A alegria de nordestino é ver o céu carregado, como dizem, “bonito para chover”: nuvens acinzentadas cortadas pelos clarões dos relâmpagos. Estes primeiros meses do ano são considerados os mais chuvosos na região. É o momento em que aumenta a expectativa para o reabastecimento dos mananciais, para garantir segurança hídrica à população. Mas o primeiro quadrimestre do ano também é marcado pelo aumento na incidência de descargas elétricas de alta intensidade: os raios. Fenômenos que encantam e assustam, tanto pela sua beleza quanto pela potência e os riscos que representam.
O Grupo Storm e a Energisa monitoram a previsão de eventos climáticos dessa natureza na Paraíba. O levantamento feito no mês de janeiro registrou mais de 12 mil pulsos elétricos em todo estado. A maior concentração aconteceu no Sertão, com 76,8% das ocorrências. Em seguida, veio a região da Borborema com 22,4%. O Litoral é a área com menor incidência de raios, com 0,67% de registros no mesmo período.
O meteorologista Mário Leitão explica que as altas temperaturas na região contribuem para a formação das descargas elétricas. “Quando chega 21 de dezembro, o sol está mais próximo da terra e o solo aquece muito mais. Essas condições atmosféricas são favoráveis à concentração de nuvens, gerando o ambiente propício para a geração de raios”, disse.
Período crítico
De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o período que compreende os meses de janeiro a abril é o mais crítico em relação à quantidade de registros de quedas de raios na Paraíba. Porém, a incidência de casos em janeiro deste ano foi abaixo da média. Segundo informações do instituto, o fato está associado ao baixo índice de precipitações pluviométricas registradas no estado, no primeiro mês do ano.
Dados da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa) mostram que, de 1o de janeiro a 4 de fevereiro, o acumulado de chuvas no estado foi baixo. O maior índice foi notificado no Litoral, com 44,2 mm, seguido do Brejo, com 34,6 mm. O Alto Sertão somou 27,6 mm e o Agreste, 19,5 mm. As menores quantidades de chuvas caíram no Sertão, 13,9 mm, e no Cariri, com apenas 12 mm.
Para o meteorologista Mário Leitão, o que acontece com o Sertão e o Cariri está dentro da normalidade, devido a um elemento meteorológico que aumenta a pressão atmosférica. “Um centro de alta pressão se estabeleceu, desde o final do ano, sobre o semiárido do Nordeste. Em muitas ocasiões, as nuvens se desenvolvem, mas não necessariamente são nuvens de chuva. Às vezes, até dava um ‘chuvisco’, mas não ia além disso”, explicou.
A especialista explica, portanto, que, para que a descarga elétrica se forme, é necessária a existência de nuvens de chuva, o interior dessas nuvens acumula cargas elétricas opostas. O atrito entre partículas de água, gelo e granizo provoca uma separação: cargas positivas para cima e negativas para baixo. Isso ocasiona pulsos, que podem ser internos ou externos. Enquanto isso, no solo, há um acúmulo de cargas positivas. Quando o ar de dentro das nuvens perde a capacidade de isolamento, a eletricidade é descarregada dando origem à descarga nuvem-solo.
“Nas nuvens, a temperatura pode chegar a 50 ºC negativos, enquanto o solo e o ar próximo ao solo estão aquecidos. Quanto maior for a diferença de temperatura, maior é a ocorrência dessas descargas atmosféricas. No Cariri, por exemplo, ocorrem raios, mas não com a mesma intensidade que acontece no Sertão, porque aqui é mais quente”, esclareceu Mário.
Fenômenos causam riscos à vida e prejuízos
Fenômenos climáticos intensos podem colocar vidas em risco e causar prejuízos à rede elétrica, como sobretensão e surtos elétricos, danos a transformadores e para-raios, queima de isoladores, rompimento de cabos e interrupções no fornecimento de energia.
Com base no monitoramento das previsões climáticas, o Centro de Operação Integrado (COI) da Energisa antecipa-se a contingências provocadas por fortes chuvas. Segundo o coordenador de Operações, Bruno Correa, há “um plano estruturado para atuar em situações críticas, com resposta rápida e menor impacto para os clientes”.
A concessionária adota medidas preventivas para agilizar o atendimento à população e reduzir impactos em setores como indústria e comércio, incluindo a alocação de equipes em pontos estratégicos, o que permite recomposição mais rápida do sistema diante de adversidades climáticas.
Apesar da menor incidência de descargas atmosféricas, a população deve manter cuidados, como desconectar eletrodomésticos das tomadas e evitar o uso de equipamentos elétricos durante tempestades. Fora de casa, a orientação é buscar abrigo, evitar áreas abertas e não permanecer sob árvores. Em caso de galhos ou cabos rompidos, a recomendação é não se aproximar e acionar o Corpo de Bombeiros ou a concessionária, priorizando sempre a segurança.
Previsão do tempo
Nas análises do meteorologista Mário Leitão, “o período chuvoso, que se intensificou a partir desta primeira semana de fevereiro, é uma prévia de vários dias com tempestade, raios e trovões”.
As precipitações costumam chegar ao fim da tarde, estendendo-se até a noite. “Neste mês, pelas previsões, nós teremos bons índices de chuva no semiárido brasileiro, mais especificamente as regiões do Sertão e Cariri da Paraíba, incluindo também o Curimataú”, afirmou o especialista.
O cenário das previsões em fevereiro deixa o meteorologista otimista, também, para os meses de março e abril. “A tendência é que tenhamos uma boa recuperação dessas chuvas”, concluiu. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também prevê céu encoberto e precipitações pluviométricas para o Sertão da Paraíba durante o mês de fevereiro.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de fevereiro de 2026.