Muito além do lazer, zoológicos e aquários exercem um papel essencial na conservação da fauna, na pesquisa científica e na educação ambiental. Na Paraíba, instituições como o Aquário Paraíba e o Parque Zoobotânico Arruda Câmara — a Bica —, em João Pessoa, integram uma rede de proteção e têm, entre suas frentes de atuação, a reabilitação de animais silvestres.
A aproximação entre população e biodiversidade é estratégica para a preservação. Afinal, como proteger aquilo que não se conhece? Nesse contexto, animais resgatados deixam de ser apenas indivíduos em recuperação e passam a auxiliar nas atividades de educação ambiental, ajudando a sensibilizar a sociedade sobre a importância da conservação. 
Grande parte desses animais chega a essas instituições por meio de ações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) e do Batalhão de Polícia Ambiental (BPMA). Esses órgãos atuam na linha de frente do combate aos crimes ambientais, realizando apreensões, resgates e fiscalizações, além de promover ações educativas voltadas à preservação da fauna.
Triagem
O primeiro destino da maioria dos animais são os Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), estruturas mantidas pelo Ibama. Atualmente, existem 25 unidades no Brasil. Na Paraíba, há um Cetas em Cabedelo, mantido em regime de gestão compartilhada com a Sudema, por meio de um acordo de cooperação técnica firmado em 2021.
Nesses centros, os bichos passam por uma série de etapas técnicas, que incluem identificação, avaliação clínica, tratamento e reabilitação. “Os animais são acompanhados por médicos veterinários, biólogos e demais profissionais que participam das etapas da recuperação, respeitando as peculiaridades de cada grupo e espécie”, pontua Alexandre Mendonça, chefe do centro no estado.
Segundo Leandro Silvestre, chefe da Divisão de Fauna (Difau) da Sudema, em 2024, cerca de 1.700 animais foram recebidos no Cetas. Desses, mais de 961 passaram por processos de reabilitação, sendo devolvidos à natureza ou encaminhados para instituições autorizadas, como zoológicos e criadouros legalizados. Já de 2025 até o início deste ano, aproximadamente, 645 animais foram destinados após triagem.
É a partir desse fluxo que entram atores como o Aquário Paraíba e a Bica. Contudo, é importante frisar que esses espaços não admitem bichos entregues por pessoas físicas. “A princípio, os animais devem ser enviados diretamente para o Cetas, uma vez que instituições como o Aquário e a Bica não estão autorizadas a realizar tais recebimentos diretamente pela população ou por demais instituições, sem que tenham sido triados pelo Ibama”, explica Alexandre.
Polícia
Antes de o Cetas ser acionado, o BPMA tem um papel fundamental nessa rede, executando o resgate dos bichos. “Eles estão na linha de frente, lidando com situações diversas: animais feridos, vítimas de tráfico ou em risco”, afirma o médico-veterinário da Bica, Thiago Nery.
Além disso, informações coletadas no momento do resgate ajudam a orientar o tratamento. Saber a origem do animal e as condições em que ele foi encontrado, por exemplo, faz diferença no processo de recuperação.
Comunicação com autoridades é essencial para o sucesso das ações
Na Bica, de fato, o trabalho vai muito além da exposição de animais. Segundo Thiago Nery, o espaço cumpre um papel estratégico. “A principal função do zoológico é dar um abrigo, um ambiente para esses animais que não podem voltar para a natureza, por diversos fatores — como animais amputados, com problemas comportamentais, que são dóceis demais ou até que não possuem local adequado para soltura”, detalha.
Ele ressalta que, embora a reabilitação não seja a função principal dos zoológicos, a participação nesse processo é inevitável. “A gente tem o Cetas e a Sudema, que fazem a triagem e a reabilitação como finalidade central, mas o zoológico atua como suporte. Temos várias frentes de atuação na reabilitação, desde animais idosos, acidentados ou fragilizados por sempre filhotes, por exemplo”. O médico-veterinário frisa que a troca de informações entre as entidades envolvidas é essencial para o sucesso da reabilitação, pois cada animal tem suas peculiaridades e é a soma do conhecimento de diversas instituições que garante o êxito do processo.
O perfil dos bichos recebidos na Bica varia ao longo do ano, mas Thiago destaca o papel do parque, principalmente, na reabilitação de filhotes de répteis terrestres e de preguiças, entre outras espécies. “A maioria chega aqui porque perdeu a mãe e foi vítima de atropelamentos, choques em rede elétrica ou outras ações humanas. Sem assistência, esses animais acabam não sobrevivendo”, pontua. Também são frequentes os casos de espécimes mutilados ou vítimas do tráfico ilegal.
Conforme o médico-veterinário, há, na Bica, muitos indivíduos fisicamente saudáveis, mas com problemas comportamentais. São animais que passaram tempo demais em contato com humanos e não conseguem mais retornar à natureza. Mas, apesar das dificuldades, o objetivo principal é sempre a reintrodução na natureza, como salienta Thiago. “A princípio, trabalhamos para que os animais sejam reintroduzidos. Temos recintos que não são de visitação pública, exatamente para tentar essa adaptação, para ensinar o animal a caçar, a se defender, que também é importante”.
Após essa etapa, a decisão final sobre a destinação de cada espécime cabe aos órgãos ambientais, que avaliam se o animal está apto à soltura ou se deve ser encaminhado para outra instituição.
Processo inclui terapias, controle de alimentação e tanque aquático
Assim como a Bica, o Aquário Paraíba mantém uma contribuição relevante na conservação de espécies ameaçadas. Muitos dos animais silvestres que se encontram lá foram vítimas do tráfico e de maus-tratos. Apesar do nome, o espaço — situado na Praia do Seixas — abriga atualmente, em seu anexo, diversas espécies, não apenas marinhas, embora essas sejam seu maior foco.
De acordo com o diretor do estabelecimento, Emmanuel Lopes, a maioria dos animais chegam por meio do BPMA, da Sudema ou do Ibama. Em alguns casos, vêm até de outros estados, como ocorreu com um pinguim que havia encalhado em Alagoas. Para Emmanuel, o papel principal do aquário é sócio-ambiental. “Nós não atuamos apenas no setor turístico. Trabalhamos com preservação, além da educação ambiental”.
O Centro de Reabilitação de Espécies Marinhas (Cerem), mantido no espaço, recebe, principalmente, tartarugas-marinhas. Segundo o médico-veterinário Audísio Alves, que presta consultoria ao local, os casos mais comuns estão relacionados à ingestão de lixo, especialmente plástico, além de infecções e acidentes com embarcações, o que faz com que os bichos cheguem bem debilitados. Recebidos no Cerem, eles passam por estabilização clínica, antes de um tratamento de recuperação que pode incluir o uso de antibióticos, fluidoterapia, suplementação vitamínica e controle da alimentação.
Para tratar animais marinhos é necessário um suporte específico. O Aquário Paraíba conta com grandes tanques de água salgada, coletada diretamente do mar, onde os espécimes são monitorados e estimulados a retomar comportamentos naturais. Estratégias como esconder comida ou criar obstáculos ajudam a ativar habilidades fundamentais para a sobrevivência deles na natureza. Conforme Audísio, esses desafios são essenciais para o avanço da reabilitação. “Precisamos entender se o animal consegue submergir e se alimentar sozinho. Escondemos comida no recinto, para que ele possa caçar, por exemplo”, explica o especialista.
Como descreve Audísio, o processo de reabilitação é minucioso. Para que o animal chegue ao ponto em que pode ser solto, há várias etapas a serem cumpridas e é preciso certificar-se de que ele tenha todas as condições necessárias para sobreviver na natureza, sem o auxílio de humanos. Um dos casos atualmente acompanhados pela equipe do aquário é o de uma tartaruga-marinha com atrofia nos membros anteriores, além de dificuldade de flutuação. Após tratamento intensivo, ela tem apresentado evolução positiva, evidenciando a importância do trabalho especializado.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 05 de abril de 2026.

