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arte do mosaico

Fragmentos que contam histórias

publicado: 05/01/2026 09h30, última modificação: 05/01/2026 09h30
Homenageados no Salão do Artesanato Paraibano, que começa nesta semana, mosaicistas celebram reconhecimento
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Cristiane e Tereza Cristina integram o grupo de 10 artesãos que serão laureados na programação do evento, na capital | Fotos: Carlos Rodrigo

por Joel Cavalcanti*

O mosaico é uma linguagem simbólica de reconstrução e permanência. Fragmentos de diferentes formas, cores e origens unem-se para formar imagens, símbolos e memórias coletivas. É esse o conceito que inspira o 41º Salão do Artesanato da Paraíba — que, neste ano, presta homenagem aos mosaicistas, artistas que transformam pedaços dispersos em obras que resistem ao tempo e criam um reflexo da própria história da arte popular paraibana.

O evento, inaugurado na próxima quinta-feira (8), ocorrerá até o dia 1º de fevereiro, na orla de João Pessoa, em uma área totalmente redesenhada para receber os visitantes. A nova edição da feira deve reunir 580 expositores, sendo 450 com Carteira Nacional do Artesão, além de produtores da agricultura familiar e empreendedores criativos que integram a cadeia do artesanato. Com expectativa de receber mais de 100 mil visitantes e movimentar R$ 5 milhões em vendas, ao longo de todo o período de funcionamento na capital paraibana, o Salão é considerado o maior evento de valorização do fazer manual na Região Nordeste.

Assinada pelo designer Sérgio Matos, a cenografia do espaço-sede foi pensada para traduzir visualmente o conceito da homenagem aos mosaicistas. Na entrada, uma instalação de grande dimensão recria o processo de montagem de um mosaico: extensos painéis formados por fragmentos de cerâmica colorida misturam-se a peças de vidro, madeira e metal, representando a diversidade de matérias-primas e estilos utilizados pelos artesãos paraibanos.

De acordo com Marielza Rodriguez, gestora do Programa do Artesanato Paraibano (PAP), a escolha do tema é uma forma de reconhecer a importância e a profundidade de uma técnica que, apesar de estar amplamente presente no cotidiano das cidades, ainda é pouco identificada como expressão artística regional.

“O mosaico é parte da nossa paisagem. Está nas praças, nos monumentos, nas fachadas, nas igrejas e até nos calçadões das praias. Mas nem sempre as pessoas conhecem quem faz, como faz e o valor cultural que isso representa. A homenagem vem para dar rosto, voz e história a esses artistas. Ninguém ama aquilo que não conhece. Ao serem mais conhecidos, esses artesãos também serão mais valorizados”, afirma Marielza.

O levantamento realizado pelo PAP identificou cerca de 20 mosaicistas atuantes na Paraíba, com concentração nos municípios de João Pessoa, Campina Grande e Cabedelo. Dentre eles, 10 foram selecionados para receber o tributo especial, com direito a exposição de obras, retratos fotográficos e um minidocumentário sobre suas trajetórias, que será exibido durante o Salão.

Carreiras nasceram como lazer e terapia

Casal passou a dedicar-se à técnica por meio de um vídeo no YouTube; hoje, o acervo que mantém em casa é pequeno, porque suas obras são rapidamente vendidas

Uma das histórias a serem reverenciadas no evento é a da artesã Cristiane Maranhão Galdino, conhecida como Cris, que vive e trabalha no bairro José Américo, em João Pessoa. Há 10 anos, ela e sua companheira, Tereza Cristina, decidiram mudar completamente de vida ao descobrir, por acaso, o mosaico. “Tereza viu um vídeo no YouTube e disse: ‘Vou fazer isso aqui’. Comprou as ferramentas, começou a testar e eu entrei na onda. Foi paixão à primeira vista. Nunca mais paramos. Hoje, vivemos do mosaico e ele vive em nós”, relata Cris, cercada de instrumentos e peças coloridas no ateliê que montou em casa. 

O início da jornada foi desafiador, marcado por muita experimentação e pouco reconhecimento, conforme lembra a artesã. “No começo, as pessoas achavam que era uma coisa de improviso, feita com resto de material. Não viam o valor artístico e técnico por trás. Mas o mosaico é uma arte de precisão, de paciência e sensibilidade. A gente escolhe cada fragmento, cada cor, cada linha. É como pintar com cacos. É uma arte milenar e eternizante”, destaca.

Hoje, o acervo que Cris e Tereza mantêm em casa é até pequeno, pois tudo que elas produzem é vendido muito rapidamente. Para Cris, o reconhecimento do Salão do Artesanato Paraibano é uma peça que estava faltando para que os mosaicistas ganhassem mais visibilidade. “É a primeira vez que a gente é olhada com tanto carinho. A homenagem vai mostrar que o mosaico não é sobra, é arte. E que cada pedacinho carrega a energia de quem o coloca ali”, ressalta. 

Projeto social

Entre os homenageados, também está Andrea Bronzeado Cahino de Almeida, que se dedica à técnica há 19 anos. O que começou como uma forma de terapia pessoal evoluiu para um trabalho social transformador: o projeto Mosaico nas Ruas, que envolveu jovens em situação de vulnerabilidade e foi desenvolvido em parceria com a Prefeitura Municipal de João Pessoa e o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB).

“Eu dava aula para menores carentes e para jovens em conflito com a lei. O mosaico servia como uma ferramenta de recomeço. Muitos seguiram comigo depois que saíram do programa. Era um resgate pela arte. O mosaico traz tranquilidade, dá tempo para pensar na vida e desperta o senso de pertencimento”, conta Andrea.

Os painéis produzidos por ela e por seus alunos mudaram o cenário urbano de João Pessoa. Obras espalhadas por pontos emblemáticos da cidade — como o Viaduto do Cristo Redentor (conhecido como “Sonrisal”), o Farol do Cabo Branco e diversos muros — tornaram-se marcos visuais e afetivos. “Cada painel tem um pedacinho de cada aluno, de cada história. É uma forma de eternizar a passagem deles por ali. Quando passo nesses lugares e vejo as peças ainda intactas, sinto que valeu a pena”, revela a mosaicista.

Grupo troca experiências e participa de oficinas

Promovido pela curadoria do Salão do Artesanato Paraibano, o encontro entre os 10 artistas que serão reverenciados durante o evento deu origem a uma nova rede de trocas e colaborações. “Muitos mosaicistas não se conheciam. Agora, estamos trocando técnicas, materiais e experiências. É uma conexão que o Salão possibilitou”, celebra Andrea.

Juntos, eles ainda participaram de etapas preparatórias para a feira, como uma oficina criativa de mosaico fotográfico, ministrada em novembro do ano passado, pelo artista plástico pernambucano Wilson Luiz. A capacitação foi viabilizada pelo PAP, com o intuito de contribuir com o conjunto de habilidades do grupo de homenageados.

“Wilson Luiz domina o mosaico em várias técnicas e, quando a gente o conheceu na Fenearte [Feira Nacional de Negócios do Artesanato], viu uma grande oportunidade de os mosaicistas aprenderem com ele essa técnica [de fotografia no mosaico], que é muito peculiar e que, certamente, vai valorizar muito o trabalho dos nossos artesãos, inclusive com novos nichos de mercado”, observou, à época, Marielza Rodriguez, gestora do PAP.

Essência

O mosaico, com sua natureza de fragmentos, representa de forma simbólica a essência do próprio artesanato paraibano: uma arte feita de união, de identidades diversas e de saberes transmitidos entre gerações.

Com o tema “Mosaico — Arte em Cada Parte”, a programação do Salão deste ano também contará com oficinas, ensinando técnicas básicas de corte e montagem em mosaico cerâmico, além de rodas de conversa com os homenageados e apresentações culturais. Reafirmando, mais uma vez, que a cultura popular é o mosaico mais vibrante da Paraíba.

Além de Cristiane Galdino, Tereza Cristina e Andrea Cahino, a lista de mosaicistas laureados inclui Wallace Verçosa, Maria Lúcia, Antônio Jacob, Terezinha Cattena, Hosana Batista, Francisca Ramalho Diniz e Luís Carlos Pereira Damasceno.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de janeiro de 2026.