalta que conta com o acolhimento da família nesse momento.
Outra paciente, Maria Auxiliadora Elias Bezerra, de 47 anos, também está em tratamento contra o câncer de mama. Ela conta que identificou alterações na mama durante o autoexame e, em seguida, procurou atendimento médico. A mamografia e a biópsia confirmaram o diagnóstico. “Eu costumava realizar exames regularmente, especialmente após as gestações, quando recebia orientações no pré--natal, mas com o tempo, reconheço, relaxei na rotina de acompanhamento”.
Maria Auxiliadora fala, inclusive, sobre os impactos do tratamento, principalmente na autoestima. “A queda de cabelo, consequência da quimioterapia, ainda é difícil de enfrentar, além do cansaço provocado pelas sessões”. Apesar das dificuldades, ela afirma que segue firme, amparada pelo marido, que a acompanha nos procedimentos, pela família e pela comunidade da igreja, que oferecem apoio durante o processo.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de fevereiro de 2026.