Nascidas de 1965 a 1980, as pessoas que compõem a geração X são, atualmente, as mais satisfeitas com a vida amorosa e sexual no Brasil. Resultados da pesquisa Love life satisfaction 2026, desenvolvida pela Ipsos, mostram satisfação de 67%, entre aqueles com idades de 45 a 60 anos, nos relacionamentos e experiências afetivas. Para a psicóloga e sexóloga Roselaine Londero Mossatti, as pessoas nessa faixa etária estão mais seguras em suas escolhas, e “se permitem mais, tendo maior autoconhecimento e clareza do que querem para si e em seus relacionamentos — ou estão em busca desse autoconhecimento”.
O estudo informou, ainda, que entre os millennials — nascidos de 1981 a 1996 — o percentual foi de 61%; já os representantes da geração Z — de 1997 a 2010 — atingiram 57%.
Por meio da pesquisa, pode-se concluir, portanto, que aqueles que vivem a maturidade estão mais confortáveis no amor e na sexualidade. Roselaine relata mediante sua experiência que “na prática clínica, o que vejo são pessoas que não querem mais sofrer nem perder tempo com o que não lhes faz bem e que priorizam seu prazer e bem-estar, o que inclui a saúde física, emocional, mental e sexual”.
Subdelegada estadual da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (Sbrash), a psicóloga pontua que, atualmente, as pessoas que têm de 45 a 60 anos são ativas, se cuidam e querem viver a sexualidade de forma plena. É uma nova forma de se relacionar com o corpo e a mente: o sexo já não é mais como aos 20 anos ou o no início do relacionamento, mas há uma busca maior pelo prazer e como expressar isso.
Maturidade e segurança são elementos importantes nessa equação, influenciando vivências mais satisfatórias nos relacionamentos e na intimidade. Contudo, para além da experiência acumulada, é preciso ter autoconhecimento. Isso envolve conhecer o próprio corpo e o que lhe dá prazer — não apenas sexual —, explorando e entendendo os próprios limites e com maior liberdade para ser quem é, livre de preconceitos e estereótipos.
Questões de gênero e as expectativas sobre o papel da mulher nos relacionamentos também influenciam o nível de satisfação, que ainda é maior para os homens brasileiros (63%) do que entre as mulheres (55%). Por outro lado, Roselaine identifica que o comportamento e a autopercepção das mulheres têm passado por transformações significativas.
“A menopausa já não é mais vista como o fim da linha”, a psicóloga destaca que, se antes as mulheres se calavam, nos dias atuais muitas, nessa faixa etária, permitem-se rever crenças e ir em busca do próprio prazer, descobrir seus orgasmos, reacender a libido, e até mesmo, incorporar novos repertórios sexuais nas relações.
As pessoas desse grupo etário, principalmente as mulheres, têm se mostrado, de acordo com Roselaine Mossati, cada vez mais livres, seguras e abertas a buscar ajuda profissional especializada, se houver necessidade. “Quando as expectativas de gênero estão alinhadas ao que cada um espera da parceria, há uma maior satisfação”, avalia a subdelegada da Sbrash.
Ter clareza, transparência e conversar abertamente sobre desejos, anseios e expectativas, requer, conforme explica a psicóloga, reavaliar atitudes, crenças e tabus que permearam a construção da sexualidade e suas percepções. “É uma idade em que as pessoas passam a olhar para a vida que construíram, o que ainda querem viver e como desejam ter essas vivências. São pessoas que não renunciam a sua individualidade, conciliam a vida em família, mas também priorizam os momentos do casal”, afirma Roselaine.
Aos 57 anos, Josefa Gomes percebe-se mais confortável consigo mesma e, por consequência, mais satisfeita. “Sinto-me mais feliz, livre de receios e me reconheço, principalmente agora, como uma pessoa mais corajosa, mais bonita e confiante”, revela. Exatamente nessa fase da vida, ela encontrou um relacionamento no qual as suas necessidades são contempladas. Há um ano e quatro meses, conheceu uma pessoa pela internet, resolveu encontrá-la pessoalmente e, desde então, estão juntos. “Ele é do interior, então preciso ir até lá para que a gente se encontre”, conta.
Os dois decidiram viver o companheirismo com liberdade e independência. “Começamos um namoro, eu aqui e ele lá, mas eu gosto que seja assim, e me sinto satisfeita. Acho que, para namoro, relacionamentos e também para o sexo, não tem idade. O que importa é ser feliz”, afirma Josefa, opinando que, na sua experiência, as atitudes que mantêm um relacionamento satisfatório são a confiança e a compatibilidade.
Longe de ser um obstáculo, para ela o relacionamento a distância cria oportunidades de sair da mesmice, mudar de ambiente e ter novas experiências. “Adoro viajar, então a cada 15 dias eu vou até onde ele mora, passo um fim de semana, aproveito para descansar, e assim seguimos. Concordamos um com o outro e achamos melhor assim. Passei por três relacionamentos quando eu era mais jovem, mas esse que eu vivo hoje em dia é o melhor que já tive”, relata. “Agora me sinto melhor, minha intimidade e autoestima estão melhores. Sinto-me mais segura que no passado”, acrescenta Josefa.
Comunicação e estabilidade
Em média, na totalidade dos países em que a pesquisa foi conduzida, 60% dos entrevistados se dizem satisfeitos com a vida amorosa e sexual. No Brasil, o status civil foi fator determinante para os índices de satisfação, que entre as pessoas casadas atingiu os 83%. Já entre os solteiros, o percentual foi de 70%. “Relações duradouras e estáveis proporcionam maior segurança. A sensação de apoio e o pertencimento contribuem para o sentimento de bem-estar”, aponta Roselaine Mossati.
Essa realidade, de acordo com a psicóloga, perpassa um contexto relacional em que se tem uma comunicação clara, com objetivos em comum, bons vínculos emocionais, proximidade afetiva, intimidade e abertura para explorar novidades juntos, o que inclui conhecer novos lugares e ter novas experiências, bem como falar abertamente sobre sexo, desejos e fantasias. “Afinal, estamos falando de pessoas com maior clareza de limites e expectativas mais realistas, que escolhem estar em relacionamentos compatíveis com seu estilo de vida, baseados no respeito e na parceria, e com padrões comunicacionais assertivos e transparentes”, conclui.
Casada há 11 anos, Sandra Galdino está vivendo, no seu segundo relacionamento, uma parceria madura e estável. O encontro do casal aconteceu quando cada um já tinha dois filhos e acumulava anos de experiências, erros e acertos. “Nos conhecemos na faculdade, apaixonamo-nos e resolvemos nos unir. Até então nossa união tem sido maravilhosa, com seus altos e baixos, é claro, mas muito satisfatória”, afirma.
Sandra viveu, durante 23 anos, uma relação abusiva e hoje, aos 50, em uma nova união experimenta um recomeço. Com o atual marido, Eduardo, foi construindo uma relação fundamentada em comunicação e cuidado. “Nosso relacionamento começou na base de uma amizade, não foi uma coisa repentina”, conta. Depois do início da trajetória a dois, eles passaram mais de um ano em preparação para começar, de fato, a viver juntos. “Então [nesse contexto], sempre conversávamos abertamente, sobre frustrações do passado e tudo que eu tinha vivido”, compartilha Sandra, defendendo que a geração X, tem a seu favor o tipo de relação estabelecida com o tempo que interfere no ritmo de vida, além de um ambiente formativo que favoreceu o surgimento de um grupo de pessoas resilientes. “Nós éramos do tempo do recadinho, então crescemos num período totalmente diferente desse de hoje, onde as informações são muito mais rápidas e a expressão é muito mais espontânea e apressada. No nosso tempo, a gente tinha que saber esperar o momento para tudo”, lembra Sandra. “Depois de uma certa idade, começamos a entender e enxergar as coisas de uma forma diferente. Eu já consegui superar coisas do passado, que hoje eu não faria igual”, relata.
Um dos ganhos que o tempo trouxe, na avaliação de Sandra, foi o aumento da autoconfiança e, com isso, maior assertividade e capacidade de escolha. “Como mulher, aprendi a me impor com mais clareza: ‘eu não quero menos do que o que eu mereço e só vou aceitar aquilo que me faz bem’. Foi assim que eu adquiri, essa realização comigo mesma, de me amar, de achar que eu sou suficiente, capaz de entender o próximo e saber conviver”, afirma.
Quando o assunto é a intimidade do casal, no relacionamento de Sandra e Eduardo, além da disposição para o contato e para a descoberta contínua do outro, o diálogo e a franqueza são elementos- -chave para uma vivência plena e satisfatória. “Sempre tivemos a liberdade de falar um para o outro o que era bom, o que era suficiente e o que não funcionava. Então, a gente sempre conversa, sempre estamos abertos. Temos nossos momentos a sós, saímos para namorar, curtir e sempre falamos sobre as nossas vontades. Então, realmente faz a diferença e ajuda a nossa relação a ser mais ativa sexualmente, com maturidade e satisfação”, conta Sandra.
Sexualidade e saúde
A sexualidade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é um conceito amplo, construído socialmente e que envolve desde a forma como as pessoas relacionam-se com o seu próprio corpo, passando pela afetividade e chegando aos relacionamentos, indo muito além do ato sexual em si. “Envolve desejos, sentimentos e interações que nos movem na busca pelo amor, pela intimidade, e pelo contato”, ressalta a psicóloga Roselaine.
Na dimensão biopsicossocial, a sexualidade é atravessada tanto por fatores biológicos e psicológicos, quanto pelos socioculturais e econômicos. Nesse contexto, falar de satisfação na vida amorosa e sexual envolve o cuidado abrangente com a saúde física e o bem-estar psíquico. “É crucial manter um estilo de vida saudável, conhecendo o próprio corpo, seus desejos e limites, e tendo a liberdade de conversar abertamente com a parceira ou parceiro sobre isso”, exemplifica a especialista.
O cuidado com a qualidade das relações e conexões íntimas começa com o fortalecimento dos vínculos emocionais. Sendo assim, se faz importante ter gestos e comportamentos afetivos, tanto na expressão interpessoal, como também na sexualidade. “É preciso saber agir com assertividade, mantendo uma comunicação aberta e explícita, e alinhar expectativas e desejos compatíveis com o momento e estilo de vida”, descreve Roselaine, destacando a importância de saber equilibrar individualidade e conjugalidade, e não ter vergonha de buscar ajuda especializada quando for necessário. “Cuidar de si e do relacionamento é um ato de amor”, finaliza.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de março de 2026.
