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CONTROLE DE CHAMAS

Casos de incêndio caem 22% em 2025

publicado: 05/01/2026 09h30, última modificação: 05/01/2026 09h30
Levantamento estadual indica avanço no combate ao fogo, mesmo durante o período mais crítico de estiagem
bombeiros_extinção de fogo © roberto guedes (22).JPG

Até 15 de dezembro de 2025, os bombeiros atenderam a 2.976 ocorrências; em 2024, foram 3.806 | Foto: Roberto Guedes

por Priscila Perez*

A Paraíba registrou, em 2025, uma redução de 22% nos incêndios em vegetação atendidos pelo Corpo de Bombeiros Militar do estado (CBMPB). Até o dia 15 de dezembro, foram contabilizadas 2.976 ocorrências do tipo, em todo o território paraibano, contra 3.806 atendimentos registrados ao longo do ano retrasado.

A queda chama atenção por ocorrer em um cenário historicamente favorável à propagação do fogo: o período de estiagem, que combina clima seco, baixa umidade e altas temperaturas. De acordo com o CBMPB, o resultado está relacionado ao planejamento operacional antecipado, ao reforço das ações preventivas e ao monitoramento contínuo das áreas mais vulneráveis do estado, garantindo uma melhor resposta aos desafios climáticos. 

Foto: Divulgação/CBMPB

Embora os números indiquem um avanço importante no combate aos incêndios florestais, eles também pedem uma leitura cuidadosa. Segundo o coronel Saulo Alves Laurentino, presidente da Comissão de Gestão de Incêndios Florestais e comandante do 3º Comando Regional de Bombeiro Militar (CRBM), o cenário positivo de 2025 é resultado da combinação de fatores climáticos menos severos e medidas reforçadas de prevenção e combate ao problema. “Vale ressaltar que 2024 foi um ano recorde de incêndios no Brasil, com áreas queimadas muito acima da média histórica”, observa.

Áreas mais afetadas

De acordo com o relatório do CBMPB, o fogo segue concentrado no interior da Paraíba e, justamente, no período mais crítico do ano, de agosto a novembro, quando se registrou o maior volume de ocorrências. No fim de novembro de 2025, por exemplo, 18 municípios paraibanos estavam em situação de emergência por enfrentarem um longo período de estiagem, de Bananeiras a Barra de São Miguel, passando por Jericó, Gado Bravo e São José dos Cordeiros. Na prática, onde o clima seco é mais severo e a vegetação está mais ressecada, o fogo encontra menos resistência para avançar.

Não por acaso, no ano passado, o Sertão respondeu por mais da metade dos registros de incêndio no estado, com 1.499 atendimentos — 50,5% do total, conforme o Corpo de Bombeiros. Na sequência, aparecem as regiões do Litoral, com 723 registros, da Borborema, com 609, e do Agreste, onde o 4º CRBM contabilizou 145 ocorrências.

Como explica o coronel Saulo Laurentino, essa prevalência sertaneja está ligada a uma vulnerabilidade estrutural observada na área. “O clima semiárido severo, a vegetação de Caatinga, altamente inflamável na estiagem, o uso recorrente do fogo, ligado à cultura da utilização do solo, além de propriedades rurais extensas e da escassez de recursos hídricos, tornam a região intrinsecamente mais vulnerável ao fogo”, detalha a autoridade.

Por outro lado, o recorte dos dados por município ajuda a desfazer a imagem de que os incêndios em vegetação são um problema restrito à Zona Rural. Para se ter ideia, João Pessoa é a cidade que lidera o ranking de ocorrências em 2025, com 450 atendimentos, seguida por Patos (401 casos), Campina Grande (353), Cajazeiras (337) e Sousa (226). Ou seja, os números mostram que as áreas urbanas e periurbanas (zonas de transição entre o campo e a cidade) também fazem parte do problema.

Isso acontece porque, assim como no interior, utiliza--se o fogo para limpar terrenos baldios, mas, no contexto urbano, o excesso de mato e o acúmulo de resíduos inflamáveis acabam aumentando o risco de incêndios. “O avanço demográfico em áreas recém-habitadas da Região Metropolitana também traz consigo os efeitos antrópicos da urbanização, favorecendo o aumento desses indicadores”, complementa o coronel do CBMPB.

Atividades agrícolas irregulares contribuem para número de focos

Para além das questões climáticas, o fator humano segue, não à toa, sendo determinante na equação que resulta em incêndios no estado. Levantamentos anteriores do próprio Corpo de Bombeiros mostram que a maioria dos casos registrados no Sertão paraibano não é provocada intencionalmente, mas causada pelo uso do fogo, de forma clandestina e recorrente, para preparo do solo e para a limpeza de terrenos e pastagens.

A prática, como alerta o coronel Saulo Laurentino, é considerada crime ambiental. Conforme o comandante do 3o CRBM, mais de 90% dessas ocorrências poderiam ser evitadas com mudanças simples de atitude: “Não utilizar fogo no período de estiagem, descartar corretamente os resíduos e respeitar a legislação ambiental”. Vale lembrar que uma queima pontual pode originar um incêndio de grandes proporções, já que o clima seco favorece a propagação das chamas. “Essas ações individuais têm impacto significativo na redução dos incêndios em vegetação”, pontua.

Do mesmo modo, as características naturais da região sertaneja, com fortes ventos, altas temperaturas, baixa umidade e chuvas escassas, também dificultam — e muito — o trabalho das equipes de combate ao fogo. É nesse ponto que a prevenção torna-se uma estratégia de especial importância. Desde setembro de 2025, a Operação Queimadas vem reforçando a atuação dos bombeiros quanto a episódios desse tipo, com planejamento operacional antecipado, posicionamento estratégico de viaturas, aplicação de recursos em formações técnicas e intensificação de ações educativas.

Na avaliação de Saulo, essa abordagem contínua contribui para explicar os resultados obtidos no ano passado. “O Corpo de Bombeiros tem avançado de forma exponencial nos últimos anos, com investimentos em capacitação, tecnologias, equipamentos e operações específicas nos períodos mais críticos. A parceria com órgãos ambientais estaduais e federais também tem sido fundamental para esses avanços”, detalha.

Cursos aprimoram a capacidade dos agentes para situações complexas

Equipes ganharam o reforço de ferramentas estratégicas | Foto: Divulgação/CBMPB

No campo da capacitação do Corpo de Bombeiros paraibano, o preparo do efetivo acompanha a complexidade dos cenários enfrentados no estado. A corporação tem ampliado o número de cursos, treinamentos e participações em eventos técnicos, no Brasil e no exterior, fortalecendo a atuação dos agentes em situações cada vez mais extremas.

“A cada ano, nossos bombeiros militares estão mais capacitados e mais bem equipados para lidar com esses desafios”, afirma o comandante do 3o CRBM. Iniciativas como o Estágio de Combate a Incêndio Florestal (Ecif) reforçam essa direção, ao preparar as equipes para ocorrências de maior complexidade, com o apoio do Grupamento Tático Aéreo (GTA), da Secretaria de Estado da Segurança e da Defesa Social (Sesds) e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas). A lógica é simples, mas poderosa: quanto maior o preparo, maior a capacidade de resposta.

Esse avanço também se reflete na estrutura disponível para o combate às chamas. Equipamentos específicos passaram a integrar, de forma mais consistente, a rotina das equipes do CBMPB, como bombas costais, viaturas próprias para resgates e abafadores — fundamentais para conter o avanço das chamas em áreas de difícil acesso. Além disso, em municípios onde se observam situações mais críticas, viaturas-tanques assumem um papel especialmente estratégico, não apenas no combate direto aos incêndios, mas também no apoio à população, durante os períodos mais severos de estiagem.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de janeiro de 2026.