O consumo de alimentos ultraprocessados, o sedentarismo, a predisposição genética e até fatores emocionais, como estresse e ansiedade, são apontados como algumas das causas que contribuem para o aumento dos casos de obesidade. Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), de 2020 a 2024, a estimativa de prevalência da doença passou de 21,7% para 25,7% da população adulta. Os números são provenientes do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), que monitora anualmente a população adulta (a partir de 18 anos) residente nas capitais brasileiras. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (SES-PB), a prevalência de excesso de peso na população adulta paraibana subiu 4,05 pontos percentuais (p.p.) em quatro anos, indo de 65,66%, em 2020, para 69,71%, em 2024 — sendo 35,49% com sobrepeso e 34,22% com algum grau de obesidade. Os dados baseiam-se em informações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan).
Quanto ao perfil da população, os dados do MS indicam aumento da obesidade em ambos os sexos, com maior prevalência entre mulheres, além de crescimento em todas as faixas etárias e níveis de escolaridade, com destaque para adultos de 25 a 44 anos e indivíduos com Ensino Médio completo. A SES-PB ressalta que o volume crescente de indivíduos com excesso de peso gera pressão sobre os serviços de saúde, elevando a demanda por intervenções metabólicas complexas e onerosas.
Além disso, a obesidade é o fator de risco modificável central para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) letais. Entre elas, as mais predominantes no estado, de 2020 a 2024, são: doenças cardiovasculares, neoplasias, diabetes e doenças respiratórias crônicas. Essas DCNTs representam 2,41% dos 3,07% de aumento na taxa de mortalidade prematura (ocorrida em pacientes de 30 a 69 anos), passando de 586, em 2020, para 604, em 2024. Nesse cenário, a maioria dos óbitos foi de pessoas do sexo masculino, representando 58,44% somente em 2024. Em relação à faixa etária, de forma geral, as DCNTs acometem sobretudo a população com 70 anos ou mais (aproximadamente 60,55% em 2024).
A SES-PB ainda destaca o salto de 153% na cobertura da vigilância acerca do problema. O número de adultos avaliados saltou de aproximadamente 250 mil, em 2020, para mais de 635 mil, em 2025. Essa ampliação da capacidade de monitoramento, segundo a secretaria, reduz significativamente a margem de subnotificação, confirmando que as altas taxas de obesidade — especialmente a de grau 1, que ultrapassou a marca de 23% em 2025 — são um reflexo fiel e alarmante da realidade populacional do estado.
Doença crônica
O médico endocrinologista Lucas Almeida explica que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante. “Ela é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura no corpo, sendo capaz de causar prejuízo à saúde. Na prática, a definição clássica que a gente tem é quando o índice de massa corporal, que é o IMC, é maior ou igual a 30, e aí definiria a obesidade”, afirma.
Porém, ele ressalta que, atualmente, o consenso é que essa avaliação também deve considerar a distribuição de gordura no corpo e a presença de complicações associadas. “Então, eventualmente, mesmo que o paciente não atinja esse ponto de corte de 30 do IMC, se ele tiver um aumento na gordura corporal, seja avaliada por bioimpedância ou por densitometria de avaliação corpórea, e esse aumento estiver associado a algumas complicações, então ele pode também ter o diagnóstico de obesidade”, orienta. O contrário também pode ocorrer: pacientes com IMC acima de 30, mas que possuem mais músculos e baixo percentual de gordura, não podem ser considerados obesos apenas por esse índice.
Lucas frisa também que, hoje, a obesidade está associada a mais de 200 doenças, o que traz um grande impacto para a área de saúde. “As principais são a diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, como infarto e AVC [acidente vascular cerebral], apneia do sono, a esteatose hepática — gordura no fígado —, problemas articulares e até alguns tipos de câncer. Então são diversas doenças associadas, para as quais a obesidade é um fator de risco ou agravante”, afirma. Além disso, o problema pode reduzir a qualidade e expectativa de vida.
O endocrinologista aponta, ainda, que, nas últimas décadas, a obesidade tem crescido de forma expressiva, sendo considerada, hoje, um dos maiores problemas de saúde pública. “Alguns fatores contribuem para esse cenário atual, como a facilidade de acesso à alimentação ultraprocessada — por exemplo, hambúrguer, pizza, salgadinho e miojo. Esse tipo de alimentação tem um custo mais baixo e uma oferta enorme. O sedentarismo também contribui muito, e até fatores genéticos e hormonais podem influenciar nisso”, destaca. Para o médico, a tendência é que a prevalência da doença continue aumentando nos próximos anos. Nesse cenário, a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são essenciais para reduzir os índices de casos de obesidade.
Estilo de vida
Em relação ao tratamento, o médico enfatiza que seu pilar principal é a mudança do estilo de vida. “Isso envolve alimentação adequada, de preferência acompanhada por um nutricionista; uma rotina de atividade física, tanto com exercício aeróbico quanto com exercício de força, principalmente a musculação; e até um sono adequado”, orienta.
Em alguns casos, o uso de medicamentos também é indicado. Para isso, a recomendação, via de regra, é dada aos pacientes que têm um IMC acima de 30, considerada um obesidade documentada, ou então um IMC maior ou igual a 27, correspondente ao sobrepeso, mas desde que haja alguma doença associada, como hipertensão, apneia do sono, diabetes e outras.
Entre as medicações, o Mounjaro, que é a mais moderna e mais potente das substâncias aprovadas no Brasil, é considerado uma opção muito eficaz, não só quanto ao emagrecimento e controle do peso, mas também com relação a diabetes, esteatose hepática e apneia do sono. O médico explica que a substância também serve como fator de proteção cardiovascular para aqueles que têm risco elevado de problemas no coração. Contudo, é importante ressaltar que seu uso deve se dar apenas com prescrição e orientação médica.
“E, em alguns casos selecionados, também tem paciente que vai se beneficiar da cirurgia bariátrica. Serão casos de pacientes com obesidades mais avançadas, obesidade grau 3, ou obesidade grau 2, associada a alguma comorbidade, e que já tiveram uma tentativa prévia de tratamento não cirúrgico e que não teve uma resposta adequada”, conclui o endocrinologista.
Artista mudou hábitos para manter-se na ativa
O ator e diretor teatral Alexandre Fialho, de 62 anos, é um dos paraibanos que convive com o excesso de peso. Ele conta que sempre foi uma pessoa gorda e que, em seu círculo familiar, também há muitos parentes com obesidade e outros problemas de saúde. Hipertenso e diabético, o artista descobriu essas duas condições por acaso, devido a um acidente que sofreu durante uma de suas apresentações. “Eu passei mal, tive uma síncope, mas, mesmo assim, continuei o espetáculo, e ainda tive a infelicidade de pisar em um prego e machucar o pé. Só depois da peça, chegando ao hospital, descobriram que eu tinha diabetes há mais de 13 anos”, afirma.
A partir desse processo, o artista também chegou ao diagnóstico da doença de Charcot-Marie-Tooth, uma complicação grave e degenerativa que afeta ossos e articulações, especialmente dos pés. Por causa do seu traballho, Alexandre viajava muito e, nos hotéis, alimentava-se de forma desregrada, o que, segundo ele, também contribuiu para o quadro.
Após descobrir esses problemas, há cerca de oito anos, ele passou a fazer tratamentos e a ter um maior acompanhamento médico. Porém, devido ao agravamento do ferimento e à ação de uma bactéria que contraiu em ambiente hospitalar, precisou amputar o pé esquerdo, passando a usar a cadeira de rodas. Com isso, o problema de excesso de peso agravou-se ainda mais. Ainda assim, ele seguiu nos palcos.
Para que isso fosse possível, Alexandre passou a olhar com mais atenção para sua saúde. Se, antes, chegou a pesar mais de 130 kg e, em meados do ano passado, precisou passar por um procedimento cardíaco, agora, a situação está diferente. “Hoje eu tomo Ozempic [caneta emagrecedora] e já perdi mais de 20 kg. Também estou fazendo educação física, pilates, fisioterapia, me movimentando, e tudo isso está proporcionando que eu ainda esteja em atividade”, destaca.
Alexandre também conta que tem dificuldade em manter uma dieta restritiva, mas que está buscando mudar os hábitos. “Tem a questão da minha indisciplina, mas fui tendo mais consciência. Estou também com retinopatia diabética, o que afeta bastante a minha visão, mas já fiz a cirurgia e estou bem melhor. E tudo isso tem a ver com a questão da alimentação”, ressalta.
Quanto à autoestima, ele revela que, por mais que estivesse acostumado com seu corpo gordo, o emagrecimento deixou-o mais confiante e mais disposto para executar suas atividades. “Fiquei mais leve, mais bonito, com mais energia, e estou me sentindo muito bem, inclusive como ator, para adentrar a cena mais seguro de mim. A questão da [conscientização sobre a] obesidade é importante para você correr atrás de dieta, exercícios e se cuidar”, pontua.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de abril de 2026.
