Os acidentes de trânsito seguem sendo uma epidemia silenciosa e um dos principais desafios de saúde pública no Brasil. Dentro da programação do Maio Amarelo, campanha dedicada à conscientização e à redução de acidentes e mortes no tráfego, o Hospital de Emergência e Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes promoveu, ontem, uma ação educativa voltada para pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde. De acordo com o médico ortopedista e diretor-geral do Trauma, Matheus Pedroso, de 2020 a 2025, o número de atendimentos decorrentes de acidentes de trânsito aumentou 25%, sendo que, em 2025, foram socorridas aproximadamente 12 mil vítimas de acidentes.
Analisando apenas os dados de abril deste ano, a unidade hospitalar atendeu 800 pessoas em casos envolvendo motocicletas. “Se o acidentado precisa de internamento, esse tratamento custa em torno de R$ 750 por dia para o hospital. Nós operamos, em média, 20 pacientes por dia com fraturas ortopédicas; ou seja, a demanda é muito alta, e nossa esperança é que, com campanhas educativas como esta, nós possamos diminuir esses números que só têm crescido nos últimos anos”, declarou o diretor.
Ainda no Trauma, o número de atendimentos relacionados a acidentes de trânsito, de janeiro a abril de 2026, cresceu 7% em relação ao mesmo período de 2025, totalizando 4.084 ocorrências nos quatro primeiros meses do ano. Desse total, a maioria envolve motocicletas, com 3.558 registros. Em seguida, aparecem os acidentes com carros, que somaram 219 casos; com bicicletas, com 177 registros; e os atropelamentos, que chegaram a 130 ocorrências.
Para Gláucio Costa, comandante da 3a Região da Companhia de Policiamento de Trânsito Urbano e Rodoviário (CPTran), a maior parte dos sinistros pode ser evitada. “A maioria dos acidentes, como visto por meio das estatísticas, tem como fator o comportamento humano. Às vezes, é uma desatenção, um descuido. Essa abordagem que estamos fazendo no Trauma, ao conversarmos com os pacientes, nos ajuda a entender melhor o que os levaram a se envolver em um sinistro. E nossa principal mensagem é sempre para que as pessoas sigam as regras de trânsito: se beber, não dirija; não utilize o celular enquanto estiver conduzindo um veículo; respeite as faixas contínuas, as sinalizações horizontais e verticais. Com certeza, isso salvará vidas”, frisou Costa.
Homenagem
Durante o evento, o Hospital de Trauma recebeu a Medalha e Comenda Paz no Trânsito, concedida pela CPTran em reconhecimento ao trabalho desenvolvido pela unidade na assistência às vítimas e nas ações de conscientização. O diretor-geral do Trauma recebeu a homenagem em nome de todos os profissionais que compõem o hospital.
“Essa medalha não é para mim, mas para o serviço do nosso setor politrauma, que é composto de uma equipe muito qualificada, sempre de prontidão para receber os pacientes vítimas de acidentes de trânsito. Somos referência para 203 municípios da Paraíba nesse quesito, então é uma responsabilidade grande, mas temos muito orgulho de estarmos envolvidos”, pontuou Matheus Pedroso.
JP registra 2,9 mil vítimas no 1º trimestre
Por: Bárbara Wanderley
O Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, em João Pessoa, atendeu 2.934 pacientes vítimas de acidentes de trânsito no primeiro trimestre deste ano, um número que se mantém constante desde 2024, quando foram 2.896 pacientes atendidos no período. Em 2025, a unidade registrou 2.871 ocorrências do tipo.
Os acidentes envolvendo motocicletas correspondem a cerca de 80% do total. O restante divide-se entre ocorrências envolvendo automóveis, bicicletas, ônibus e atropelamentos, de acordo com os dados fornecidos pela assessoria de comunicação do hospital.
O ortopedista e diretor clínico do Trauma, Matheus Enomoto, conta que os acidentes de trânsito representam quase 50% dos atendimentos. “Normalmente, recebemos em torno de mil pacientes vítimas de acidentes por mês. A maioria dos atendimentos de trauma envolve casos de alta complexidade. Pacientes frequentemente sofrem traumas de alta energia, como acidentes com motocicletas, que representam cerca de 80% dos casos. Em acidentes de moto, o condutor, geralmente, é projetado, sofrendo o que chamamos de ‘politrauma’, com lesões em vários locais, como membros, tórax e cabeça. Casos complexos como esses exigem internações prolongadas”, afirma.
O resultado são leitos ocupados por muito tempo, enquanto novos pacientes não param de chegar. Apesar disso, Matheus Enomoto destacou que ninguém tem atendimento negado. “Em casos de trauma, procuramos sempre atender a todos os pacientes, mesmo que não haja um leito imediato disponível. Adaptamos e criamos leitos para garantir o atendimento. No entanto, quando lidamos com casos complexos que demandam internações mais longas, isso acaba aumentando o tempo de internação dos demais. Um paciente com múltiplas fraturas, por exemplo, pode permanecer internado por um período maior, o que impacta a rotatividade dos leitos”, explica.
Ele também esclarece que o hospital conta com protocolos internos para situações de superlotação e acidentes com múltiplas vítimas. “Diariamente, temos à disposição cinco cirurgiões gerais de plantão, além de quatro a cinco ortopedistas, cirurgiões torácicos e vasculares, entre outros profissionais. Nossa equipe, embora adote uma abordagem racional, priorizando os casos de acordo com a gravidade, garante que todos sejam atendidos”, aponta.
Por fim, Matheus Enomoto lembra que o hospital é uma referência para traumas de alta complexidade. Com isso, casos menos complexos podem ser direcionados a outras unidades de saúde, justamente para evitar uma sobrecarga — algo que pode ser avaliado pelas equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) durante o primeiro atendimento.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de maio de 2026.