A dor menstrual ainda costuma ser considerada algo normal na vida da mulher. Essa naturalização pode dificultar o diagnóstico de condições que causam distúrbios hormonais e doenças ginecológicas, como ovários policísticos, adenomiose e endometriose — sendo esta última uma das principais causas de infertilidade feminina.
Caroline Oliveira, relembrando sua vivência com o diagnóstico de endometriose, relata que sentiu cólicas desde a primeira menstruação, mas, como muitas meninas, cresceu acreditando que era normal. “Só procurei ajuda médica aos 18 anos, quando as dores começaram a se intensificar e deixaram de ser algo suportável. O diagnóstico demorou cerca de oito anos para ser definido; nesse período, eu ouvia que os exames estavam normais, enquanto meu corpo mostrava o contrário. Isso mexe muito com o psicológico, porque a gente começa a se perguntar se a dor é realmente tão forte assim, se estamos exagerando ou se deveria simplesmente aguentar”.
De acordo com o Ministério da Saúde (MS), estima-se que uma em cada 10 mulheres apresenta sintomas da doença sem saber que a possui. Por isso, durante o mês de março é realizada a campanha Março Amarelo, com o intuito de conscientizar a população sobre os sintomas da endometriose, além de destacar a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado.
O ginecologista João Alves explica que a doença não tem uma causa exata definida, sendo uma inflamação crônica causada por múltiplos fatores. “A endometriose é caracterizada pelo implante do endométrio, que é uma camada no interior do útero, em outros locais fora do útero. Isso causa um processo inflamatório crônico e leva a vários sintomas e a vários problemas ginecológicos”, explicou o médico.
O especialista ressalta ainda que a condição atinge, principalmente, as mulheres em idade reprodutiva, dos 20 aos 40 anos, e que não se manifesta da mesma forma em todas as pacientes. “Ela começa lentamente, com cólicas parecidas com as menstruais normais e, por isso, as mulheres não procuram atendimento. Mas na endometriose essas cólicas, que nós chamamos de ‘dismenorreia’, vão ficando cada vez mais intensas. Todas as mulheres em idade reprodutiva que tiverem uma dismenorreia crescente devem atentar para a endometriose”, esclareceu.
Além das cólicas fortes, o médico detalha que as mulheres com endometriose também podem sentir distensão abdominal, dor pélvica crônica, dor durante as relações sexuais e alguns sintomas urinários e intestinais.
Caroline conta que percebeu essa crescente na intensidade das dores com o passar do tempo. “Os principais sintomas que eu enfrentava eram cólicas intensas, dores pélvicas, desconforto abdominal, enjoos, náuseas e uma fraqueza muito forte durante o período menstrual. A dor era tão intensa que eu chegava a desmaiar. Com o passar dos anos, percebi que os sintomas foram se agravando. A cada mês parecia mais intenso, mais desgastante, como se meu corpo estivesse entrando em um ciclo de sofrimento cada vez maior”, relatou.
Infertilidade e tratamento
A endometriose, além de ser uma condição multifatorial, pode provocar sintomas que se manifestam de maneira diferente em cada mulher. Entre esses sintomas, a infertilidade é um dos mais frequentes. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) destaca que de 30% a 50% das mulheres com endometriose enfrentam dificuldades para engravidar.
Quanto mais cedo o diagnóstico é realizado e o tratamento iniciado, maiores são as chances de preservar e controlar a fertilidade de forma eficaz. Além disso, a endometriose — que pode ser classificada como superficial ou profunda —pode se espalhar do útero para outros órgãos, como a bexiga e o intestino. Essa progressão pode provocar complicações mais graves e até irreversíveis, como obstrução do ureter ou do intestino, tornando necessária, em alguns casos, a intervenção cirúrgica.
“A endometriose causa uma falta de comunicação do útero com os ovários. Além disso, o útero fica muito aderido, o que dificulta a gravidez. Se a paciente deseja engravidar, o médico pode soltar essas aderências por meio da videolaparoscopia, assim os órgãos ficam mais permeáveis, facilitando a gestação. Uma dieta saudável e exercícios físicos também ajudam a melhorar a qualidade de vida dessas mulheres”, destacou o ginecologista.
Para Caroline, o processo cirúrgico foi necessário para lhe devolver a qualidade de vida. “Houve um período em que utilizei anticoncepcionais para a doença, mas eles não trouxeram a melhora esperada. Diante disso, precisei passar por uma cirurgia para a remoção do foco da endometriose. Após o procedimento, foi colocado o dispositivo intrauterino (DIU) Mirena como parte do tratamento hormonal, o que trouxe uma melhora significativa na minha qualidade de vida. Foi um divisor de águas. Além do tratamento médico, também precisei rever meus hábitos. Passei a ter mais atenção com a alimentação, inclui atividade física na rotina, comecei a observar com mais cuidado os sinais do meu corpo e, principalmente, deixei de ignorar sintomas que antes eu tentava suportar. Aprendi a me escutar mais”, afirma.
Ela conclui destacando que, caso pudesse dar um conselho às mulheres que possam estar sofrendo com as dores da endometriose, seria: não normalizar essa dor. “Busque informação, apoio e acompanhamento constante. Se algo parece errado, investigue. Insista. O seu corpo não está exagerando — ele está pedindo atenção”, pontuou.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de março de 2026.