Notícias

identidade e pertencimento

Gírias marcam vida social dos jovens

publicado: 15/06/2026 09h24, última modificação: 15/06/2026 09h24
Novas gerações vivenciam a ascensão veloz de expressões próprias; pais e professores podem dialogar com o cenário
2026_girias entre jovens © Roberto Guedes (85).JPG

Os amigos Byanca, Manoel e Gabrielle conectam-se por meio da adoção de termos em comum | Foto: Roberto Guedes

por Emerson da Cunha*

De onde vêm as gírias? Como elas passam a fazer parte das nossas vidas? E, em especial, o que elas podem significar para as novas gerações? Imersas nas redes sociais e na ambiência digital, as gerações Z (pessoas que nasceram de 1995 a 2010) e Alfa (nascidos a partir de 2011) — consideradas “nativas digitais” — falam de um modo que muita gente mais velha não consegue entender. Gírias como “fiquei gag de la gag”, “Fulana ‘serviu’ demais” e “a festa ‘flopou’” misturam palavras que fazem parte da língua portuguesa, com novos significados, e termos ingleses aportuguesados, no sentido de gerar um senso de pertencimento entre os grupos de jovens e adolescentes.

É essa sensação que agrega Pedro Cunha, de 12 anos, e seus amigos da escola, que fazem parte da geração Alfa. Entre as expressões partilhadas, estão “‘farmar’ aura”, “six seven”, “não peidas”, “perder a linha” e “tu não faz merda”. “É só brincadeira, não significa nada, não”, coloca o adolescente. “Elas aparecem nos vídeos que eu vejo e entre meus amigos. Com eles, eu posso ter mais liberdade, falar mais coisas e, com as outras pessoas, não, porque pode ser que elas não gostem. Com meus amigos, já sei se eles vão gostar ou não”.

As “outras pessoas” são amigos mais distantes, professores e desconhecidos. Segundo Pedro, as gírias o fazem sentir-se parte do grupo. Ainda sobre a utilização dos vocábulos, ele acrescenta que seu uso pode se estender, mas alerta para o risco de soar indevido, quando se torna “chatro” e “perdem a graça”.

As gírias também apresentam o tipo de identidade que agrega três jovens bem distintos da geração Z: Manoel Ernesto, de 19 anos, Byanca Hellen, de 25, e Gabrielle Paz, de 30. Apesar da diferença de quase 10 anos,  entre o mais jovem e a mais velha, eles se encontram por meio da adoção de termos em comum, que partem principalmente dos memes da internet.

“O meu uso de gírias começa com as redes sociais, principalmente Twitter e Instagram. Porque, querendo ou não, lá tem uma cultura própria”, observa Byanca. “A gente não vai ver essa mesma cultura no dia a dia, por exemplo, nas ruas ou no trabalho — se for [um ambiente] mais sério”. Aqui, vale a questão da espontaneidade: gíria não acontece de modo forçado. “Surge em conversas com amigos, assim, de forma mais natural. Não é que a gente pense: “Ah, vou usar tal gíria”, coloca Manoel.

Entre as gírias, algumas têm marcado — pelo menos, por ora — a geração. Como apontam os jovens, são elas “gag”, “juro”,  “vem aí”, “plot” e “fomo”, entre outras. Por outro lado, outras já perderam relevância, a exemplo de “estou bege”, “estou ‘rosa choque’”, “lacrou”, “sambou na cara” e “beijinho no ombro”.

Byanca reflete: “Não dá para explicar a gíria. Então, se você não souber o contexto inicial, você não consegue encaixá-la no contexto ideal de outra conversa. E o pessoal que, por exemplo, não acompanha o Instagram, começa a utilizar [as expressões] desenfreadamente, e você fica: ‘Meu Deus, perdi minha gíria. Agora, vou ter que usar outra’”.

Marcas linguísticas

Para Isaac Barbosa, professor de Língua Portuguesa e Redação da rede pública do estado, os grupos sociais buscam marcas linguísticas específicas para se identificar. “Considerando que o humano é um ser social, que busca pertencer a grupos e tende a se desenvolver mais quando se insere em um deles, é possível afirmar que as gírias podem contribuir para o crescimento, a partir do momento em que você se conecta com um grupo, interage e troca experiências”, analisa o especialista.

A relação entre gírias e a juventude não é algo arbitrário, como salienta o professor André Souza, mestre em Linguística pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “Entre os jovens, as gírias sempre ficam muito presentes, porque a gente está falando de um contexto muito associado à informalidade — elas têm um aspecto despojado, descolado. Os jovens acabam tanto mais suscetíveis ao uso quanto à criação desse fenômeno. E, como a gíria também está bastante associada a grupos sociais, esses são dois elementos que contribuem fortemente para ela estar entre os jovens”, explica André.

Por outro lado, para a professora do Departamento de Língua Portuguesa e Linguística da UFPB, Leonor Santos, a identificação entre a juventude, por meio de gírias, opera da mesma forma como acontece com os demais grupos falantes. “As expressões são criadas de várias formas, todas já conhecidas antes: vêm de outras línguas, de piadas internas ao grupo, de modificações a partir do que já existia. Talvez, a diferença esteja na rapidez e no alcance da circulação dessas palavras. No fim dos anos 1990, começamos a ter mais acesso à internet, e isso acelerou o processo”.

Escola e família

“Os jovens de hoje em dia têm uma dificuldade muito grande de ler, escrever, querer pensar”, pontua a neuropsicopedagoga Patrícia Vasconcelos. “Além do acesso fácil à internet, a gente atribui esse fenômeno à inteligência artificial — que, muitas vezes, traz coisas prontas, diferentemente do que acontecia em outras épocas, nas quais nós tínhamos que ler um livro para chegar a uma conclusão”, coloca.

A especialista alerta para o impacto que esse e outros fatores da nova cultura digital podem exercer sobre o amadurecimento dos jovens, como a dificuldade de atenção e de concentração e a baixa tolerância para textos e linguagens mais formais. Nesse sentido, a atuação dos pais e das escolas são de fundamental importância. Para Isaac Barbosa, cabe à escola fazer que os adolescentes “tenham contato com as diversas situações e capacidades linguísticas, o que inclui gírias e dialetos”.

No caso da família, Patrícia aposta na prática constante do diálogo “que esclareça, mas que também possa permitir aos jovens um enriquecimento em seu vocabulário, por meio da participação em atividades artísticas e culturais, por exemplo, para eles entenderem que há formas diferentes de se expressar”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de junho de 2026.