Muita música, tradicionalmente no ritmo do forró, aglomerações de pessoas e fogos de artifício: assim costumam ser os festejos juninos na Paraíba, num cenário repleto de estímulos sonoros, visuais e sensoriais. Muito popular e amplamente comemorada no nosso estado, a temporada do São João pode se tornar um período estressante para quem lida com condições como transtorno do espectro autista (TEA), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), deficiências intelectuais ou outras condições do neurodesenvolvimento.
Na opinião da assistente social Helena Cavalcante, mãe de João Miguel e Luís Henrique, que tem oito anos e vive com TEA, essa é uma das “maiores e mais dolorosas lutas das famílias atípicas”, especialmente na Região Nordeste. “É um assunto urgente, porque o que para muitos dura alguns segundos de festa, para uma criança autista se transforma em horas ou dias de sofrimento físico e emocional intenso”, descreve.
Para as famílias de pessoas neurodivergentes, a chegada de junho também traz uma preocupação especial com o uso dos fogos de artifício com estampido. “Muitas pessoas ainda não compreendem o real impacto disso”, aponta Helena. Segundo ela, esse é um “lado invisível do São João”, totalmente ligado ao barulho. “Neste momento, precisamos intervir naquilo que é visto apenas como uma tradição. Essa tradição pode evoluir e [as festas] podem adotar fogos sem estampido, que já são realidade”, defende.
A assistente social conta que o diagnóstico de Luís aconteceu quando o menino tinha três anos. “É um longo tempo entendendo de perto como funciona o mundo sensorial dele. Já o vi colocar as mãos nos ouvidos e dizer: ‘Mamãe, pede para papai do céu acabar com esse mundo barulhento, eu não consigo viver aqui’. O que para alguns é apenas um estalo, para ele, e para milhares de outras crianças, idosos e animais, é sinônimo de dor física real e desespero”, relata.
Isso ocorre porque muitas pessoas no espectro autista possuem hipersensibilidade auditiva. “Elas não apenas ouvem o som mais alto, mas o processam de forma dolorosa, como se o barulho estivesse explodindo dentro de suas cabeças”, detalha Helena. E o impacto não dura apenas alguns segundos. A experiência da assistente social com seu filho indica que, quando os fogos barulhentos começam, o gatilho para uma crise severa é imediato.
“Quem vê de fora não imagina o quanto essas crises desestruturam a criança. Causam choro, tremores, pânico e um esgotamento que demora horas ou até dias para passar”, comenta. De acordo com ela, o momento pós-crise exige dias de acolhimento e afeta toda a rotina e o sono da pessoa autista e da família.
A mãe de Luís e de João argumenta, ainda, que combater os fogos barulhentos não significa “acabar com a beleza do São João”. Uma alternativa consiste nos fogos de artifício visuais, que “garantem um espetáculo sem torturar ninguém”. “A verdadeira mudança começa na vizinhança, na nossa rua, e na própria consciência: antes de acender o pavio de um rojão barulhento, é importante lembrar-se de que, na casa ao lado, ou na rua de trás, pode haver uma criança chorando de dor, tapando os ouvidos em desespero, e uma mãe tentando acalmá-la”, apela.
A assistente social ressalta que as festas públicas e privadas precisam priorizar a inclusão de forma mais ativa e concreta. “O direito de festejar termina onde começa a saúde e a integridade do outro. O que desejamos é um São João que seja sinônimo de alegria para todos, sem exceção, com mais empatia e muito menos barulho”, afirma.
Mudanças e excesso de estímulos favorecem desregulação sensorial
Para o pediatra e neurologista infantil Flawber Antônio Cruz, nesse período, é fundamental levar em conta a inclusão e o acolhimento das pessoas neuroatípicas e suas famílias, já que se trata de um contexto de mudança de rotina, com novas dinâmicas tanto na família, quanto em outros espaços de convívio, como o ambiente escolar. “Quando lidamos com neuroatípicos, sobretudo os pacientes com autismo, precisamos ter alguns cuidados. É um momento em que há maior sobrecarga sensorial. Fora isso, existe a exposição a mais barulho, por conta de músicas, carros de som, apresentações de artistas e fogos de artifício”, destaca o médico.
O especialista explica que os ruídos dos fogos tendem a gerar medo excessivo e forte carga de tensão, principalmente por causa da hipersensibilidade auditiva. O resultado mais comum é a desregulação emocional da criança, que pode apresentar maior irritabilidade, culminando até mesmo em respostas agressivas. “Em alguns casos de crianças que, além do autismo, têm também epilepsia, isso pode chegar a agravar o quadro, com crises convulsivas”, acrescenta.
Flawber ressalta que outra característica desse período de festejos é a maior circulação de pessoas nos ambientes e nas próprias casas. É comum a realização de visitas a amigos e familiares, a intensificação do trânsito mais intenso e uma grande concentração de brincantes em locais de comemoração. “Essas aglomerações podem gerar desregulação sensorial de medo, sensação de pânico e de que a criança ou adolescente está sob ameaça”, aponta o pediatra.
Cuidado e prevenção são fundamentais para evitar crises
“É importante lembrar de todos esses fatores, não para causar susto ou para inibir as pessoas que têm familiares com autismo de frequentar os festejos juninos”, afirma Flawber Cruz. Nas palavras do profissional de saúde, o objetivo é, sabendo dessa problemática e dos possíveis gatilhos para desregulação sensorial e emocional, falar em prevenção.
O primeiro passo é sempre orientar bem a criança. “Conversar, explicar o que vai ocorrer naquele passeio que a família vai fazer a um ambiente de festejo, um ambiente de família, ou na própria comemoração na escola. [Dizer] o que se espera da criança, o que se espera encontrar lá, em termos de barulho, movimentações e entusiasmo das pessoas”, recomenda o médico.
Flawber aponta que, no caso de quem lida com o autismo, há uma necessidade de previsibilidade nas rotinas. “Quando algo é feito sem que a criança tome conhecimento antes, há uma tendência maior de que a situação cause medo, sensação de ansiedade, e consequentemente irritabilidade ou agressividade. Mas explicando, a criança passa a entender um pouco melhor”, pondera.
Outra medida que pode ajudar é a redução do tempo de exposição a esses momentos. Em vez de passar muitas horas, é possível combinar de ficar um período mais curto, explicando à criança quando inicia e quando termina.
Para as crianças com hipersensibilidade auditiva, uma precaução importante é ter sempre ao alcance um protetor auricular, que pode ser levado na bolsa ou na mochila. “O protetor auricular reduz o impacto do barulho sobre os ouvidos e, consequentemente, promove a sensação de conforto, evitando uma desregulação mais severa”, informa Flawber.
Recuperação
Caso ocorra uma crise de desregulação emocional e/ou sensorial — em que a criança chora, grita e irrita-se de forma intensa, podendo até tornar-se agressiva —, em um ambiente onde há aglomeração de pessoas, é fundamental que haja espaço para que os pais cheguem até o filho e o acolham, retirando-o imediatamente daquele local onde a crise foi gerada. Segundo o médico, é importante buscar um lugar mais calmo: pode ser uma sala sensorial, que algumas localidades já disponibilizam, ou mesmo um ambiente distante daquele onde a criança estava.
O médico reforça, ainda, que algumas dessas crises, se não corretamente tratadas ou abordadas, podem gerar episódios convulsivos. “Caso os pais não consigam conter a criança ou ela evolua para uma crise convulsiva ou um quadro mais grave, é preciso acionar o sistema de saúde do evento. Seja na escola, ou nos ambientes de festividade, deve-se procurar o atendimento médico de urgência. Mas isso, na maioria das vezes, não é necessário, uma vez que os próprios pais já têm um conhecimento de como abordar a criança e desfazer aquele gatilho sensorial”, afirma Flawber.
Compromisso coletivo
O médico ressalta que, muito além da necessidade de inclusão e acolhimento, deve ser preocupação de toda a sociedade ter consciência em relação às medidas-padrão para garantir mais segurança e tranquilidade às famílias atípicas nos festejos juninos. “A gente não pode exigir só da família. Ao ver uma criança ou adolescente com a sua identificação de autismo, que se mostra perturbado em um ambiente público mais barulhento, por conta de um festejo junino, é preciso que toda a sociedade esteja sensível e possa ajudar aquela família da melhor forma, a partir dessas medidas”, defende.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de junho de 2026.
