A presença de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) é cada vez mais comum em escolas públicas e privadas em consonância com o crescimento dos diagnósticos da condição. Nesse contexto, o preparo dos profissionais e do ambiente escolar é fundamental, tanto para a inclusão dessas crianças quanto para lhes garantir, o direito à educação, assegurado pela Constituição Federal.
De acordo com a Secretaria de Estado da Educação, atualmente há 1.661 estudantes com laudos de TEA nas escolas da rede estadual paraibana. É importante destacar que a Educação Infantil e o Ensino Fundamental são de responsabilidade dos municípios e, por isso, a tendência é de números maiores quando acrescentadas essas outras etapas da Educação Básica.
“Atualmente, observa-se um crescimento exponencial do número de estudantes com necessidades específicas atendidos tanto em escolas públicas quanto privadas. Diante desse cenário, torna-se essencial que haja formação continuada dos profissionais envolvidos no processo educacional. Além disso, é necessária a construção coletiva, não apenas do Plano Educacional Individualizado (PEI), mas também de um diálogo constante entre família, escola e profissionais responsáveis pelas terapias adequadas”, afirmou a neuropsicopedagoga Patricia Vasconcelos.
Para a especialista, um dos maiores desafios para a inclusão dos neurodivergentes é, justamente, a falta de conhecimento sobre o tema. “O transtorno do espectro autista representa um universo plural e, ao mesmo tempo, singular. Embora existam características comuns entre as pessoas dentro do espectro, é fundamental reconhecer que cada indivíduo possui suas próprias particularidades e sua própria personalidade. Dessa forma, as estratégias de ensino e as abordagens pedagógicas precisam ser individualizadas, considerando as necessidades e potencialidades de cada estudante. Para que a inclusão aconteça de forma efetiva nos espaços acadêmicos e sociais, é fundamental considerar diferentes dimensões da acessibilidade, como a programática, atitudinal, metodológica, instrumental, comunicacional e digital”, avaliou.
Além da educação formal, Patrícia destacou a importância das terapias como ferramentas essenciais para o desenvolvimento e estímulo de habilidades. Segundo ela, esses acompanhamentos podem trabalhar aspectos como atenção, concentração e redução da rigidez cognitiva, além de incluir modelos vocais, quando necessário.
As intervenções também contribuem para o desenvolvimento de habilidades motoras e para o alinhamento emocional, favorecendo a autorregulação por meio do controle de impulsos. Entre os ganhos, estão ainda a capacidade de lidar com frustrações, esperar a própria vez e manter o foco nas atividades, entre outros aspectos importantes para o desenvolvimento global. “A comunicação e parceria entre terapias adequadas, escola e família é de profunda importância, para que as crianças se desenvolvam não tão somente saudáveis, mas, também felizes”, esclareceu.
Carência de cuidadores dificulta o acesso de crianças neurodivergentes
A presidente da Associação Integrada de Mães de Autistas (A-ima), Elaine Araújo — que também é psicóloga e mãe atípica — relatou que as dificuldades enfrentadas pelas famílias começam já no processo de matrícula escolar. Segundo ela, embora haja vagas disponíveis, a situação muda quando se informa que a criança é autista. “Quando matriculamos, pessoas da escola dizem que avisarão quando conseguirem um cuidador, que muitas vezes não chega. As aulas começam e a criança não pode estudar por falta desse profissional”, afirmou. Elaine também destacou que, mesmo quando há cuidadores, nem sempre eles estão devidamente preparados para atender às necessidades das crianças, o que compromete o processo de inclusão escolar, ressaltando que o problema existe tanto em escolas públicas quanto privadas.
“Muitas mães chegam para mim, até de outros estados, e perguntam: ‘Vocês podem indicar alguma escola que seja inclusiva?’. Eu sempre digo que não consigo indicar nenhum tipo de escola, pois vemos, constantemente, a falta de capacitação dos profissionais. Essa falta de habilidade e conhecimento abarca diversos profissionais que compõem o ambiente escolar, porque o autismo é diverso, não existe só um tipo de autista. Percebemos essa dificuldade, no entanto essa capacitação é necessária e precisa ser feita”, comentou.
O gerente comercial José Walter da Silva, pai de uma criança com autismo, cujo grau de suporte é três, contou que o início da vida escolar do filho foi muito difícil. “Nada é fácil para quem tem um filho autista. A escola não recebe de braços abertos, são poucas que aceitam. Primeiro, eu botei ele em uma instituição particular, nela eu via que meu filho era rejeitado, porque percebemos quando um professor tem um carinho, tem um cuidado e quando não tem”, comentou.
Diante disso, José Walter decidiu trocar o filho de escola e apostar em uma instituição pública, Centro de Referência em Inovação da Aprendizagem (Cria) Capitulina Sátyro — escola estadual de Ensino Fundamental localizada no bairro João Agripino, em João Pessoa. “No começo foi difícil, porque não tinha cuidador. Eu deixava ele na escola, quando chegava em casa e estava tomando café para ir trabalhar, então a direção da escola ligava: ‘venha buscar o Luis Vitor que ele está descontrolado’”, lembrou.
A situação melhorou depois que a escola conseguiu, junto à Fundação Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Deficiência (Funad), um cuidador para acompanhar o menino durante o período escolar e, graças a Deus, ele desenvolveu bastante, aprendendo a ler de forma mais fluida. Ele estuda nessa escola até hoje”, contou.
O gerente comercial destacou, ainda, a importância de a família e a escola trabalharem juntos. “A gente não pode dizer que foi fácil, tudo tem que ter uma equipe, um conjunto. Meu filho sempre conversava comigo e eu com ele, com a professora, com o cuidador e com a diretora. O Luis Vitor costuma ter uns ‘de repente’, não é fácil ter uma criança autista, pois não sabemos quando ele está bem e quando não está. Com a ajuda de todos, hoje, conseguimos ter um cuidado melhor. Eu posso deixar ele na escola e fico tranquilo que ele vai ficar” disse. O filho de José Walter estuda na mesma escola há cinco anos, onde permanece durante um turno. O outro é reservado para que Luis Vitor possa fazer suas terapias.
Inclusão também esbarra em falhas no processo de formação docente
A diretora do Cria Capitulina Sátyro, Tatiene Valentim, destacou que as instituições de Ensino Superior não formam professores preparados para lidar com crianças no espectro. Por isso, ela está sempre investindo em cursos e capacitações para si mesma e para os funcionários da escola, que atualmente tem 26 alunos com laudos médicos, sendo 12 deles de TEA.
Muitos desses cursos são ofertados pela Funad. Dados da instituição apontam que, no ano passado, 2.171 certificados de participação em cursos e eventos formativos foram emitidos e 3.294 profissionais participaram de formações com foco em todos os estudantes que compõem o público--alvo da Educação Especial — aqueles com deficiência, transtorno do espectro autista e altas habilidades/superdotação.
A coordenadora da Assessoria de Educação Especial da Funad, Samiri Mendes, contou que tem recebido demandas das escolas referentes à capacitação dos profissionais da equipe pedagógica. “Atualmente, a maior demanda concentra-se em formações voltadas à inclusão do estudante autista no contexto escolar, especialmente no que se refere à realização de adaptações pedagógicas, organização de práticas inclusivas e manejo de situações de crise no ambiente escolar”, afirmou.
Tatiene Valentim informou que uma das maiores dificuldades, hoje, é garantir a presença de cuidadores para as crianças que precisam, pois o processo de solicitação é burocrático e um pouco lento. De acordo com a Secretaria de Estado da Educação, atualmente a rede estadual conta com 107 cuidadores e 62 mediadores. Enquanto os mediadores auxiliam o aluno na compreensão das atividades escolares e o estimulam a desenvolver autonomia, os cuidadores oferecem um suporte mais amplo, auxiliando em tarefas como se alimentar e usar o banheiro, por exemplo, no caso das crianças que não conseguem fazer isso sozinhas. Ela ressaltou, porém, que nem todas as crianças com TEA precisam dessa assistência. As que estão no grau de suporte um, por exemplo, costumam se comportar de forma mais independente.
Outra questão para a qual a diretora chama atenção diz respeito ao fato de que muitas crianças autistas sofrerem preconceitos, chegando à escola com traumas relacionados a isso. Tatiene, inclusive, citou o caso de um estudante que teve uma crise de ansiedade quando foi orientado a usar o cordão de quebra-cabeça colorido, que indica autismo, em um passeio fora da escola. Posteriormente, a mãe da criança explicou que ele sofreu bullying enquanto usava o cordão e acabou associando o episódio ao acessório.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de março de 2026.