A população de João Pessoa e da Região Metropolitana conta com a opção do transporte ferroviário urbano. As antigas locomotivas deram lugar aos Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs), que oferecem ar-condicionado e sistemas mais modernos. Ao todo, o sistema possui 30 km de extensão, percorrendo quatro municípios paraibanos: João Pessoa, Santa Rita, Bayeux e Cabedelo.
Ao longo desse percurso, no entanto, o sistema enfrenta problemas como construções irregulares na faixa de domínio da ferrovia. De acordo com a legislação, essa área deve ser delimitada a uma distância mínima de 15 m em ambos os lados da linha férrea, sendo proibida qualquer edificação. Apesar disso, as irregularidades são recorrentes. Segundo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), responsável pelo modal, desde 2022 as ações de controle e preservação da faixa de domínio vêm sendo intensificadas. Até o momento, seis processos de reintegração de posse foram formalizados.
De acordo com a coordenação jurídica da CBTU, o cenário atual dessas ações, que abrangem quatro processos na capital e dois em Cabedelo, apresenta avanços significativos. Duas dessas ações encontram-se em fase de cumprimento de sentença e três tiveram as reintegrações deferidas e aguardam a conclusão definitiva. A companhia também aguarda a entrega de 32 residências por parte da Prefeitura de Cabedelo, o que permitirá a desocupação da via férrea com a devida assistência às famílias envolvidas, garantindo moradia digna. Além da via judicial, o monitoramento preventivo e o diálogo têm gerado resultados positivos, com outras ocupações sendo solucionadas de forma administrativa, sem necessidade de intervenção da Justiça.
Em muitos casos, as margens da ferrovia foram ocupadas por construções residenciais e comerciais, além de serem utilizadas como depósitos de materiais recicláveis ou áreas de pastagem e descanso de animais. Essas situações representam riscos à segurança operacional do sistema de trens urbanos e podem contribuir para a ocorrência de acidentes. O técnico em estradas da CBTU, Othomagno Viegas, explica que muitas edificações surgem, principalmente, aos fins de semana. Como o sistema opera até as 13h do sábado e só retorna na segunda-feira, algumas pessoas aproveitam esse período para erguer construções irregulares. “O pessoal vai lá e constrói seu casebre. A segurança identifica e a orientação do jurídico é tentar o desforço imediato, ou seja, fazer a desocupação, mas nem sempre é possível resolver na conversa. Muitas vezes as pessoas não querem sair e precisamos judicializar”, afirma, destacando, ainda, que a situação reflete um problema social mais amplo, que é a falta de moradia.
O técnico chama atenção para os riscos desse tipo de ocupação. “As pessoas costumam dizer que o trem atropelou ou bateu em um carro, mas o trem não sai da via para colidir, ele trafega em via exclusiva. Salvo uma catástrofe, o que ocorre são pessoas ou objetos que estão no caminho do trem e os riscos são muito altos, inclusive de morte, quando não há preservação da faixa de domínio”, ressalta.
Outro problema recorrente é a instalação de passagens de nível clandestinas para atravessar a linha férrea, feitas pela própria população, o que também aumenta os riscos. Há ainda casos de pessoas que jogam pedras nos trilhos para ver o trem passar por cima. Tratada, muitas vezes, como brincadeira de crianças, a prática é extremamente perigosa e pode causar acidentes.
Destruição
Depredações e outros atos de vandalismo nos trens também são registrados, embora com menor frequência. A CBTU afirma que realiza campanhas constantes de conscientização para combater esse tipo de prática. O coordenador de operações da companhia, Severino Urbano, explica que, devido a situações recorrentes de vandalismo, o sistema deixou de operar durante o período carnavalesco, mas deve voltar a funcionar neste ano. “Toda vez que colocávamos os trens para rodar, jogavam tinta, urina, fezes, óleo queimado. Era um transtorno, além dos vandalismos dentro do trem. Mas vamos fazer a experiência este ano, devido ao aumento da procura de turistas por João Pessoa. Acreditamos que haverá grande demanda, além da própria população que precisa do serviço, e vamos disponibilizá-lo”, afirma.
Outros episódios de vandalismo, como o roubo de fios, já foram enfrentados pela empresa há cerca de cinco anos. Segundo a CBTU, campanhas educativas, o reforço da segurança dentro dos trens e o apoio das polícias Civil e Militar têm contribuído para a redução desses índices e para a fiscalização das situações de vandalismo ao longo da linha férrea.
Custo alto de manutenção
Além dos prejuízos diretos para a população, que pode ficar sem o serviço em casos de vandalismo ou depredação de trens e da linha férrea, o custo de manutenção de todo o sistema é elevado. Quando os consertos decorrem de ações humanas, são utilizados recursos públicos — já que o modal é subsidiado pelo Governo Federal — que poderiam ser melhor aplicados em outras áreas. O técnico em estradas da CBTU, Othomagno Viegas, chama atenção para os altos valores envolvidos. “Certa vez, um componente do VLT danificado em uma colisão custou R$ 35 mil. Um para-brisa, por exemplo, custa hoje em torno de R$ 50 mil a R$ 60 mil. Tudo em trem é superlativo, a maioria dos componentes custam um valor acima de R$ 10 mil”, destaca.
Ele explica que uma pedra, frequentemente arremessada por crianças, pode provocar danos em sensores dos trens, exigindo a retirada do veículo de circulação para manutenção, o que gera atrasos e transtornos para os usuários. O trabalho de manutenção preventiva é realizado de forma contínua, na oficina localizada em Cabedelo. Normalmente, dois VLTs operam simultaneamente, enquanto outros dois passam por revisão. “É feita toda a revisão da parte de frenagem, tração, portas, tudo que diz respeito ao veículo estar em perfeito funcionamento. Esses trens ficam revezando com os outros dois que estão em circulação”, explica Othomagno.
Além disso, manutenções mais intensas são realizadas em períodos semanais, mensais ou trimestrais. Aos sábados, quando a operação está suspensa, são executados serviços mais pesados, que exigem a interrupção total da circulação dos trens. No entanto, quando ocorrem danos aos veículos, esse planejamento é comprometido, afetando diretamente os horários e a regularidade das linhas.
A CBTU de João Pessoa reforça que os trens urbanos são patrimônio público e que os maiores prejudicados pela depredação são os próprios usuários do sistema ferroviário. Por isso, a companhia destaca a importância de a população zelar pelo serviço. O órgão também lembra que vandalismo é crime e que esse tipo de ato não causa prejuízos apenas ao Estado, mas a toda a sociedade.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de setembro de 2026.