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Autodefesa atrai mulheres ao tatame

publicado: 06/04/2026 09h12, última modificação: 06/04/2026 09h12
Na capital, academias de jiu-jítsu e krav maga reúnem adeptas que buscam prevenir e reagir a situações de risco
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Para o professor Marcell Pessoa, a modalidade prepara alunas para se proteger de gestos agressivos, como socos e pegadas de pulso | Foto: Roberto Guedes

por Camila Monteiro*

Em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio, uma alta de 4,7% em relação ao ano anterior. Conforme os dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a partir do levantamento Retrato dos Feminicídios no Brasil, 36 desses crimes ocorreram na Paraíba. Diante do crescimento de casos de violência contra a mulher, não é difícil encontrar paraibanas que buscam as artes marciais como ferramentas de autodefesa, confiança e autoestima. Em academias e centros de treinamento, modalidades como jiu-jítsu e krav maga têm atraído pessoas que, para além da saúde física, querem conseguir defender-se de situações de risco.

A reportagem do jornal A União acompanhou uma aula de jiu-jítsu em uma academia localizada no bairro do Bessa, e foi possível perceber que a maioria dos participantes eram mulheres. A arte marcial envolve contato físico, técnicas de alavanca e imobilização, o que permite que pessoas com menos força consigam neutralizar adversários maiores.

Para os professores Wesley Lucas e Marcell Pessoa, a luta também contribui para mudar a postura diante de cenários de possível agressão. “Em muitos casos de violência, existe um sentimento de [a vítima] ‘travar’ mediante o toque de terceiros, impossibilitando-a de reagir. O jiu-jítsu ajuda nessa questão, tira essa sensação de estar impossibilitado, de sentir-se paralisado e vulnerável diante daquela situação”, explica Marcell.

A estudante de Psicologia Larissa Ramos pratica jiu-jítsu há três anos e diz ter conseguido superar algumas inseguranças ao longo das aulas. “Eu tinha um certo trauma: se alguém segurasse meus braços, eu entrava em desespero. Quando surgiu a turma, resolvi enfrentar esse desafio”, lembra.

Com o tempo, o receio deu lugar à confiança. Hoje, Larissa afirma ter percebido mudanças significativas no amor-próprio e na forma como encara situações do cotidiano. “A questão da autoestima mudou muito. Eu me sinto mais empoderada. Sei me defender e isso me faz muito mais confiante, até fora do tatame”, conta.

Essa mudança de atitude é observada com frequência entre os professores. Segundo Wesley, de fato, o treinamento frequente ajuda a desenvolver autoconfiança e postura, fatores que podem influenciar até mesmo na prevenção de agressões. “Quando a pessoa treina, sua postura muda. A mulher passa a demonstrar mais confiança, e isso pode fazer com que o agressor deixe de enxergá-la como uma vítima fácil”, avalia. Marcell acrescenta que a modalidade prepara as alunas para reagir e se livrar de gestos agressivos, como socos, pegadas de pulso, puxões de cabelo e tentativas de imobilizá-las ou atirá-las ao chão.

A característica mais conhecida do jiu-jítsu é, justamente, o uso da técnica — principalmente da alavanca — em vez da força. Conforme Wesley, essa é uma das razões pelas quais a prática é tão eficaz para as mulheres. “O jiu-jítsu brasileiro foi adaptado para que pessoas menores consigam lutar contra adversários maiores. A gente usa o peso e o movimento do oponente contra ele mesmo. Muitas vezes, o peso, que parecia uma vantagem para o agressor, acaba se tornando uma desvantagem”, pontua.

Por isso, o professor faz questão de que, nas suas aulas, mulheres e homens treinem juntos, para que elas vejam que é possível vencer pessoas mais altas e mais fortes, utilizando as técnicas da maneira correta. “Quando você luta com homens mais pesados, ganha a confiança de que você é suficiente para se defender”.

Bem-estar e autoconfiança são outros ganhos

Apesar dos benefícios de treinos mistos, como apontou Wesley Lucas, muitas mulheres ainda sentem insegurança em fazer aulas com homens. Foi para solucionar essa questão que a professora Mag Lucena resolveu criar, em uma academia do bairro de Manaíra, turmas de jiu-jítsu exclusivas para mulheres.

Estabelecimento em Manaíra mantém turmas exclusivas para o público feminino | Foto: Carlos Rodrigo

A atleta faixa-preta recorda que, em 2024, algumas amigas demonstraram interesse em aderir ao esporte, mas apresentavam esse receio. “Iniciei aulas particulares para três mulheres e, em menos de dois meses, a turma cresceu para cerca de 15 alunas, levando à oficialização do treino feminino na academia”, destacou Mag, apontando que a iniciativa foi uma das pioneiras do tipo em João Pessoa.

A professora explica que sua motivação também foi a de compartilhar as inúmeras vantagens do esporte que ela pratica há mais de 15 anos. Segundo Mag, a disciplina, o autocontrole, a sensação de bem-estar e o empoderamento são alguns dos benefícios do jiu-jítsu, além das aptidões em autodefesa.

“As mulheres procuram o jiu-jítsu como meio de atividade física, por ser um esporte dinâmico, que requer força, resistência, mobilidade e que proporciona emagrecimento, mas, principalmente, como forma de defesa contra alguma agressão, considerando que trabalhamos inúmeras técnicas de imobilizações, com as quais conseguimos neutralizar e aplicar golpes em oponentes maiores e mais pesados que nós mesmas”.

Diante de tantos pontos positivos, Mag afirma que as mudanças visíveis nas suas alunas são drásticas. Melhoras na autoestima, na forma de caminhar e de se posicionar, de manter a calma sob pressão e ter a capacidade de enfrentar desafios com mais tranquilidade. “Tudo que ensinamos e aprendemos no tatame acaba refletindo em todas as áreas da vida”, defende Mag.

A professora deixa, por fim, um recado para as mulheres que temem aderir à prática de alguma arte marcial: “Conheçam, experimentem! Se toda mulher tivesse noção dos benefícios que o jiu-jítsu nos proporciona e do quanto precisamos saber de defesa pessoal, já teriam começado a treinar na infância. Façam uma aula experimental e provem pessoalmente desse esporte maravilhoso, que não apenas transforma, mas também salva vidas!”.

Treinamento aguça estado de alerta no cotidiano

Para o professor de defesa pessoal Luís Alberto de Aguiar, as artes marciais podem mesmo ser uma porta de entrada importante para quem deseja aprender a se proteger. No entanto, ele ressalta que a defesa pessoal vai além do esporte.

“O esporte pode ser o início do treinamento, porque desenvolve movimentação e condicionamento. Mas, depois de um tempo, o ideal é migrar para a defesa pessoal”, explica Luís Alberto, complementando que as artes marciais tradicionais passaram por modificações para que as pessoas pudessem praticar e competir sem se machucar — ou seja, normas foram criadas para moldar essas atividades. “Para defesa pessoal pura, só existe o krav maga; as demais modalidades marciais sempre incluem algum tipo de regra. Na defesa pessoal, tudo é permitido — colocar um dedo no olho, atingir a região genital masculina etc.”, comenta o especialista.

Um dos principais ensinamentos desse outro tipo de treinamento, de acordo com Luís Alberto, é o chamado “estado de alerta”, que permite que os praticantes estejam mais atentos ao que se passa ao seu redor e, dessa forma, consigam antecipar uma reação. Entre as orientações de prevenção que o professor destaca, especialmente para as mulheres, estão mudanças simples no comportamento cotidiano. “Evitar usar celular ou fones de ouvido enquanto se caminha na rua, além de prestar atenção ao ambiente e reconhecer sinais de perigo, são atitudes que podem ajudar a prevenir situações de violência”, pontua.

Empoderamento

Érika Andrade, de 55 anos, pratica artes marciais desde 2021. A vontade de aprender vem desde a infância, mas, mais do que um sonho de criança, a decisão de investir nesse tipo de esporte foi reforçada após ela se tornar mãe, em uma sociedade de riscos constantes de violência de gênero.

Assim, a oportunidade de Érika iniciar o aprendizado nessa seara surgiu quando sua filha entrou para uma turma de caratê. “Comecei nas aulas de caratê e, com o passar dos anos, me interessei pela defesa pessoal”, relata. Essa mudança fez com que ela aprendesse a lidar com situações reais de perigo contra quaisquer tipos de agressão. “Isso me trouxe empoderamento e autonomia, e eu queria passar esse sentimento para a minha filha”, ressaltou.

Segundo Érika, o treinamento em defesa pessoal também a ajuda a fortalecer o autocontrole em contextos de ameaça iminente, a “desenvolver o estado de alerta sem ficar ansiosa, além da gestão do medo, para não paralisar frente a um perigo”. Para ela, a transformação é, antes de tudo, emocional, pois as praticantes desenvolvem autoconfiança, o que possibilita evitar conflitos, mas também a capacidade de neutralizar as tentativas de violência.        

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 05 de abril de 2026.