O diálogo entre o artesanato paraibano e a moda, que ganhou destaque, mais uma vez, no desfile Tramas Arretadas, realizado no dia 31 de janeiro, no Espaço Cultural, em João Pessoa, ocupará novas passarelas mundo afora. A coleção “Paraíba, meu amor”, de renda renascença, desenvolvida pelo designer Renato Imbroisi em parceria com rendeiras do Cariri paraibano, alcançará projeção internacional em maio, quando será exibida em um museu da cidade de Leipzig, na Alemanha.
O projeto do Tramas Arretadas partiu de uma iniciativa do Governo da Paraíba, por meio da Secretaria de Estado do Turismo e Desenvolvimento Econômico (Setde) e do Programa do Artesanato Paraibano (PAP), em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Foram cinco coleções autorais que utilizaram a renda renascença, o bordado labirinto, o macramê e o crochê.
Na ocasião do desfile, o governador João Azevêdo destacou a projeção que a arte paraibana tem conquistado fora do país e reforçou o papel das políticas públicas de incentivo no impulsionamento do artesanato local. “Da mesma forma que a renda cresceu, eu tenho certeza que as outras tipologias vão, a partir de um evento como esse, desenvolver-se. Você imagina que, em 2019, Ronaldo Fraga foi chamado para abrir a São Paulo Fashion Week com o mesmo desfile que fez aqui”, afirmou. Ao relembrar a trajetória recente das ações voltadas ao setor, o governador exaltou, ainda, a criação do Centro de Referência da Renda Renascença (Crença) em Monteiro e o reconhecimento da cidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como referência da renda renascença. “Quando, verdadeiramente, se faz política de incentivo, em qualquer segmento, ele dá muito certo”, cravou.
Já a primeira-dama do Estado e presidente de honra do PAP, Ana Maria Lins, ressaltou o potencial de visibilidade gerado pelo desfile e pelas coleções apresentadas. Segundo ela, a iniciativa amplia esse reconhecimento e abre novas portas para o trabalho das artesãs. “Com certeza, a partir deste desfile, elas terão muita visibilidade para receber encomendas e crescer com a sua arte”, celebrou. Também estiveram presentes no evento a segunda-dama Camila Mariz e a secretária de Estado do Turismo e Desenvolvimento Econômico (Setde), Rosália Lucas.
No campo criativo, Renato Imbroisi comemorou o sucesso da coleção, atribuindo o resultado ao trabalho das rendeiras. Segundo ele, a vitória está no fato de a coleção representar a identidade dessas mulheres e evidenciar quem produz as peças, como e de que maneira esse trabalho é realizado, algo que, para o designer, está estampado no rosto de cada uma delas. Imbroisi destacou ainda que os desenhos foram criados pelas próprias rendeiras, com a participação de seus familiares, e ressaltou a importância de que todas estejam satisfeitas, com bons resultados de venda e reconhecimento do público. De acordo com ele, esses objetivos foram alcançados, refletidos nos elogios recebidos e na força coletiva demonstrada pelas artesãs.
O designer ressaltou, ainda, que o interesse europeu pelo artesanato paraibano apresentado no Tramas Arretadas não se limita à Alemanha. Segundo ele, a participação em Leipzig representa apenas o primeiro passo desse processo de internacionalização. Além da exposição no museu alemão, há a expectativa de que a coleção siga, em 2027, para Madri e para outros museus, que vêm demonstrando novos interesses e estabelecendo contatos com o trabalho desenvolvido na Paraíba.
A gestora do PAP, Marielza Rodriguez, explicou que todos os produtos artesanais desenvolvidos no programa vão para feiras nacionais e para eventos no exterior. “Em 2025, fizemos 10 feiras fora do estado e dois eventos em Portugal”, contou.
Outras tipologias
Além de “Paraíba, meu amor”, outras coleções também devem ter desdobramentos. É o caso da “Simplesmente Paraíba”, desenvolvida por estudantes do curso de Produção de Moda da Escola Técnica Professora Maria Cecília de Castro, da cidade de Alcantil, Cariri paraibano, em parceria com o consultor de imagem e produtor artístico Haendel Melo.

- Na capital, desfilaram coleções autorais utilizando a renda renascença, o bordado labirinto, o macramê e o crochê
Haendel explicou que a ideia inicial da coleção surgiu a partir de uma provocação da gestora do PAP, Marielza Rodriguez, que desafiou os alunos concluintes do curso de Produção de Moda a criar uma coleção apta a ser apresentada na Semana Criativa de Tiradentes.
A proposta ganhou mais consistência com a consolidação de uma parceria com o Centro Cultural Meninos de Alcantil, que envolveu 13 jovens do programa Primeira Chance, atuando como estagiários em todas as etapas de organização e criação. Segundo Haendel, muitos desses participantes nunca haviam tido contato com o artesanato paraibano ou sequer conhecido uma peça artesanal, passando, a partir daí, por oficinas e formações conduzidas pela artesã Sandovânia Bertolino.
Como resultado dessa experiência de aprendizagem, foi desenvolvida uma coleção com o propósito de prestar uma homenagem à Paraíba por meio de suas tipologias artesanais. Cada vestido representa uma dessas tipologias do artesanato paraibano, compondo um desfile que se transforma em uma verdadeira celebração da identidade cultural do estado.
Para reforçar esse conceito, a cartela de cores foi inspirada nas cores da bandeira do estado, criando uma narrativa visual forte e simbólica. “Mais do que uma apresentação de moda, ‘Simplesmente Paraíba’ foi concebida como um projeto educativo e cultural de longo alcance. A proposta é que a coleção se transforme em uma exposição itinerante, circulando por museus e escolas e levando o artesanato, a moda e a criatividade como ferramentas de formação”, concluiu Haendel.
Macramê

A coleção “Arroxando Mais” foi resultado das oficinas ministradas por Ana Sudano, Carol Teixeira e Roberto Meireles para macramistas de João Pessoa, Campina Grande e Araruna. As peças desenvolvidas são fruto de um trabalho construído de forma coletiva e também individual com os artesãos.
De acordo com a professora e artesã Carol Teixeira, o processo buscou ir além da execução técnica do macramê, estimulando os participantes a sair de suas zonas de conforto. Cada artesão incorporou às criações suas vivências pessoais, a maneira como enxerga o macramê e referências da própria Paraíba, expressas em elementos como cores e formas.
Além da imersão na cultura local e no aprimoramento da técnica, o projeto também envolveu a criação e formalização da Associação dos Macramistas da Paraíba (AMPB). Carol destaca ainda que, ao adquirir artesanato, o consumidor leva consigo exclusividade, história e o tempo dedicado à produção das peças. “Isso impacta diretamente a economia local e o aspecto social, ao mesmo tempo que valoriza as técnicas tradicionais sem abrir mão da inovação”, concluiu.
Mulheres labirinteiras
A designer Lu Azevedo explicou, em entrevista à Rádio Tabajara, como foi desenvolvido o trabalho com as mulheres labirinteiras do município de Ingá e apresentou detalhes da coleção de bordados Jardim de Labirintos. Segundo ela, o projeto vem sendo desenvolvido há cerca de três meses no Quilombo Pedra d’Água, envolvendo a formação das mulheres labirinteiras e a criação de novos produtos.
O desenvolvimento das peças foi concebido como um processo formativo, estruturado a partir de oficinas de costura, modelagem e montagem de acessórios, além de um processo criativo amplo, que resultou na coleção apresentada. As criações dialogam diretamente com o território das artesãs, trazendo como referência as plantas cultivadas nos jardins do quilombo.
Antônia dos Santos, que aprendeu a arte do bordado de labirintos com a mãe, falou sobre a emoção de ver suas criações ganhando visibilidade. Para ela, é motivo de extrema alegria perceber que as peças produzidas pelas artesãs chegaram a um desfile, reforçando o sentimento de valorização e pertencimento.
“Lar Jedos”
O estilista Ronaldo Fraga, cuja coleção fechou o desfile, teve a oportunidade de ministrar uma consultoria para as crocheteiras do Lajedo do Marinho, Zona Rural de Boqueirão, apresentando assim a coleção “Lar Jedos”. Em entrevista ao jornal A União, ele ressaltou que a coleção reflete a natureza daquela região, como forma de torná-la única e diferenciada em relação a outros trabalhos realizados em crochê em outras localidades.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de fevereiro de 2026.