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câncer infantojuventil

Casos quadruplicaram em 10 anos

publicado: 19/10/2026 11h57, última modificação: 19/10/2026 11h57
Registros na Paraíba passaram de 92, em 2015, para 376, em 2025; alta revela ampliação do acesso a diagnósticos

por Camila Monteiro*

Dores de cabeça, vômitos, fraqueza, dores ósseas, alterações motoras ou de comportamento são alguns dos sintomas que podem estar associados ao câncer na infância e na adolescência. A doença engloba diferentes tipos de tumor diagnosticados na faixa de zero a 19 anos. Para 2026, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 180 novos casos de câncer infantojuvenil na Paraíba. Já em 2025, segundo o Painel de Oncologia do Brasil do Ministério da Saúde (MS), foram registrados 376 novos diagnósticos de câncer em crianças e adolescentes no estado, representando um número quatro vezes maior do que o encontrado em 2015, quando houve 92 ocorrências.

O crescimento dos registros, contudo, não significa necessariamente que mais crianças e adolescentes estejam desenvolvendo a doença, conforme explica a oncologista pediátrica Virgínia Brandão. “Também houve avanços no diagnóstico, no acesso aos serviços especializados e no registro de casos. Hoje, buscamos cada vez mais o diagnóstico precoce, por meio do reconhecimento dos sinais de alerta”, comenta

A especialista recomenda que os pais fiquem atentos, sobretudo, a sinais persistentes ou que fogem do padrão habitual da criança, como febre prolongada ou sem causa definida, palidez, cansaço, perda de peso, dores ósseas, sangramentos, aumento de gânglios, dor de cabeça persistente, vômitos recorrentes, alterações da visão e aumento do volume abdominal. Segundo Virgínia, é importante destacar que esses sintomas são comuns em diversas doenças e não significam, isoladamente, que a criança ou o adolescente tenham câncer. “O mais importante é observar a persistência ou recorrência e procurar avaliação médica”, orienta.

Aos quatro anos de idade, Joedson Lucindo apresentou fortes dores nas pernas e nas articulações, que o impediam de dormir e até de comer. Sua mãe, Viviana Lucindo, levou- -o até o hospital, onde ficou internado em busca de um diagnóstico. As suspeitas iniciais eram de febre reumática ou hepatite. “Passamos oito dias com ele internado, fazendo as investigações”, relatou a mãe

A família foi encaminhada para o Hospital Napoleão Laureano para realizar um mielograma, como é chamado o exame da medula óssea. Foi por meio desse procedimento que veio o diagnóstico: leucemia aguda linfoblástica (LLA), o câncer mais comum em crianças, que afeta os glóbulos brancos, as células de defesa do organismo. “Logo quando eu soube, chorei tudo que tinha para chorar. No começo, era tudo novo para mim. Após o começo do tratamento, Joedson teve uma convulsão, perdeu a visão e ficou em coma. Eu pensei que ele ia morrer”, contou Viviana.

Além das leucemias, outros tipos de câncer mais frequentes em crianças e adolescentes são os linfomas, que afetam o sistema linfático; os tumores do sistema nervoso central; e os tumores cerebrais. A oncologista também cita o neuroblastoma, que atinge células do sistema nervoso periférico e ocorre frequentemente no abdômen; o tumor de Wilms, ou nefroblastoma, que acomete os rins; o retinoblastoma, que ocorre na retina; e tumores ósseos.

Virgínia explica que, diferentemente do que ocorre com muitos cânceres em adultos, a maioria dos casos infantojuvenis não está relacionada a hábitos de vida. “Em uma pequena parcela dos casos, existem alterações genéticas que aumentam a predisposição para determinados tumores. Por isso, não existe uma forma de prevenir a maioria desses cânceres. O mais importante é manter o acompanhamento pediátrico, reconhecer sinais de alerta e garantir diagnóstico e tratamento especializados precocemente”, aponta.

A descoberta antecipada e o tratamento adequado, inclusive, têm melhorado bastante o prognóstico da doença nas últimas décadas. “Atualmente, cerca de 80% das crianças e adolescentes com câncer podem ser curados quando o diagnóstico é precoce e o tratamento é realizado adequadamente em centros especializados”, informa a especialista.

Esse dado, contudo, pode variar de acordo com o tipo e as características do tumor, o estágio da doença e a resposta ao tratamento. Porém, o diagnóstico precoce ainda é uma das melhores formas de um prognóstico positivo. “Falar em câncer infantil não significa falar necessariamente em uma doença sem possibilidade de cura. Muitas crianças são curadas e seguem suas vidas após o tratamento”, ressalta Virgínia. Ainda segundo a oncologista, o objetivo do tratamento é cuidar da criança de forma integral, controlando sintomas, acompanhando o crescimento e desenvolvimento, tratando da saúde emocional e apoiando também a família, “sempre buscando preservar a qualidade de vida”.

Foi o que aconteceu com Joedson. Atualmente com sete anos, ele continua em tratamento, mas sua rotina mudou. “Hoje em dia, meu filho está bem, voltou a enxergar, está indo para a escola. Antigamente eu passava mais tempo aqui [no hospital] do que em casa. A gente vem para o tratamento toda segunda-feira, mas na segunda mesmo voltamos para Sapé, onde moramos, para ele assistir aula”, pontuou Viviana.

Associação presta apoio a pacientes e familiares na capital

Para muitas famílias que residem em outras cidades do estado, ter um apoio enquanto passam pelo tratamento na capital é fundamental. A Associação Donos do Amanhã, localizada no bairro de Jaguaribe, em frente ao Hospital Napoleão Laureano, funciona como um local de suporte, garantindo um espaço de descanso e fornecendo refeições para os pacientes e parentes

“Qualquer pessoa pode vir. Mas fazemos um cadastro com alguns critérios, como que a família tenha renda de até um salário mínimo, que já tenha diagnóstico confirmado, que realize o tratamento exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde [SUS], para participar efetivamente dos nossos projetos”, explica Dayana Monteiro, supervisora na instituição.

Para quem tem o cadastro, a associação fornece cestas básicas, leite, suplemento alimentar, fraldas, além de kits de materiais de higiene para as famílias. “Temos três tipos de cestas, de acordo com a faixa etária: tem para lactentes, para crianças e para adolescentes. Além disso, todas as nossas crianças recebem cinco latas de leite e três de suplementos alimentares”, detalha a supervisora.

A instituição custeia, ainda, exames de alta complexidade, compra de medicamentos prescritos pelos médicos e aquisição de cadeiras de roda. “Infelizmente, alguns exames demoram bastante para ser liberados, e temos a preocupação com o diagnóstico precoce. Então, muitas vezes custeamos alguns desses exames”, ressalva Dayana.

Tudo isso é possível graças ao apoio da sociedade. “Funcionamos única e exclusivamente a partir de doações. Recebemos uma emenda parlamentar ou outra, mas para o projeto específico que enviamos. Vivemos 100% da ajuda da população”, esclarece Dayana.

Outra vertente do projeto é a construção de casas para as famílias. Uma das beneficiárias foi Viviana Lucindo, mãe de Joedson. Neste ano, outra residência foi entregue em Itaporanga, e a segunda será concluída em Patos.

“O melhor de tudo que já recebi foi a minha casa. Fez um ano, em setembro, que eu recebi. Não tem aquela história de que alguns males vêm para o bem? Foi muita dor, muito sofrimento, mas hoje temos a nossa casinha”, celebrou Viviana.

Para as famílias que estão na trajetória de buscar o diagnóstico ou que o receberam recentemente, a mãe de Joedson deixa um recado: “Não percam a fé, cada caso é um caso. No começo, não é fácil. A família inteira fica abalada, com medo. Mas, quando você menos esperar, tudo isso vai passar.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de outubro de 2026.