Existe muito mais do que calor e aridez no Sertão. A cidade de Patos, um dos destinos que integram o Mapa do Turismo Brasileiro, desenvolvido pelo Ministério do Turismo (MTur), é conhecida como a “capital do ecoturismo sertanejo”, reunindo a prática de diversas modalidades esportivas na natureza. Escalada, rapel, trilhas, ciclismo, canoagem, entre outras atividades, podem ser desfrutadas no município — todas com acesso facilitado e próximas da Zona Urbana.
O clima cálido, as planícies a perder de vista, a vegetação resistente e o relevo peculiar desenham paisagens que vivem uma dualidade: no período da estiagem, cenários cinzas terrosos; no inverno, vibrantes tons de verde-renascimento. Esse é o ambiente ideal para ser explorado e contemplado pelos adeptos do ecoturismo e da aventura.
O bioma da Caatinga — exclusivamente brasileiro — e a predominância dos inselbergues — imponentes formações rochosas, que formam paredões em meio às superfícies planas — enaltecem ainda mais esse potencial. “Patos está situada na Depressão Sertaneja, é rodeada de serras e uma das maiores concentrações de inselbergues do estado. Aqui, há cerca de 10 setores de [turismo de] aventura que já foram desenvolvidos por praticantes locais e condutores”, afirmou Túlio Xavier, gerente de Turismo da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes (Seculte).
De fato, o município possui cerca de 100 vias de escalada, rapel e trilhas já percorridas e catalogadas, em níveis diferentes de dificuldade. Ao permitir que públicos variados possam praticar as atividades, essa diversidade local tem atraído visitantes de outras regiões, que veem em Patos um lugar para viver a adrenalina e o contato com a natureza.
Esses turistas fazem girar uma rede produtiva que engloba hotelaria, restaurantes, mobilidade urbana, comércio de bens e serviços. A cidade tem mais de 250 empresas com registro no Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur), sistema do MTur que legaliza a atuação de profissionais de diferentes atividades vinculadas ao segmento.
“A gente recebe pessoas de cidades próximas, como Sousa e Cajazeiras, e de estados vizinhos, que fazem esses passeios, com o interesse de se aventurar e conhecer a região como um todo”, relatou Túlio, que também atua como condutor de grupos de turistas, atividade essencial para garantir a segurança em ambientes de risco.
Há, ainda, um público que não é nativo da região, mas busca a prática esportiva como uma forma de conectar-se ao meio ambiente. É o caso da professora Maíra Rodrigues, de 45 anos. Natural de Minas Gerais, ela veio morar em Patos, há 11 anos, e encontrou no ecoturismo uma forma de apropriar-se do seu novo hábitat. Quando não está entre alunos e números, a mineira busca paz e tranquilidade na natureza. “Com o ecoturismo, consigo conhecer mais desse bioma tão rico — as árvores, os animais... E gosto de esportes na natureza. É uma maneira de sair de ambientes fechados, me exercitar e ter contato com a Caatinga”.
Diversidade de roteiros contempla público amplo
Entre os inselbergues presentes em Patos, o Serrote do Espinho Branco destaca-se como um dos mais importantes em todo o Nordeste, como apontou Vital Lins, professor de Geografia. “O Espinho Branco é um importante elemento da nossa paisagem. Ele é visível em todo o município e recebe muitos visitantes”.
Com 492 m de altura, o paredão natural situa-se a cerca de 5 km da cidade, na região da comunidade Mocambo. Para chegar ao topo, há diferentes trilhas disponíveis, com graus de dificuldade moderado a alto. A inclinação da pedra, com trechos mais íngremes, torna a aventura mais desafiadora. Em alguns roteiros oferecidos no local, são utilizadas trilhas diferentes na subida e na descida, permitindo que os turistas contemplem pontos variados da paisagem. Segundo Túlio Xavier, o Espinho Branco é o serrote com a maior quantidade de vias de escalada, de rapel e de trilhas da área, além de receber adeptos dos saltos de parapente.
Já o Serrote Mocambo oferece uma escalada mais acessível, possibilitando a visitação de um público mais amplo. O ponto turístico fica a cerca de 8 km de Patos e possui a maior via de rapel da cidade, com cerca de 120 m de extensão. “É um local muito interessante, tem uma geologia exuberante e uma trilha ecológica muito rica”, destacou o representante da Seculte. O Setor Lajedos, por sua vez, é considerado um campo-escola para quem busca um contato inicial com as práticas de escalada ou rapel. As rochas estão a apenas 2 km da Zona Urbana, com uma altura de 20 m e 11 vias de escalada. Por isso, o lugar é visto como um ponto de treinamento, onde há o repasse de orientações e técnicas para os aventureiros de primeira viagem.
Patos também apresenta outros roteiros turísticos para quem gosta de apreciar a natureza das alturas, incluindo a Pedra do Bosque, a Serra do Pedro, o Setor Caverninha e o Serrote Trapiá — locais onde, além das paisagens, surpresas podem se revelar: a depender do horário da visita, é possível contemplar as cores do amanhecer, o fascínio do pôr do sol ou o nascer do luar sertanejo.
Outras modalidades
Quem prefere esportes aquáticos também encontra opções em Patos. No Açude do Jatobá, um dos principais mananciais que abastecem a cidade, pode-se praticar a canoagem. A remada em caiaques possibilita uma forma diferente de apreciar a natureza local, unindo atividade física e contemplação, a poucos minutos do Centro de Patos. A Barragem da Farinha é mais um lugar apto para banhos e atividades náuticas, assim como o Rio da Cruz e o Riacho Pilões — os quais retomam suas águas no período chuvoso, quando surgem, ainda, cachoeiras temporárias em áreas próximas.
A Rota das Itatiungas — ou Rota do Bioma da Caatinga — é para quem gosta de pedalar. O percurso permite circundar todo o território de Patos através de trilhas, fruto de uma cooperação entre a gestão municipal e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que mobiliza uma rede de parceiros para fortalecer o empreendedorismo, a partir da valorização da natureza, da cultura e da culinária regional. O roteiro também inclui uma visita ao Museu de Solos da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), finalizando com uma experiência gastronômica no restaurante rural Maravalha Sertão.
Essas tantas experiências atraíram o estudante Josiel Vieira. Vindo de Santa Catarina para cursar Odontologia no campus patoense da UFCG, ele encontrou no ecoturismo uma forma de se reconectar com sua infância. “Desde criança, eu já gostava de subir em árvore e tomar banho de cachoeira. Quando cheguei em Patos, procurei algo relacionado a isso para fazer, e foi assim que conheci vários lugares. Já fiz quase todas as trilhas”, revelou o estudante, apontando que começou a construir laços a partir de suas aventuras. “As pessoas que participam desse tipo de atividade sempre têm uma good vibe, sabe? São bem interessantes de conhecer”.
Educação sobre o ambiente faz parte do pacote
Explorar, conhecer e contemplar a natureza só é possível se a convivência com o meio ambiente for sadia. Por isso, em Patos, todos os passeios são acompanhados de orientações sobre educação ambiental, preservação da Caatinga e respeito à flora e à fauna. “A conscientização já é intrínseca ao ecoturismo. A gente busca provocar o mínimo de impacto possível [na natureza]. O respeito e a valorização desses ambientes já são um caminho para manter os locais conservados”, ressaltou Túlio Xavier.
Durante as atividades, os turistas são orientados a não retirar espécies de plantas ou animais de seu lugar natural e não pichar ou demarcar pedras ou lajedos. Os visitantes também são convocados a fazer um trabalho de limpeza nos pontos turísticos, recolhendo os resíduos identificados no caminho. “A gente encontra muito lixo, infelizmente. Mas, para ajudar o meio ambiente, nós o recolhemos. Além de não deixar nosso lixo, a gente retira dos locais o lixo de outras pessoas, que não se preocupam com a causa ambiental”, explicou Josiel Vieira.
Essa convivência sustentável permite a preservação do solo, das espécies nativas, dos bichos e dos mananciais em Patos, dando a outros visitantes a oportunidade de também conhecer as belezas naturais do Sertão da Paraíba. “Não é terapia, mas é terapêutico”, cravou a professora Maíra Rodrigues.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de outubro de 2026.